sexta-feira, março 31, 2006

CUSPO



O Senhor Rodrigues pensa na morte de bezerra.
Depois de cuspir o tatu com a água do banho, não podemos continuar a pensar no fim de Empédocles. «Quem?» Estou a falar do toureiro que ficou enrolado no rabo do touro e foi comido pelas bezerras esfomeadas, enquanto o público aplaudia. A mim, nunca tal coisa me aconteceria. Quando visitei o Etna, levava no bolso uma caixa de fósforos para acender a lava; e só um tremor de terra, que me fez desacertar o risco do fósforo com a caixa, impediu a erupção. Puxei da capa e levantei-a, para que todos vissem o vermelho sair da cratera. E não é que pensaram que o Etna estava a acordar? Quando atravessei as ruas desertas, enrolado na bandeira triunfal que provocara a debandada, lamentei que não houvesse ninguém para me aplaudir. E ao lembrar-me de Empédocles, concluí: «Só os mortos fazem com que a multidão bata palmas.» E ao dizer isto, tinha atrás de mim toda a população de Pompeia a dar-me vivas.

CARACOL


O Senhor Rodrigues prova a sopa.
O suporte da sopa são as amígdalas do tatu. O Senhor Rodrigues mexe-as com a colher, procurando no meio de verduras um rebento de cacto. A cozinheira ajuda-o, fazendo com que a colher dê a volta mais depressa no prato, até chegar às 78 rotações. E quando o Maurice Chevalier sai de dentro da sopa, com um tatu metido no chapéu, o Senhor Rodrigues manda tudo para trás e pede a conta. «A minha sopa é o silêncio», diz ele. E enfia a colher nas amígdalas do Chevalier, enquanto a cozinheira dança o suíngue numa lascívia de caracol.

quinta-feira, março 30, 2006

CONCEPÇÃO



O Senhor Rodrigues interrompe.
O que está a dizer é um disparate. Não precisamos de pensar. O que está dentro da cabeça é apenas um bolbo. O que é preciso fazer é pôr a cabeça dentro de água, deixá-la estar, e ao fim de uns dias verá começar a nascer o caule, e depois a flor. Tem é de mudar a água de vez em quando, por causa do bolor que nasce da cabeça.
Depois pode apanhar a flor e pô-la na lapela. «O que é que tem aí?», podem perguntar. E a resposta certa é: «Um pensamento.»

CEPA

O Senhor Rodrigues trabalha.
Quem quiser sair da cepa torta, não pode fazer outra coisa senão endireitar a cepa. Mas uma cepa direita cresce a direito; e quem quer subir na vida, tem de fazer com que a cepa se volte para o céu. E lá volta a cepa a ficar torta.
No entanto, o Senhor Rodrigues tem uma solução na manga. Levanta-se da cadeira, sobe para cima da mesa, desaperta a manga, tira de dentro dela uma tesoura e, com um golpe seco, corta a cepa no ponto em que ela se começa a virar para cima.
Então, o Senhor Rodrigues pega na cepa cortada e diz para quem assistiu à cena:
Não queiram endireitar a cepa porque ainda ficam sem ela. E mais vale uma cepa torta do que ficar com a cepa a meio.

quarta-feira, março 29, 2006

CONSELHO

Ouvir atentamente o Senhor Rodrigues.
O toureio, meus amigos, é a mais perfeita forma de metafísica. O touro investe sobre o toureiro com os dois axiomas afiados; e este tem de os apanhar com o pano da dialéctica, tentando que as bandarilhas da retórica não o rasguem.

CLASSE


O Senhor Rodrigues apertava o laço.
Não me irritem quando me estou a arranjar. Este laço é a minha identidade. Através dele, dou a ver a minha verdadeira natureza. É um laço que ninguém pode desapertar, a não ser eu. Uma vez, pedi à empregada que o desapertasse; e ela ficou-me com a cabeça nas mãos. Não imagina o trabalho que tive para voltar a enfiar a cabeça em cima do pescoço. A mulher estava desesperada, com as mãos cheias de sangue. Mas lá conseguiu reparar a asneira, depois de seguir as minhas instruções

CRENÇA


Bastava que o Senhor Rodrigues se sentasse à mesa.
A frase é uma espada com que corto o discurso Às postas. Podem falar: e puxo da minha frase para os deixar com as palavras em sangue, espalhadas pelo chão. Os cães precipitam-se para as apanhar; e quando as palavras lhes ficam coladas às línguas, começam a falar. A única forma de os calar é dar-lhes um osso. Ao mesmo tempo que o roem, vão também roendo as palavras. Com um guardanapo que roubam ao cesto do lixo, os pobres recolhem os restos de palavras, e levam-nas com eles para a rua, onde se servem de um opíparo banquete de sílabas.

CHUVA




Senhor Rodrigues : tenha cuidado com o que diz.
Por vezes, dizia ele, a natureza impunha o culto da meteorologia. Passava horas a olhar para o céu, à espera que as nuvens caíssem. Mas nada acontecia. Então, ficava sem saber se tinha uma nuvem no bolso. Metia lá as mãos, e puxava um grande lenço de nuvem, que sacudia no ar até começar a chover.
Depois, voltava a assoar-se com a nuvem, e voltava a metê-la no bolso.

Free Web Counter