terça-feira, abril 04, 2006

CONFISSÃO

O Senhor Rodrigues confessa-se.
A confissão obriga o Senhor Rodrigues a estar contra si próprio. É como se alguém que chupa no dedo tivesse de dizer que chupar no dedo é uma coisa contra a natureza. Mas quanto mais diz isto, mais o chupa, até a unha cair e a pele ficar reduzido ao osso. A contradição é própria do ser humano. E quanto mais o Senhor Rodrigues se confessa, mais confessa que a confissão o incomoda. No fim de cada confissão, o seu espírito fica reduzido à mais ínfima substância. «É como a minha alma tivesse ficado sem unhas. Como poderei agora coçar a minha inteligência?» No fim do dia, a Senhor Rodrigues faz a soma das suas confissões. E descobre que acabou por não confessar nada. É como aqueles que estão sempre de partida: e nunca saem do seu lugar. Também o Senhor Rodrigues está sempre a confessar-se, para descobrir que não tinha nada de que se desculpar.

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