terça-feira, novembro 22, 2005

Opções

- O mundo anda nervoso, disse-me o cão.
Com efeito, olhei à minha volta: uns, corriam mais depressa do que podiam; outros, contavam pelos dedos para ver se o tempo andava para trás; e outros ainda olhavam em alvo, à espera que a seta acertasse no centro que ninguém via.
Mas custava-me muito aceitar que o cão estivesse certo. Não podia ser. Aind apor cima, o cão começou a transformar-se em gato, ou melhor, em gata: cresciam-lhe bigodes, os olhos amaciavam-se, o corpo tornava-se sedoso. E o pior é que reconhecia nele os lábios de Corina, as sobrancelhas de Marinella, as unhas de Fílis.
- Só o que faltava é que te viesses deitar no meu colo.
E não é que veio mesmo? Sem saber como, tinha no meu colo Corina, Marinella e Fílis, miando, à espera que lhes passasse a mão pelo pêlo.
- Não se enervem. O problema está na escolha.
Moral da história: cada uma foi para seu lado.

domingo, novembro 20, 2005

Pavlov

O pior é que o cão veio atrás de mim, a coxear de uma pata.
- Querem ver que me considera o dono dele?
- Um filósofo não tem dono.
A sua afirmação peremptória irritou-me. Peguei numa gamela, enchi-a de água, pus um pedaço de carne seca ao lado, e fiquei a ver o que fazia. A princípio, limitou-se a cheirar a carne, e passou a boca pela superfície da água, sem beber. No entanto, salivava.
- Vejo que leste o Pavlov.
- Apenas para contestar a sua teoria. Soube, pelo cão dele, que pavlov se limitou a adaptar a sua experiência pessoal ao universo dos cães. Todos os dias a mulher lhe punha em frente um prato de papa de cereais e, quando ele ia levar a colher à boca, ela retirava o prato. Ao fim de uma semana ela teve de lhe pôr um guardanapo para ele limpar a boca que espumava de guloseima, sempre que o prato desaparecia.
Não comentei esta informação, que me pareceu perfeitamente justa. Também conheci um génio que, quando abria a janela todos os dias, de manhã, via um pássaro pousar na árvore em frente da casa dele. Descobriu então que era o impulso do ar quente que saía de dentro da casa que, em contacto com o ar frio do exterior, puxava o pássaro da nuvem onde estava para a árvore, criando um efeito de repetição que o atormentou porque, pensava ele, no dia em que deixasse de abrir a janela seria o próprio equilíbrio cósmico que chegaria ao fim. Um dia, deixou-se dormir até mais tarde; e ao ver que falhara a abertura da janela pensou que o mundo acabara. Fechou a porta do quarto à chave, meteu-se debaixo dos lençóis para não ver o apocalipse, e ficou à espera. Ainda hoje não sabem dele.
- Vi a sua múmia no museu antropológico. Tem os olhos esbugalhados pelo terror.
Concordei com o cão. O pior que se pode fazer é acreditar na lógica que se desenvolve para lá das nossas cabeças.

sábado, novembro 19, 2005

Doutrina

Quando o cão vendeu toda a sua colecção de aforismos, cada um deles mais tinhoso do que o outro, e se viu desempregado, apanhou uma depressão. Peguei-lhe na trela e puxei-o até ao jardim, onde nos sentámos num banco, em frente da fonte dos Amores, no centro da qual uma Vénus seminua cuspia um jorro de água em permanência pela boca de pedra, e dois tritões se entortavam para receber o líquido nas guelras, de onde espirrava para o tanque onde nadavam três cisnes de bico vermelho.
- Não te parece estranha esta conjugação matemática, que vai de um a três, partindo do mais alto para o mais baixo?
- Não me parece ela mais estranha do que a que resulta do vermelho dos bicos dos três cisnes.
Confesso que estranhei ver um cão a falar; mas como se tratava de um cão filósofo, o espanto foi atenuado; e mais atenuado ainda quando ele continuou:
- O meu objectivo é obrigar os teus concidadãos a unirem a reflexão matemática à observação do mundo. Se o fizerem, poderei ter todos os ossos de que preciso para me alimentar.
- Porquê?
- Porque quanto mais os ouço mais fico sem osso; e quanto mais eles me ouvem menos quero que me louvem.
Percebi logo que se tratava de um cão misantropo. Com a trela, dei-lhe umas pancadas no focinho, para o ensinar; e logo ele me mordeu, deixando-me a sangrar da mão.
- Está bem. Estamos quites.
Levantei-me e deixei-o a falar sozinho. E ali ficou, até que as palavras acabaram por se transformar em latidos, Vénus deixou de deitar água pela boca, os tritões ficaram de guelras secas e os cisnes morreram, como era sua obrigação.
-

