quarta-feira, outubro 26, 2005

Negócio

Marquês
Esta manhã tinha uma pedra na minha caixa de correio, onde li: «Espero por ti». A assinatura, trémula e riscada, era do velho Chupoltec, que me chamava à sua presença. Quando bati à porta da sua choupana, um séquito de criadas pôs-se a abanar grandes folhas de papaia, para me limpar o ar do fumo do incenso que envolvia o velho Totem. Mandou-me sentar num banco feito com as tíbias de inimigos, que tinham sido coladas com óleo de amendoim, cheirando a peixe morto, e serviu-me um refresco de maracujá numa taça que tinha um pé de bronze, sobre o qual havia um crânio untado de gordura de bode.
- É deliciosa a tua bebida, nobre Chupoltec, disse-lhe mal levei à boca o objecto mortuário.
- Acabou de ser espremida pelos meus servos, e tenho muito gosto em que a bebas por esse crânio, que vem do meu defunto rival, a quem tive o cuidado de partir todos os ossos menos a cabeça, para poder fazer essa peça preciosa.
Quando cuspi a última semente do maracujá, disse ao personagem:
- Que me queres? Pediste que viesse à tua presença, e aqui estou.
- Quero que abandones esta ilha, disse-me. Tens um barco pronto para embarcares, e já lá mandei meter a estátua que fizeste procriar, e que deve estar quase a dar à luz.
- Como sabes que o filho é meu, Senhor?
Como deves imaginar, caro Marquês, a última coisa que me interessa, neste momento, é pagar a educação de um calhau! Bem sei que os nossos bancos de escola estão cheios de tal matéria bruta, mas ao menos não sou eu que tenho de lhes comprar estiletes e ardósias para eles fazerem as suas contas.
- Giacomo, sejamos sérios, disse-me o Bonzo, se não queres partir, terás de me jurar que terei o teu apoio.
Nesse instante, todas as criadas estavam à minha volta, e agitavam os espetos em que costumavam assar os fígados dos indígenas apanhados a vaguear pelas redondezas.
- Tens o meu apoio se atirares a estátua para o mais fundo dos abismos que rodeiam esta ilha.
- Podes ficar.
Como vês, meu amigo, não há nada que se não compre quando temos alguma coisa para vender. E logo me retirei, deixando o Soba a dormitar no seu canto escuro.
Saúde

Dança dos mortos

Caro Marquês
Ouvi ontem o velho Chupoltec. É um dos ídolos desta gente; adoram-no; e funciona para eles como um desses amuletos que se põe à janela para expulsar os espíritos malignos. O problema é que não disse nada. Mas é sempre assim: quanto menos diz, mais gostam dele. À sua volta havia um grupo de velhos sacerdotes, cada um mais decrépito do que o outro. Andaram em procissão à volta de um espantalho que, diziam, nos ameaça a todos. Gritavam-lhe impropérios. Tentei espreitar a cara do boneco, para ver se correspondia a alguém conhecido, mas não me deixaram: «Acredita em nós! Este é o monstro que temos de mandar para o Inferno!» A tenda onde tudo isto se passava estava cheia de fumo, que vinha dos turíbulos de incenso das mulheres que os agitavam em frente dos velhos, para que eles não percebessem que estavam sozinhos. De qualquer modo, eram tão cegos como morcegos, o que explica que não consigam ver em que mundo vivem. Ainda tentei explicar a um deles, que parecia mais novo do que os outros, que a estátua do monstro não passava de uma vassoura coberta de palha; mas ele não me ouvia, gritando: «Chupoltec, és o nosso leque!»
Assim vai a vida nesta ilha.
Vale

segunda-feira, outubro 24, 2005

Procriação

Caro Marquês
A situação é simples, e dir-te-ei o que se passa: depois de atravessar o estreito de Magalhães, empurrado pelas correntes, a minha escuna «As onze mil virgens» foi parar a uma ilha em que desembarquei para me abastecer de água. Qual não foi o meu espanto quando encontrei, ao longo de extensos relvados que subiam pela encosta, estátuas de pedra que me fixavam com os seus olhos penetrantes. E sabes o que aconteceu? Mal viram quem eu era, saltaram de onde estavam para começar a dançar à minha volta. Sei que te poderá surpreender esta visão das estátuas dançando; mas quando há por aí tanto calhau a passear à nossa volta, não creio que este acontecimento seja fora do normal. Sentei-me no centro da sua dança, esperando que parassem; e logo que isso aconteceu, já o Sol começava a baixar, cada estátua falava com a do lado, perguntando quem seria este novo habitante da ilha. Do meu lugar, ia apreciando as suas formas; e fixei-me numa delas, cuja beleza sobressaía à das outras. Quando o Sol caiu, segui-a para o seu lugar; e passámos a noite numa amena conversa, dura como o basalto, mas cheia de fricções que faíscavam como pederneira. Acordei com várias queimaduras nas mãos, devido à rudeza do nosso encontro, mas ainda guardo as palavras pétreas que ela deixou metidas nos meus ouvidos, e que vou tentando tirar com uma pinça. Cada palavra, mal a tiro, ponho-a num tabuleiro; e vou formando uma longa frase, que vem do princípio dos tempos em que estas estátuas foram construídas. Há pouco, antes de embarcar, uma outra estátua veio ter comigo para me dizer que a sua companheira se sentia grávida. Vou, por isso mesmo, ter um filho de pedra;e se me incomodares ainda te atiro com esse filho à cabeça.
Saúde
Giacomo

