quarta-feira, abril 12, 2006

The end

Começou em Abril de 2005.
Termina em Abril de 2006.
Um ano passou - tudo tem o seu tempo. E desta vez é que é de vez.
Obrigado pela atenção, que prolongou mais algum tempo a vida deste blog. Até hoje. E até sempre.

CRIATURAS

O Senhor Rodrigues gosta de gatos.
De noite, só os gatos moram aqui. Ando por entre eles, e não me ligam nada. Os gatos são autistas, dizia-me um biólogo. Mas enquanto me dizia isto, reparei que olhava para o próprio umbigo. Falava em direcção a si próprio. O autista era ele; e um gato que andava por ali miava-lhe, à espera que o autista reparasse nele e lhe pusesse um prato de leite. Em vez disso, o biólogo despejou leite num prato e lambeu-o, sob o olhar de ódio do gato. Mas os gatos são incapazes de ódio, disse-me o biólogo. Se estou a fazer isto, é apenas para demonstrar a tese de que o olhar de um gato não é portador de expressão. Concordei com ele, mas se não tivesse concordado teria sido a mesma coisa. Quando saí de casa, o biólogo tinha-se posto de gatas e miava para o gato. Discutiam política. No fundo, a luta pelo poder trava-se sempre entre criaturas que estão de gatas. Ainda disse ao biólogo que se levantasse, já da rua; mas ele olhou para mim, com o olhar suplicante de quem me queria ver de gatas. Quanto ao gato, tinha subido para cima da janela e olhava pelo vidro. Mas como era de noite, o que o gato via era o seu próprio reflexo no espelho; e quando, do lado de fora do vidro, espreitei para dentro de casa, reparei que quem estava à janela era o biólogo, perguntando a si próprio porque é que o seu reflexo no vidro tinha a figura de um gato. Não sabe que os gatos são autistas?, gritei-lhe do outro lado da janela. Mas ele só pensava no gato; e quando começou a miar fugi dali, antes que no espelho da janela, do lado de fora, eu também me transformasse num gato. E só quando cheguei a casa, e o meu gato me deitou um olhar de ódio,é que reparei que tinha roubado o pacote de leite de casa do biólogo.

segunda-feira, abril 10, 2006

CABEÇA

O Senhor Rodrigues perdeu a cabeça.
Perdi a cabeça. Pus um anúncio no jornal para ver se alguém a encontrava. Nada. Ontem, porém, ouvi o telefone tocar. Alguém tinha encontrado a minha cabeça e perguntou-lhe a quem pertencia. «Telefone para este número», disse ela. E o homem ligou. «Encontrei uma cabeça que me deu o seu número de telefone. Sabe a quem pertence?» Disse-lhe logo: «É minha. Onde é que a posso ir buscar?» Ouvi um silêncio do outro lado. Depois, o homem disse: «Mas se a cabeça é sua, como é que me está a ouvir? Tenho aqui as suas orelhas.» Também fiquei sem perceber como é que, estando sem cabeça, podia ouvir o que ele me dizia. Até que compreeendi tudo: «Claro que o estou a ouvir porque você está a falar ao lado da minha cabeça.» Outro silêncio. E o homem voltou à carga: «Admitamos que isso é possível. Mas se eu tenho aqui a sua boca, como é que você me está falar ao telefone?» Esta pergunta embaraçou-me. Desliguei o telefone. E continuo com a cabeça perdida.

domingo, abril 09, 2006

COMÉRCIO


O Senhor Rodrigues ganha a vida.
No verão, o Senhor Rodrigues alugou uma roulote e pôs-se junto á Torre de Belém a vender nuvens. As mães passavam em frente da roulote e ele chamava-as: «Comprem uma nuvem para os vossos filhos.» Elas paravam, e ele continuava: «Querem uma nuvem branca ou cinzenta?» Todas escolhiam a branca; e ele pegava num cone de montanha, punha a nuvem em cima e vendia-a às mães, para que elas a dessem aos filhos. Os filhos lambiam-se com as nuvens, como se fossem gelados; e quando as comiam todas, começavam a chover. Quando as mãos viam os filhos reduzidos a uma poça de água no chão, começavam a chorar. «Não vos preocupeis, mães, vinde comigo.» E levava-as para dentro da roulote onde elas podiam ver os filhos a brincar em cima das nuvens, lá no céu. «Quereis ir ter com eles?» E elas diziam que sim. Então, o Senhor Rodrigues, dentro da roulote, levava-as até aos nimbos.

CARACÓIS


O Senhor Rodrigues não sabia que havia caracóis antropófagos.
Vamos todos atrás dos caracóis, seguindo o rasto da sua baba. Ao chegar à toca dos caracóis, façamo-nos pequenos para entrar na casota. Lá dentro, os caracóis juntam-se aos cachos, para que os colhamos. Podemos encher de caracóis os bolsos das calças; os bolsos do casaco de caracoletas; e o bolso da camisa do que sobrar. Depois, façamos o caminho de volta. O pior é que, com os bolsos cheios de cachos de caracóis, já não conseguimos sair da casota. E entretanto os caracóis saíram de dentro dos cachos e começaram-nos a comer.