sexta-feira, novembro 18, 2005

Filosofia com chuva

Chove sobre toda a Arcádia; e também eu me perco
nesta água que salta de dentro das nuvens, enche os ribeiros, e
corre por entre as pedras da cidade levando os aluviões
de palavras que por aqui caíram quando as multidões
se juntavam, nos dias de mercado, troçando dos homens
e trocando as suas críticas por sacos de nozes e de centeio.
Aproveitei não estar ninguém, à chuva, e fui até ao meio
da ágora para debitar o meu discurso: «Ouvi-me: se
quereis fazer alguma coisa pela república, elaborai um
plano de silogismos. De um lado, tereis os que concluem
pela razoabilidade do ser; do outro, os que pretendem
que tudo é absurdo.» Não cheguei ao fim: um cão tinhoso
saiu de entre as colunas, e pôs-se a ladrar à minha voz.
Reconheci-o: era o cão filósofo, que pretende saber tudo
sobre o homem, e quando o contrariam morde as canelas
do adversário. Corri atrás dele; mas escorreguei numa laje
e bati com a cabeça na pedra. Acordei com o cão a
lamber-me a ferida. Percebi que o seu gesto era
interesseiro: com o sangue da cabeça, estava a chupar-me
os pensamentos. No dia seguinte, quando cheguei
à praça, lá estava ele, no seu canto, a distribuir
silogismos em troca de ossos. Nem num cão tinhoso
podemos confiar, quando chove, e o chão escorrega.

terça-feira, novembro 08, 2005

Nomes

Senhor Marquês
com tanta pedra partida, fiz uma muralha à minha volta, e agora estou completamente protegido contra Marinellas, Corinas, e quantas outras aparecerem a perturbar-me o juízo. Mas não pense que estou sozinho. Dentro do meu castelo, na casa da guarda, apareceu uma jovem armada até aos dentes.
- Que fazes aqui?, perguntei-lhe.
- Sou a guarda deste castelo.
- Mas como pode isso ser, se o castelo fui eu quem o fez e não vi ninguém entrar para dentro dele?
- Todos os castelos têm uma casa da guarda, e todas as casas da guarda têm uma guarda, ou seriam apenas casas.
A lógica dela venceu-me. No fundo, o problema está em que as coisas saem de dentro dos nomes; e nunca pensei, quando fiz uma casa da guarda, que a guarda do nome me aparecesse pela frente armada com o seu nome de guarda.

