terça-feira, setembro 27, 2005

Filosofia do bebedouro

A questão central que se coloca está na própria natureza do objecto. Quando precisamos de beber, e abrimos a torneira, é o acto de a abrir que mata a sede, antes ainda de bebermos a água. Do mesmo modo, ao encher o copo, o que temos na mão é o copo, e não a água. O continente basta para nos saciar de conteúdo, e só quando a sede nos consome é que batemos na torneira avariada, para que a água saia, ou partimos o copo, quando não tem água. Também podemos levar este acto à redundância, quando pomos o copo debaixo da torneira e a água se converte no elo de ligação entre os dois objectos, levando-nos a concluir que o conteúdo enche a forma.
Este fenómeno não se verifica no bebedouro, onde vamos beber sempre que quisermos porque, ali, a água não se esgota, não sabemos bem por qual razão. Todos lá bebem: as moscas, os pássaros, as osgas, os mosquitos, as libélulas, o Marquês, a vaca, enfim, toda a humanidade se pode dessedentar nesse vasto bebedouro a que só falta uma comporta para se transformar no reservatório universal. No entanto, tudo tem uma falha; e se alguém fizer um buraco no fundo, lá se vai a água, ficando Afonsina e o Marquês completamente a seco, e olhando para o céu à espera que chova.
A ideia de que o céu é uma torneira é fundamental, neste contexto, porque podemos ter duas reacções diferentes neste caso:
bater com o copo na torneira celeste para ver se ela começa a deitar água, mesmo que o copo se parta e os vidros encham a terra;
ou pôr o copo debaixo da torneira, para o encher com a chuva, impedindo que a água caia para o bebedouro, onde Afonsina e o Marquês vão continuar a olhar para o céu, e a verem o copo a encher, sem perceberem por que razão a água não cai para dentro do bebedouro.
Assim, ambos poderão dizer o famoso axioma do erro: «O céu está a meter água.» O problema é que será apenas o céu a meter água, e não a terra.
Conclusão: quando o céu mete água, a terra fica seca.

Diário de Afonsina

Saí de dentro do bebedouro para ir ao café dos bois beber uma tisana de erva. Não é bom para a minha cabeça tomar banho com o Marquês; e quando ele começa com o seu discurso sobre a República, sinto um calor democrático subir-me pelas veias até me pôr o coração aos saltos. «Estás alegre?» pergunta-me. «São ares», digo-lhe. E corro para o meio dos bois, que andam de focinhos às avessas uns com os outros desde que girondinos e jacobinos disputam o poder. «Será possível que uma vaca sustente a República?» pergunta-me o Marquês. E digo-lhe que já nem uma vaca aguenta esta situação, a não ser que dê largas à sua loucura. Havia de resto um grupo de vacas de que eu fazia parte que tinha feito uma aposta: a primeira a quem fosse pedido apoio para uma das listas pendurava em cada chifre uma bandeira dos lados opostos, e começava a marrar em tudo o que lhe aparecesse pela frente. Assim, teria garantida a sua isenção, dado que, marrada à direita, marrada à esquerda, todos apanhavam, e nenhum saberia de onde vinha a marrada, se do partido quadrado se do quadrado partido. Quando lhe contei isto o Marquês coçou a cabeça: «Estarei a ficar louco?»
- Só se me comeste, disse-lhe.
Ele voltou a coçar a cabeça.
- Vou pensar.

