sexta-feira, abril 07, 2006

CAVEIRAS


O Senhor Rodrigues acende o charuto.
Gostava de falar dos meus antepassados. Mas não tenho um cinzeiro, e terei de deitar a cinza para dentro dos seus crânios, sem olhar para eles. As doenças pegam-se pelos buracos das órbitas, de onde saem os ratos de cemitério. Há uma solução: pôr óculos escuros às caveiras. Ficam mais sociáveis; e até lhes ponho o charuto nos dentes (quando os têm) para que elas possam deitar umas boas baforadas que me permitam respirar o perfume do tabaco associado ao cheiro da terra. O problema é que, quando me apetece puxar-lhes pelas orelhas, não as encontro. Será isso que torna as caveiras mais atrevidas? Para as castigar, puxo-lhes pelo charuto; mas elas agarraram-no com as mandíbulas, e puxam freneticamente pelo fumo, que lhes sai pela cavidade da nuca, como se fosse uma chaminé de padaria. «Olha que pão tão bom», diz um transeunte distraído; e dá uma dentada no crânio, pensando que é um pedaço de côdea. É então que se ouve o grande grito das caveiras; e aproveito para lhes tirar o meu charuto, e acabo de o fumar tranquilamente, sem pensar mais nos meus antepassados.

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