terça-feira, novembro 01, 2005

Partir pedra

Querido Giacomo
As tuas infelicidades tocaram-me o coração neste período da minha vida em que tenho a cabeça às voltas. Lembras-te de Marinella? Pois acabo de a reencontrar, mais uma vez num baile, e o pé dela veio ter comigo quando eu dançava com Corina para me afastar dela, e obrigar-me a olhá-la. Comecei pelo pé; depois subi pela perna; e acabei nos olhos, que são como bem sabes um abismo onde
desembocam todos os caminhos do inferno e do paraíso. Puxou-me para o canto da janela, e aí me contou que o Diabo, farto da sua presença, a expulsara do palácio, e desde essa altura tem corrido o mundo à minha procura, segundo ela me disse, para se desculpar. Não acredito numa palavra do que diz; e como sabes, nenhuma palavra, hoje, tem ponta por onde alguém lhe pegue, o que nos obriga a tentar perceber por onde é que é possível chegar ao conhecimento da verdade de alguém sem ser pela sua boca.
Foi o que fiz; e, seguindo esse caminho dos olhos, acabámos os dois embasbacados, em frente um do outro, pensando que devíamos pôr de lado todas as conversas para que apenas a acção especulativa dos corpos - que tem a ver com a prática ancestral do amor, como bem sabes - nos mantivesse unidos. Estávamos nisto quando ela abriu a boca (e é pela boca que morre o peixe!) e me disse:
- Tenho fome.
Acabámos num restaurante, abrindo as entranhas de uma lagosta, e tentando ler nas linhas vermelhas da sua cabeça o destino que nos esperava.
- Vejo uma pedra, disse ela. E dentro dessa pedra o homem de onde ela nasceu.
Puxando pela coisa, chegámos à conclusão de que esse homem eras tu. Mas se ele eras tu, quem seria a pedra? Puxando mais pela coisa, vi que saía uma pedra de dentro da lagosta; e essa pedra falou-nos:
- Sou o filho de Giacomo, atirado ao oceano por um grupo de piratas. Felizmente, esta lagosta engoliu-me, e agora estou aqui, no vosso prato, para que me deis a educação que mereço.
Logo Marinella me sussurrou ao ouvido:
- Não gosto do oportunismo desta pedra, Marquês. Vamos deitá-la na roda.
E foi o que fizemos. Podes, por isso, estar seguro de que o teu calhau terá uma sólida formação religiosa, e talvez um dia o encontres, nalgum confessionário, a ouvir os teus pecados, porque tanto andarás até que batas com esta pedra no meio do teu caminho.

Amor de pai

Olha, Marquês, não passou uma semana sobre este negócio com o velho, e já tinha atrás de mim os cães que, como tu sabes, não nos largam se percebem que temos uma canela à vista para eles roerem. Antes que me chegassem ao osso, e daí ao tutano, resolvi pegar numa embarcação e pôr-me ao fresco; o que fiz, mas não sem que me metessem lá dentro um pedregulho que, diziam, nascera do meu contacto com a estátua. Passada a rebentação, o barco chegou ao mar pacífico, preparado para a viagem que me levaria de regresso ao continente. Foi então que o calhau começou a levantar a voz. Primeiro choramingou; e quando o ameacei com um martelo, atirou-me à cara o seu destino de basalto, como se isso não fosse um sinal da sua solidez. «É só por isso que não começo já a partir-te aos bocados, para te atirar ao fundo deste oceano!» E ele: «Ó pai cruel, verdugo da minha natureza vulcânica! Fica sabendo que cairei sobre ti logo que uma onda o permita, para te deixar esmagado no convés.» Percebi nessa altura que até uma pedra pode pensar, se a mão do escultor por ela passou, alisando-a e dando-lhe a forma de um corpo humano. Tentei convencê-la de que se devia reduzir à sua condição de matéria dura e sólida, mas o rochedo não me deu tempo a continuar, pedindo-me um pouco de carinho, e que o tomasse nos meus braços, como se eu tivesse força para o levantar.
Com esta conversa, nem reparei que um outro barco se tinha aproximado, e todos os marinheiros estavam de boca aberta, olhando para este estranho diálogo entre um homem e um mineral. Quando reparei neles, já um destacamento saltara para dentro do meu veleiro e, vestindo-me uma camisa de forças, empurraram-me para um beliche, pouco lhes importando que eu lhes gritasse que não me queria separar do meu filho. Com efeito, o diálogo, embora inamistoso, enchera-me de alguma ternura por aquele pedaço inorgânico onde um pouco da minha vida perpassava; e quando soube que o tinham afundado, juntamente com a nave, vieram-me as lágrimas aos olhos.

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