quarta-feira, abril 12, 2006

CRIATURAS

O Senhor Rodrigues gosta de gatos.
De noite, só os gatos moram aqui. Ando por entre eles, e não me ligam nada. Os gatos são autistas, dizia-me um biólogo. Mas enquanto me dizia isto, reparei que olhava para o próprio umbigo. Falava em direcção a si próprio. O autista era ele; e um gato que andava por ali miava-lhe, à espera que o autista reparasse nele e lhe pusesse um prato de leite. Em vez disso, o biólogo despejou leite num prato e lambeu-o, sob o olhar de ódio do gato. Mas os gatos são incapazes de ódio, disse-me o biólogo. Se estou a fazer isto, é apenas para demonstrar a tese de que o olhar de um gato não é portador de expressão. Concordei com ele, mas se não tivesse concordado teria sido a mesma coisa. Quando saí de casa, o biólogo tinha-se posto de gatas e miava para o gato. Discutiam política. No fundo, a luta pelo poder trava-se sempre entre criaturas que estão de gatas. Ainda disse ao biólogo que se levantasse, já da rua; mas ele olhou para mim, com o olhar suplicante de quem me queria ver de gatas. Quanto ao gato, tinha subido para cima da janela e olhava pelo vidro. Mas como era de noite, o que o gato via era o seu próprio reflexo no espelho; e quando, do lado de fora do vidro, espreitei para dentro de casa, reparei que quem estava à janela era o biólogo, perguntando a si próprio porque é que o seu reflexo no vidro tinha a figura de um gato. Não sabe que os gatos são autistas?, gritei-lhe do outro lado da janela. Mas ele só pensava no gato; e quando começou a miar fugi dali, antes que no espelho da janela, do lado de fora, eu também me transformasse num gato. E só quando cheguei a casa, e o meu gato me deitou um olhar de ódio,é que reparei que tinha roubado o pacote de leite de casa do biólogo.

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