CRENÇA

O Senhor Rodrigues abre a janela e espreita o céu.
Hoje, o céu está encoberto. Não se vê Deus. Resta-me esperar que as nuvens passem, e talvez amanhã, ao abrir a janela, Deus volte a existir.
A questão é esta: para mim, que quero ir à praia, o azul é fundamental para acreditar que Deus existe. Mas para o camponês que, tal como eu, abriu a janela para espreitar o céu, são estas nuvens que prometem chuva que o fazem acreditar em Deus.
Conclusão lógica: Deus, para existir, depende de quem acredite nEle. Mas se, para acreditar nEle, é preciso que metade do céu esteja de sol, e metade do céu esteja de chuva, a crença em Deus implica um contra-senso meteorológico.
Amanhã irei ver se convenço o camponês a comprar uma mangueira, ligá-la à torneira e regar as couves com a água da barragem. Assim, Deus passará a existir enquanto houver água na barragem. E mais vale ter um Deus preso na barragem do que sabê-lo à solta pelo céu.

sexta-feira, abril 07, 2006

CAVEIRAS


O Senhor Rodrigues acende o charuto.
Gostava de falar dos meus antepassados. Mas não tenho um cinzeiro, e terei de deitar a cinza para dentro dos seus crânios, sem olhar para eles. As doenças pegam-se pelos buracos das órbitas, de onde saem os ratos de cemitério. Há uma solução: pôr óculos escuros às caveiras. Ficam mais sociáveis; e até lhes ponho o charuto nos dentes (quando os têm) para que elas possam deitar umas boas baforadas que me permitam respirar o perfume do tabaco associado ao cheiro da terra. O problema é que, quando me apetece puxar-lhes pelas orelhas, não as encontro. Será isso que torna as caveiras mais atrevidas? Para as castigar, puxo-lhes pelo charuto; mas elas agarraram-no com as mandíbulas, e puxam freneticamente pelo fumo, que lhes sai pela cavidade da nuca, como se fosse uma chaminé de padaria. «Olha que pão tão bom», diz um transeunte distraído; e dá uma dentada no crânio, pensando que é um pedaço de côdea. É então que se ouve o grande grito das caveiras; e aproveito para lhes tirar o meu charuto, e acabo de o fumar tranquilamente, sem pensar mais nos meus antepassados.

quinta-feira, abril 06, 2006

CADAFALSO


O Senhor Rodrigues gosta do sistema.
Imaginemos este diálogo na Bastilha:
- Põe o pescoço a jeito.
- Sois então o carrasco.
É um diálogo em que se fundem todas as cumplicidades do mundo. O próprio carrasco tem um lado simpático. A sua função é preparar o condenado para que tudo corra o melhor possível. Alisa o pescoço, vê se os cabelos demasiado compridos não prejudiquem o golpe, pretende que tudo corra da melhor maneira para que o acto tenha uma perfeita execução.
Mas o condenado acrescenta:
- Não posso virar a cabeça, estou com um torcicolo.
O carrasco só pode fazer uma coisa: desaperta-lhe o colarinho e tenta fazer-lhe uma massagem no pescoço, para que este possa fazer a sua torção em direcção à lâmina. Mas o condenado insiste em manter a cabeça torta.
Há sempre quem queira estragar a festa. E em vez da guilhotina, não houve outro remédio senão enforcá-lo.

terça-feira, abril 04, 2006

CONFISSÃO

O Senhor Rodrigues confessa-se.
A confissão obriga o Senhor Rodrigues a estar contra si próprio. É como se alguém que chupa no dedo tivesse de dizer que chupar no dedo é uma coisa contra a natureza. Mas quanto mais diz isto, mais o chupa, até a unha cair e a pele ficar reduzido ao osso. A contradição é própria do ser humano. E quanto mais o Senhor Rodrigues se confessa, mais confessa que a confissão o incomoda. No fim de cada confissão, o seu espírito fica reduzido à mais ínfima substância. «É como a minha alma tivesse ficado sem unhas. Como poderei agora coçar a minha inteligência?» No fim do dia, a Senhor Rodrigues faz a soma das suas confissões. E descobre que acabou por não confessar nada. É como aqueles que estão sempre de partida: e nunca saem do seu lugar. Também o Senhor Rodrigues está sempre a confessar-se, para descobrir que não tinha nada de que se desculpar.

segunda-feira, abril 03, 2006

CORTE

O Senhor Rodrigues simplifica.
«E todos lançaram mão às iguarias que tinham à sua frente», escreveu Homero. Não descreve as iguarias; mas deixa-nos adivinhar o apetite dos convidados, esperando por Penélope que estava na cozinha, ordenando às escravas que aumentassem a dose para ninguém ficar com fome.
Mas não devemos enganar-nos. Enquanto os pretendentes iam enchendo a pança, Penélope emagrecia. Foi a forma que encontrou para poder passar por entre eles, sem que a conhecessem; e a sua figura esguia confundia-se com uma faca, a tal ponto que um dos convidados pegou nela e usou-a para cortar o boi.

