sábado, dezembro 31, 2005

A estatueta




Por fim, restava-me uma turca no armário. Desembrulhei-a do plástico e pu-la em cima do aparador, como uma Vénus de Milo em filigrana, e atirei-lhe para cima com o foco do candeeiro. «Finge que és a Louise Brooks numa cadeira de praia, lendo as notícias enquanto não começam as filmagens.» A turca, atirando para o lado os fios dourados que a prendiam, saltou de cima do aparador e agarrou-me, perguntando-me o que fazia ali. «Não te lembras do Omar Khayam? Não mais recuperei desse vinho que me enfiaste pelos ouvidos, e continuo a ver o mundo em duplicado.» Pior: naquele momento, comecei a ouvir o mundo em duplicado porque, ao mesmo tempo que ela me falava ternamente ao ouvido direito, uma outra voz me entrava pelo ouvido esquerdo, num efeito de gravação ao contrário. Assim, do lado direito, ouvia turco; e do lado esquerdo parecia-me ouvir uma língua que, a princípio, me soava a russo, e finalmente se transformou em português.
- Agora podemos entender-nos, disse-lhe.
Mas ela abrira a porta da rua e entrou no meio da multidão.

sexta-feira, dezembro 30, 2005

Pequeno almoço




Plantada a turca no meu quintal de Larnaca, esperei que crescesse. Quando começou a primavera, o tronco já deitava flor; e mal chegou o verão, cresciam turcas em todos os ramos. Logo de manhã, abanava a árvore e fazia cair as turcas maduras ao chão. Apanhava-as, levava-as para a cozinha e espremia-as. Nunca me faltaram turcas enquanto lá vivi. O pior eram os pássaros que se atiravam às turcas ainda verdes, nos ramos. Tive de fazer um espantalho para os afugentar; mas durante a noite, quando o vento o fazia abanar, e os guizos tilintavam, as turcas assustavam-se. Logo de manhã, estavam todas encolhidas na copa. Tive de esconder o espantalho; e comecei a perder turcas, comidas pelos pássaros. Aproveitei-as para compota: metia-as em baldes, limpava-lhes a pele e estendia-as na mesa da cozinha, para as barrar de açúcar e canela. Depois, punha-as no armário; e isso criou-me um problema suplementar porque as formigas entravam por baixo da porta e iam atacá-las. Comecei a protegê-las com plástico. Aguentaram assim até ao inverno; e quando a árvore secou, ainda fiquei com turcas de sobra para ir comendo, enquanto esperava pela primavera.

A noiva turca



Ao ver-me livre de Lawrence, que desapareceu no meio dos beduínos engolidos pelas areias movediças, fiquei sozinho com a turca. Depois de lhe enxugar as lágrimas com uma folha de palmeira, levei-a para o cimo da duna e mostrei-lhe o horizonte:
- Temos areia a toda a volta. A única salvação será pelo céu.
Ela olhou-me com um ar suplicante, receando que lhe estivesse a indicar o caminho do Paraíso. Mas arranquei-lhe o lenço da cabeça, meti-o na boca do único grumete que sobrevivera ao desastre do oásis, e voltei a mandá-lo soprar. O lenço começou a encher, e formou um gigantesco balão ao qual nos agarrámos. O grumete continuava a soprar, fazendo um vento forte que nos empurrou para norte, em direcção ao Cairo. Quando avistei a primeira pirâmide, empurrei o grumete, que já só servia de lastro, e à medida que ele caía desamparado da altura das nuvens sobre o cume da pirâmide, onde ficou espetado com um frango no espeto ao sol do meio-dia, o balão foi descendo suavemente para nos depositar na principal avenida do Cairo, no meio de uma multidão de comerciantes e transportadores que mal deram por nós.
A minha única hipótese de sobrevivência seria vender a turca, o que me permitiria alimentar-me durante algumas semanas, ou começar uma negociação com os meus vizinhos, que exibiam um conjunto de antiguidades que pretendiam vender aos turistas. A primeira hipótese estava a tornar-se difícil porque a turca se agarrara a mim como uma lapa, e recitava-me estrofes de Omar Khayam que me foram embriagando, ao ponto de começar a ver em duplicado as estatuetas que os vizinhos vendiam. Foi a salvação: agarrei todos os objectos em duplicado e meti-os no saco da turca, correndo até ao Museu onde os vendi por bom preço. Nessa mesma tarde metemo-nos num avião para Chipre, onde plantei a turca num jardim secreto.

