terça-feira, janeiro 31, 2006

Pickpocket

Quando cheguei à porta da caverna do Ali Babá e toquei vieram logo abrir:
- Estamos cá todos, só estávamos à tua espera para começar.
Entrei, e vi logo a mesa posta para 40, com um lugar vago.
- Senta-te ali.
- Mas não sou um ladrão!, disse eu.
- Não venhas com coisas. Vais ver que não é difícil entrar neste clube.
Comecei a gostar da conversa. Afinal, o clube não era tão fechado como me tinham dito; e cada um pode ter o seu lugar, se bater à porta a tempo de encontrar o lugar vago, e todos à espera que ele fique ocupado para começarem a distribuição.
- E o que é que vamos roubar hoje?, perguntei.
O vizinho do lado deu-me um safanão.
- Aqui ninguém fala em roubar. Estamos aqui para ver o que nos cabe, antes que outros tomem o nosso lugar.
Percebi que o roubo é uma actividade precária; mas logo o vizinho da esquerda me soprou ao ouvido:
- O que é preciso é fazer as coisas por baixo da mesa.
Baixei-me, e espreitei; e o que vi deixou-me estupefacto. Milhares de criaturas corriam de um lado para o outro, seguindo as instruções que os ladrões lhes davam com os dedos, que apontavam para um e outro lado, onde o saque ainda estava por fazer.
- Então, somos nós que dirigimos o mundo?
- Claro, disse-me o vizinho da direita.O que é preciso é que ninguém nos veja.
Levantei-me e fui ter com o Ali Babá, que tinha acabado de desligar o telefone:
- Estou contigo, Ali Babá.
- É tarde, disse-me ele, vamos fazer um intervalo. Volta cá no próximo mês, se ainda houver caverna.
- O quê? Agora que eu ia começar a roubar é que fecham a caverna?
Dei-lhe um abraço, e saí pela porta por onde entrara. No bolso do casaco, levava a carteira que acabara de roubar a Ali Babá, quando o abracei para me despedir.

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Quiproquo

Queria escrever, mas não sabia o quê.
Queria o quê, mas não sabia escrever.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

Menu

Há restaurantes em que é pior a ementa que o soneto.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Lapso

Quando o amnésico saiu de casa, não reparou que se tinha esquecido de si próprio no sofá da sala.

domingo, janeiro 22, 2006

Visita

Entrei pelas traseiras na casa de Magritte. Um gato, de costas, tirou o chapéu para me cumprimentar.
- Mas se estás de costas, como é que deste por mim?
- Vi-te no espelho.
Olhei-me ao espelho da casa de Magritte, e também eu estava de costas para mim.
- Como é que sei se sou eu, se a minha imagem no espelho está de costas para mim?
- Não, não és tu, disse-me eu de dentro do espelho.
Furioso com a resposta, parti o espelho; e nunca mais me consegui ver.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Quadra

Onde canta o rouxinol,
pergunta o cangalheiro;
na campa do girassol,
responde o brejeiro.

Cruzamento genético

Colocou uma questão filosófica:
O que é que pode nascer do casamento de uma toupeira com uma onomatopeia?
Depois de muito pensar, chegou a uma conclusão:
a onomatoupeira.

sexta-feira, janeiro 13, 2006

Saída

Um personagem de romance perdeu-se no caminho.
Veio ter comigo. Perguntou-me como podia sair. Empurrei-o
para a última página. Quando lá chegou, pegou no fim e pô-lo
no princípio.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

Insónia

O leitor histérico saltou da cadeira:
Mas quem é este? Que quer? Quem julga ele que eu sou?
O livro caiu-lhe das mãos, bateu-lhe no joelho e maltratou-lhe o pé.
O leitor levantou o auscultador, marcou o número e chamou a polícia.
-Prendam-me este livro, disse ele ao polícia, enquanto coxeava.
O polícia agarrou o livro, pôs-lhe as algemas e levou-o para a esquadra.
À noite, cansado de guardar o livro, o polícia olhou á sua volta, não viu ninguém, e tomou uma decisão: tirou as algemas ao livro, pegou nele, foi-se sentar e começou a ler.
Muitas páginas depois, adormeceu.
Quando acordou, o livro tinha fugido.

terça-feira, janeiro 10, 2006

A morte do cisne

O cisne deu uma volta no céu até chegar à nuvem, abriu o bico e... grasnou? Cantou? Chiou? Não, simplesmente agarrou a nuvem e começou a chupá-la, de uma ponta à outra, até a engolir toda, à medida que a barriga inchava até ocupar todo o céu onde antes havia a nuvem. Depois, começou uma chuva de cisne.

segunda-feira, janeiro 09, 2006

Filosofia de garganta

Todos temos um Kierkegaard atravessado na garganta. Tentamos tossir - kierke, kierke, gaard, aard, aard... - e as tentativas só pioram as coisas. As palavras não saem, a voz enrouquece, e todos nos olham com aflição. Mas se dizemos qual é o problema, quem irá acreditar? «O quê? Está a dizer que Kierkegaard é uma angina?!» Assim, a única solução é ficarmos com esta espinha kierkegaardiana, e de cada vez que vemos um espelho corremos até lá, abrimos a boca, voltando a cara à procura de uma luz que nos permita ver os gânglios, até descobrir que estão vermelhos com a angústia que o filósofo nos transmite.

Aforismo 13

Como o treze dá azar
este não vai ficar.

Aforismo 12

Com o Zé no telhado
o bolso está furado.

domingo, janeiro 08, 2006

Aforismo 11

Nunca comentes
sem pôr as lentes.

Aforismo 10

Passarinho sem asa
é telhado sem casa.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Aforismo 9

Para curar o terçolho
mata o piolho.

Aforismo 8

Quem anda de lado
não sabe o que é estar parado.

Aforismo 7

Em cada linha atravessada
há uma dobra espalmada.

Aforismo 6

Antes de peneirar o milho
corta as barbas ao trocadilho.

quinta-feira, janeiro 05, 2006

Aforismo 5

Quando chove no quintal
está sol em Portugal.

terça-feira, janeiro 03, 2006

Aforismo 4

Quem deita foguetes
não apanha galhardetes.

Aforismo 3

Quem dá aos nobres
empresta a Zeus.

Aforismo 2

Com unto e banha
o povo se amanha.

Aforismo 1

As galinhas da capoeira
põem os ovos na frigideira.

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