domingo, abril 02, 2006

CETÁCEO


Era tão simples como isto, Senhor Rodrigues...
Procurei uma outra forma de abordagem do problema, para que a minha explicanda não caísse completamente no vazio: «Ouve, dilecta discípula, imagina que eu tinha nascido como o Robinson numa ilha deserta; mas, ao contrário do Robinson, não sabia o que era uma mulher. O mundo habitado, para mim, eram apenas pássaros, coelhos, burros, caranguejos, e um ou outro cetáceo que, aos fins de semana, passava em frente da ilha, soltando o seu repuxo que me evocava logo o lago de Genebra, com muita saudade.» Ela ouvia-me com toda a atenção. «Por coincidência, havia na ilha um outro senhor que já tinha visto uma mulher. Pedi-lhe que me contasse como era. Ele disse para imaginar dois montes de areia, uma longa folha de palmeira coberta de pele, e no topo aqueles fios que cobrem o milho soltos pela nortada.» A explicanda olhava para o seu corpo, procurando ver se a descrição correspondia à realidade. «Perante essa explicação, sentei-me ao lado da reprodução da mulher e disse-lhe: «Ergue-te e anda.» E ela levantou-se e começou a dançar.Portanto, uma mulher para mim ficou a ser a soma de um milheiral com uma palmeira, a que se juntou um pedaço de areia fina, movendo-se em harmonia com o vento.» A explicanda acabou de escrever o meu ditado e tomou a decisão ponderada de voltar a pôr o pé em terra, esvaziando os bolsos de areia e sacudindo as barbas de milho que o seu passeio pelo campo lhe tinha agarrado aos cabelos. Só não perdeu o seu ar de palmeira esguia, embora o vento não soprasse para a fazer dançar.

sábado, abril 01, 2006

CATARATA


Os fiordes fazem reflectir o Senhor Rodrigues.
Não foi por acaso que levei a minha explicando à Noruega. «Queres saber como é que se desce uma falésia a pique?» Lá de cima, peguei-lhe pelas tranças e pendurei-a sobre o abismo. Ela recitava-me a lei da gravidade para a frente e para trás. «É assim que se aprende», disse-lhe. E larguei-a - vendo-a ficar suspensa no ar. Perante o seu ar atónito, disse-lhe: «A queda é uma ilusão de óptica. O pecado original não passou de uma catarata no olho de Adão. Por isso é que, nos Estados Unidos, os recém-casados vão passar a lua-de-mel nas cataratas do Niagara. Ao vê-las, lembram-se da serpente.» Mas a minha explicanda não percebia nada. «O que tem isso a ver com a Eva?» Este pensamento fê-la cair. Ainda hoje não sei se ela caiu em si ou se caiu no fiorde. Ou se não é tudo, afinal, a mesma coisa.

CONCLUSÃO


O Senhor Rodrigues compra leite holandês.
A minha lição de hoje levou-me a pôr uma galinha e um ovo em cima da mesa. A minha explicanda perguntou-me: «Qual nasceu primeiro? O ovo ou a galinha?» Dei-lhe com o ponteiro nos cabelos, por entre as tranças, e expliquei-lhe que a galinha não passa de um reflexo do ovo. «Se vires o ovo e a galinha ao lado um do outro, tens de evitar estender a mão porque poderás partir o vidro do espelho.» Ela não teve emenda: «Mas diga-me, Senhor Rodrigues, qual é que está no espelho? O ovo ou a galinha?» Felizmente, ouviu-se um cacarejar no pátio da escola. «Alguma vez ouviste uma imagem reflectida no espelho cacarejar? Pois aqui tens a resposta.» E, com um único golpe de mão, parti o ovo na cabeça da explicanda, que fugiu para casa a chorar, sem fazer um ruído.
Daqui tirei uma conclusão: a minha explicanda é a própria galinha reflectida no espelho.

CAIRO

O Senhor Rodrigues escreve uma carta de amor.
Querida amiga
não é todos os dias que recebo um retrato teu, nem que vejo a forma hábil que o fotógrafo usou para te captar sem que tivesses dado por isso, olhando para o lado, e mantendo o perfil de esfinge que tanto me incomoda porque não faço ideia do que queres dizer com isso. Não podias olhar para a objectiva? Se assim tivesse sido, antecipando-te ao disparo, estarias a olhar-me de frente, e seria a altura indicada para me ouvires dizer o que tenho para te dizer. É simples: é... mas que estou a fazer? Não me estás a olhar de frente, e não falo a nenhuma esfinge. O segredo perturba-me; e os teus lábios começam a ficar com a cor do pêssego que se prepara para cair de maduro. Se me olhasses de frente, iria apanhá-lo; assim, deixo-o cair, para que as formigas façam dele o seu festim.
E agora um pedido: sabes onde fica o Cairo?

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