domingo, setembro 25, 2005

Europa

Caro Giacomo
Já tinha compreendido a tua subtileza; e por isso te deixo nas mãos essa Corina, para que prossigas o teu laborioso trabalho de conquista da praça cujos portões só se deixam abrir pelo engenho do verbo. Verás, no entanto, que as suas avenidas se percorrem depressa; e em breve desejarás encontrar uma saída, para que o tédio da sua arquitectura não te entorpeça o espírito.
Prefiro os encantos de Josefina, cuja história acabo de conhecer. Como sabes, estávamos os dois no bebedouro, de água negra pelos limos e pelas folhas podres do Outono; e depois de nos divertirmos, atirando à cabeça um do outro as rãs e os girinos que habitavam tão espesso lago, a vaca saiu de dentro de água convertida em esbelta jovem, que se me dirigiu deste modo:
- Queres saber o meu nome? Todas as minhas companheiras me conhecem por Afonsina; mas o meu apelido é Europa. Como sabes, fui raptada por Júpiter que, para me conquistar, se teve de transformar em touro, para que eu lhe saltasse para cima e ele começasse a correr, até ao lugar deserto em que pretendia consumar os seus lúbricos desígnios. Para o evitar, pedi a ajuda de Juno, que me transformou numa vaca, à vista da qual o touro perdeu todo o ímpeto, deixando-me a pastar no prado onde fiquei até ao dia em que te vi chegar, e logo me apaixonei por ti, cumprindo-se a promessa de Juno de que, logo que eu vencesse a repugnância do sexo oposto que Júpiter me provocara, voltaria à minha primitiva condição.
Olhei com atenção para Afonsina: e de facto todo o seu corpo era um mapa. Os pés eram Portugal, que se enterrava na lama e no esterco que rodeavam o bebedouro; seguia-se a Espanha, que lhe subia pelas pernas, até chegar a essa doce França, em que todos queremos entrar, apoiando-nos nas coxas que são a Inglaterra e a Itália; os fartos seios eram a Alemanha, ; e deixo-te adivinhar o resto do mapa, para não te facilitar a viagem, caso também tu queiras visitar esta Europa que (não demorei muito a perceber) se abria a todo o mundo, sem estabelecer diferenças de raça, sexo ou religião.
Quando acabámos, e ela me empurrou para trás, senti-me o mais casto dos europeus ao vê-la transformar-se, de novo, numa vaca:
- A velha Europa não pode deixar de ser uma vaca, onde todos os povos vêm tirar o seu leite, ajudados pelo leiteiro de Bruxelas que dá as instruções para que cada qual possa mamar equitativamente.
Neste momento, as minhas últimas ilusões dissiparam-se: Afonsina estava completamente louca!
Saúde

Quarto

Querido Marquês
O que dizes de Corina não me preocupa; preocupa-me apenas a tua cegueira. Se ela mantém o quarto fechado, a razão é simples: é que, se abrisse os cortinados da janela quando tu estás com ela no quarto, revelaria a minha presença. É verdade: tenho estado sempre escondido nessas tardes em que tu a tentas doutrinar com as tuas teorias, apenas porque me aborrece rebater-te nessas longas e entediantes discussões em que nunca chegamos a qualquer conclusão. Não te voltarei a contradizer com as minhas ideias sobre a arte de prolongar o cerco, demorando o uso de meios radicais, como a escada ou a investida, o alçapão ou o fosso, o aríete ou o cavalo de Tróia, para vencer a bela presa; pelo contrário, é no envolvimento, na persuasão e no canto de sereia que a conquista nos dá o seu mais doce encanto, ao contrário da tua ideia bárbara que Stendhal resumiu em duas palavras: «Diz amo-te e salta para cima da mulher.» Bem ouço os teus argumentos, quando bocejas sobre Corina os teus louvores ao incesto; e não deixo nunca de tomar nota das suas respostas, dizendo-te que se Paris vale bem uma missa, qualquer um pode fazer de padre. E vejo a tua cara de perplexidade, começando a dizer que a bondade é uma fraqueza, e tentando empurrá-la para o leito; e como ela te explica que te considera seu irmão, obrigando-te a recuar nessa prática que viola os teus princípios de que só uma vítima, e não um acólito, te poderá dar o prazer que desejas.
Saúde
Giacomo