sábado, dezembro 24, 2005

Leite com Lenine

Na minha última viagem a Moscovo voltei a visitar o túmulo de Lenine. Depois de duas horas à espera, debaixo de neve, com o cérebro enregelado e as mãos a caírem aos bocados, entrei no edifício e fui levado, levado sim, até junto da múmia. Contemplei-a embevecidamente! Sou um leitor assíduo das obras completas de Lenine, e todos os dias, ao beber o copo de leite ao pequeno almoço, deito-lhe dentro, em vez de uma pedra de açúcar, uma frase assassina sobre a luta de classes. O leite escurece, deita fumo, e aquece-me a garganta. Ao sair de casa, posso falar com muito mais convicção, e isso começa quando compro o jornal porque, se peço o Diário de Notícias, o homem passa-me logo para as mãos o «Avante».
- Não foi isto que eu pedi, digo-lhe.
- Não se preocupe, camarada, responde-me o ardina. As notícias são as mesmas. Só tem de olhar para as fotografias e pensar que é pela imagem que se faz a revolução.
E é assim todos os dias. Já tenho todas as paredes de minha casa forradas com páginas do «Avante», algumas divisões já têm Avantes sobre Avantes, e o homem dos jornais insiste em oferecer-me o jornal para que eu não passe frio.
Também me aconteceu isso no túmulo de Lenine. O gelo que eu trazia da rua desfez-se, mal entrei; e o calor que a múmia me transmitiu deu-me alma nova.
- Camarada, disse-lhe, o que pensa do mundo actual?
- Não te preocupes com o que se passa à tua volta. A revolução começa em cada um de nós, mal nos levantamos da cama. Eu próprio, quando vivia, não fazia distinção entre o que se passava na cama e fora dela. Os meus sonhos eram todos revolucionários. Muitas vezes acordava, de noite, a cantar «A Internacional»; e a música encontrava eco na longa estepe, onde os cossacos apresentavam armas mal se apercebiam de que o hino nascia de dentro do meu sonho.
O corpo de lenine estava de pé, e embora a boca permanecesse completamente selada, devido aos tratamentos que sofrera na altura da mumificação, a sua voz chegava-me com a perfeita entoação com que falara às massas.
- Obrigado, camarada. Seguirei as tuas indicações e, quando voltar a minha casa, continuarei a beber o leite e a temperá-lo com as tuas máximas, para que o ardina me ponha o «Avante» no embrulho das compras.

sábado, dezembro 17, 2005

Mais conversa

- Estamos a conversar.
- Muito bem. Estamos a conversar. mas do que é que estamos a conversar?
- Já te disse: estamos a conversar sobre o facto de estarmos a conversar.
- Já é uma boa conversa. Então, conversemos.
- Se eu conversar, poderemos continuar a conversa?
- Só se não saíres da conversa.
- Não desconverses. Para que alguém converse, a única forma de o convencer a conversar é conversá-lo.
- Mas sempre conversei; por que queres interromper a conversa?
- Quando se conversa, só há uma maneira de continuar a conversa: conversar.
- Já ouvi isto. E é por isso que estou farto desta conversa.
- Não podes é pensar que, lá porque conversamos, tudo se reduz a conversas.
- Muito bem: queres que eu te converse?
- Só eu te converter à conversa.
- Lá vens tu com a confusão do costume entre conversa e conversão.
- É melhor do que a conversa do costume entre confusão e conversão.
- E se converteres a confusão em conversa?
- Pode ser que isso resulte.
- Vamos conversar?
- Vamos. Mas do que é que estávamos a conversar?
- Da conversa.
- É sempre a mesma conversa.
- Seria pior se fosse sempre a mesma conserva.
- E pior ainda se fosse sempre a mesma conversão.
- Não voltes a essa conversa.
- Então voltemos ao princípio.
- Estamos a conversar.

quinta-feira, dezembro 15, 2005

Debate

- O mundo está cheio de dramas fogosos, disse o crítico.
- O drama está cheio de damas fogosas, disse o autor.
Não se entenderam a partir daqui.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