terça-feira, outubro 18, 2005

Novas fronteiras

Caro Marquês
Estou sem noticias tuas, e tu sem noticias minhas. Mas se isso acontece, devo dizer-te que isso se deve ao pouco que me importas. Um Marquês que teve o seu tempo pode continuar a existir; os deuses concedem-lhe esse direito. Mas do mesmo modo concedem aos que existem ao lado dele o dever de o deixarem existir na sua pequena existência. Quanto a mim, se quiseres saber onde estou podes atravessar o oceano, dobrar o velho Estreito e subir ao longo do Continente, na zona que as montanhas circundam com as suas neves eternas. Vejo-as daqui; e posso dizer-te que devias subir a esses cumes e respirar o ar puro dos confins, saindo desse quarto de hotel que transformaste em obscuro reduto de velhas melancolias.
Giacomo

segunda-feira, outubro 10, 2005

Room service

Quando o Marquês entrou no átrio do hotel, se dirigiu ao balcão, e pediu a chave do quarto 9, o empregado já não precisou de pensar duas vezes:
- A sua vaca já a levou.
O Marquês, que não esperava por aquela notícia, correu para a escada e subiu ao primeiro andar. Quando chegou á porta do quarto pensou duas vezes, antes de bater. Quando se pensa uma vez, as ideias começam a mexer; ao pensar duas vezes, batem umas nas outras e começam a cair. O Marquês, quando viu que a sua cabeça estava cheia de ideias no meio do chão, começou a apanhá-las; foi nessa altura que Afonsina ouviu barulho no corredor e veio abrir a porta.
- Ainda bem que chegaste primeiro do que eu, disse-lhe o Marquês.
E, empurrando-a para a cama, tirou o olho da algibeira, abriu-lhe a órbita e meteu-o lá dentro.
- Agora já me podes ver.
Afonsina sentiu-se, de novo, uma vaca completa. Correu para o espelho e surpreendeu-se:
- Como fico bela com os meus dois olhos no sítio.
- Todos deviam ter os olhos no sítio. Assim, evitavam fazer asneiras.
- Tanto lugar comum, senhor Marquês!, disse a empregada, saindo da casa de banho.
- Que fazia aí, perguntou o Marquês.
- Estive a passar-lhe os livros a ferro.
- O quê?
Correndo para a casa de banho, o Marquês descobriu o pior: a empregada passara-lhe a ferro a «Filosofia na alcova»; e, depois de a dobrar e meter no cesto, o resultado eram «Os desastres de Sofia» da Condessa de Ségur.
- Já viu o que me fez à obra?
- Sim, senhor Marquês. E se quiser que o passe a ferro, pode deitar-se na tábua.
Receando que ela o transformasse num menino de coro, o Marquês abriu a porta, tirou uma nota e, pagando-lhe o serviço, mandou-a embora.
- Quem aqui se deita não volta a fazer empreita!
Afonsina, de olhos abertos, sonhava.

Regresso ao hotel

Quando o empregado da recepção viu entrar Afonsina no átrio, sem um olho, avançar até junto do balcão e pedir a chave do quarto 9, pensou uns instantes, e depois reagiu como um profissional. «Se uma vaca me pede a chave do quarto, é porque dorme lá.» Tirou a chave da caixa, e entregou-a a Afonsina.
- Obrigado, disse ela.
_ Aí está uma vaca bem educada, pensou o homem.
E voltou a sentar-se na cadeira, em frente do écrã de televisão onde estavam a dar a tourada.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Eclipse

O olho cristalino de Afonsina fixa-me de dentro da água do bebedouro. «Sabes do meu olho?«, perguntou-me ela. «O teu olho?» É verdade: olhei para o rosto da pobre Afonsina, e uma das órbitas estava vazia. «Tens um olho de vidro?» E ela, de gatas, à procura do olho: «Tenho, deve estar aqui no meio da relva.» Não lhe disse nada, meti a mão na água do bebedouro, e tirei o olho, isto é, só o tirei até meio, antes de o voltar a deixar cair, porque reparei que o sol começara a escurecer à medida que o olho saía de dentro de água. «Queres ver que este olho é o reflexo da Lua, e que ao movê-lo estou a meter a Lua à frente do Sol?», pensei.
- Ouve, Afonsina: e se ficares sem olho?
- O que queres dizer com isso, Marquês?
- Não sabias que o teu olho é uma Lua?
- Já tinha notado que, por vezes, ele começa a decrescer até ficar completamente invisível, e depois volta a crescer até ficar cheio.
- É isso mesmo; e estás agora a atravessar uma fase de Lua Nova, por isso não te preocupes.
Com a minha explicação, Afonsina ficou mais tranquila, levantou-se e correu para dentro de casa. Eu voltei ao bebedouro, tirei o olho de dentro da água e, quando o Sol ficou completamente tapado com o movimento que fiz dar ao olho de vidro, fui ter com ela:
- É noite, Afonsina. Vamo-nos deitar.

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