Diálogo

- Estamos todos à espera que as duas catatuas comecem a falar.
- Mas não sabes que as catatuas não falam?
- Com efeito, se uma catatua não fala, por que haveriam duas catatuas de falar uma com a outra?
- O absurdo da situação é que as catatuas se preparam para estar uma em frente da outra, e abrir a boca, alternadamente, como se pudessem falar.
- Há um outro problema: as catatuas não têm nada para dizer.
- Aqui põe-se um outro problema: é que cada uma das catatuas está convencida que tem alguma coisa para dizer. E a forma como vão abrir a boca pode criar a ilusão de que estão a dizer alguma coisa.
- O problema está nas pessoas que vão ter pena das catatuas e vão pôr na boca delas o que elas queriam ouvir.
- Então já sei como resolver a situação: enquanto as catatuas estiverem a abrir a boca, vamos todos falar sobre o movimento dos seus lábios para as convencer de que estão a dizer o que nós queremos que elas digam.
- Óptimo! assim, as catatuas vão ficar felizes.
- E nós também!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Silêncio

Quando entrei na sala, havia qualquer coisa no ar.
- Não sentes uma coisa estranha? perguntei ao caçador.
- Claro que sim, disse-me ele, como se fosse uma evidência. É o silêncio que anda pelo ar.
- E não fazes nada?
O caçador olhou-me com espanto, como se eu tivesse dito um disparate. Pegou na espingarda, apontou-a ao ar, e deu um tiro.
- Ouves?
Apurei o ouvido, e soou-me o baque de qualquer coisa a cair no chão.
- O que é isto? perguntei-lhe.
- É o silêncio. Acertei-lhe em cheio.
Tirou o saco que levava às costas, aproximou-se do objecto e meteu-o no saco.
- Mais um pedaço de silêncio para levar para casa. Foi um dia em cheio. Com tantos silêncios no ar, nenhum caçador vai de mãos a abanar.
- Poeta!, rosnei-lhe. E deixei-o ir embora, enquanto o ar se enchia de barulho.
- Eh, eh, gritou-me de longe. Matei o silêncio todo, agora vais ficar cheio de ruído.
Ainda corri atrás dele, para ver se me matava o ruído, mas nada. Fiquei com todo o barulho à minha volta, a pensar se havia de usar uma fisga para o caçar, ou se uma simples ratoeira para barulhos de parede chegaria.

domingo, dezembro 04, 2005

Sombras

É assim:
há quem ande com a sombra direita;
há quem ande com a sombra ao contrário;
e há quem se tenha tornado a sua própria sombra.
O homem da sombra direita não precisa de se voltar para trás porque a própria sombra se encarrega de o empurrar para a frente;
o homem da sombra ao contrário passa a vida a bater com o nariz na sombra;
e o que se transformou na sua sombra rodopia sobre si próprio, para ver se se liberta dela, com tanta velocidade que parece uma ventoinha.
Este último é o caso mais interessante porque, se pegássemos nele e lhe atássemos um fio eléctrico, daria energia para iluminar a inteligência dos que pensam que é nele que está a solução.
Quanto ao que bate com o nariz na sombra podia ser transformado num pica-pau.
E quanto ao que não se volta para trás, o melhor é irmos atrás dele, devagar, para que ele não dê por nós, e roubarmos-lhe a sombra.
A sombra de um homem que anda a direito ainda vale uns tostões no prego.
E se pegarmos no pica-pau e batermos com ele na sombra que está no prego, podemos plantá-la na terra para ver se dá tronco.
Com os verões que estão para vir,uma árvore de sombra pode ser muito útil.

Tempos

O homem deu uma volta sobre si próprio, e descobriu que a sombra dele também deu uma volta sobre si próprio.
- Isto é contra as leis da natureza. Uma sombra tem de ficar virada para o mesmo lado, e se eu der a volta sobre mim próprio ela fica quieta. É a primeira vez que vejo uma sombra mexer-se contra a orientação do sol.
Voltou a dar uma volta sobre si próprio. Desta vez, a sombra não se mexeu.
- Aqui está uma sombra inteligente. Expliquei-lhe as leis da natureza, e ela aprendeu tudo.
E o homem ficou quieto. Nessa altura, a sombra deu uma volta sobre ele próprio.
- O que é isto?
- Isto sou eu a mexer, disse a sombra.
O homem encolheu os ombros e pensou:
- Nos tempos que correm, até a natureza deixou de ter leis.

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