sábado, setembro 24, 2005

Banho

Caro Giacomo
O outono é quente em Santander. Por isso tive de sair do meu quarto no Hotel Ignacia, e atravessei a cidade até chegar ao campo, onde podemos sentir o ar fresco do mar, que nos alivia do cheiro a mofo que estes quartos de hotel têm, sobretudo quando Corina insiste em que eu não abra a janela, para que não a vejam da rua. A pobre jovem insiste em dizer que eu lhe provoquei uma pulsão semântica, o que significa que, de cada vez que ela aparece em frente de pessoas, todo o seu corpo manifesta o seu amor por mim. Tentei explicar-lhe que esse sentimento não existe, e li-lhe algumas páginas da minha «Filosofia na alcova» para a convencer da minha asserção; mas ela insiste em falar de sentimentos de forma tão enfadonha que acabo por bocejar horas seguidas, de tal modo que chego a duvidar que ainda exista dentro de mim algum ar. Ela, mais prática, chegou a desabafar que ia montar uma ventoinha eólica em frente da minha boca para produzir energia para o seu espírito; mas esta ideia fez-me rir, e consolei-a do modo que sabes, para não ter de a ouvir mais.
Dizia-te que fui até ao campo para apanhar esse ar que me falta dentro do quarto; e qual não foi o meu espanto quando encontrei aquela vaca que tu conheces, a Afonsina, completamente louca! Insistia comigo em que saltasse para dentro do bebedouro onde ela se banhava, no meio de folhas mortas, de limos e de moscas; e acabei por lhe fazer a vontade, porque não faço ideia como dizer que não a uma vaca louca. E não é que, no meio do nosso banho, descobri que já conhecia de há muito esta Afonsina? Tinha sido em Veneza, quando andei a correr todos os telhados atrás de Marinella; e num terraço, ao abrigo de olhares indiscretos, Afonsina apanhava o sol do Veneto para se proteger, disse-me ela, da luz venérea dos salões. Conversámos longamente sobre o assunto, até que ela se despediu com um «addio» inquieto quando ouviu ruído nas escadas; e mal tive tempo de ver o talhante que a vinha buscar, com a sua faca bem afiada, antes de prosseguir o meu rumo aéreo. Deu-me prazer este encontro, porque me fez compreender a sua arte em escapar às investidas dos magarefes, gritando-lhes que é louca. No nosso banho, porém, comportou-se com toda a razão do mundo; e pude voltar mais fresco para o quarto do hotel, onde Corina tentava estabilizar o seu sujeito dividido entre a expressão e a censura.
Saúde

Bebedouro

Uma das vacas, chamada Afonsina, tinha sido comprada a um comerciante de gado na feira da agricultura. Tinha os olhos pretos, e deitava-se na palha do estábulo com um suspiro de satisfação, como se o seu destino fosse dormir. Preferia um pouco menos de sensibilidade numa vaca; e ao percorrer o seu pêlo macio com a mão, tinha alguns remorsos ao dar comigo a pensar nos bifes que me iriam deliciar quando Afonsina, cortada às postas pelo talhante, fosse metida no meu prato. Foi então que ela me disse:
- Sabes que sou louca?
Dei-me conta, ao ver o modo como todo o seu corpo se transformava numa vítima das minhas carícias, de que a sua disposição mudara, e o sono se convertia numa fogosa paixão que me fez lamentar não ser um touro. Mas o problema agora era outro: deveria eu denunciar a sua loucura? Tal obrigaria as autoridades a matar a manada, privando a cidade de todas aquelas vacas. A solução que encontrei foi telefonar a um amigo, psiquiatra, para a tratar, restituindo-a à normalidade.
- Estás louco, disse-me ele, como queres que eu ponha uma vaca a falar?
- Não precisa de falar. Basta que muja!
Calei o psiquiatra com esta conjugação verbal. E a própria Afonsina começou a rir, levantando-se das palhas, e puxando-me pela mão até ao prado verdejante onde todas as vacas se tinham transformado em jovens esbeltas que se banhavam nos bebedouros, enquanto os bois marravam contra os troncos da vedação para extinguir o lume da sua lubricidade.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Largada bovina

Corina
Estás dividida entre as vacas magras e os bois gordos; e compreendo a tua dificuldade em escolher. O que concluí da tua carta, porém, é que o Marquês está no teu corredor - nem sei mesmo se no teu quarto, forrado ao papel vermelho em que ele bate com a testa; enquanto que Giacomo é o porta-voz dos bois, nas negociações que eles travam com as vacas para as fazer sair do estábulo. Estás à beira de um precipício cósmico, de que o Marquês e Giacomo são os guardiões; e se fosse a ti agarrava-me a eles, para não que não tenham de te ir buscar às profundezas. O que te aconselho, no entanto, é simples: pega num pouco de cera e tapa os ouvidos, para não voltares a ouvir o mugido das vacas. Se passares muitas noites com esse ruído a atormentar-te, ficarás anoréxica; e sabes como os bois são sensíveis a essas frágeis criaturas que passam por entre eles, como fios etéreos; e será ainda pior se tiveres um vestido vermelho, porque então toda a manada investirá contra ele, obrigando-te a correres pelo campo à sua frente até chegares ao bosque, onde terás de subir a uma árvore para que os seus chifres não te trespassem. De nada servirá o cajado de Giacomo, que não poderá fazer outra coisa senão correr atrás dos animais, sem ver nada, porque hão-de levantar um pó que esconderá tudo o que se passa na sua frente.
Claro que, para que isso aconteça, vais ter de sair do Hotel Ignazia. Não é difícil: manda o Marquês à frente; e enquanto os outros hóspedes o insultam, obrigando-o a bater com o punho nas caras que têm o indicador à frente dos lábios a pedir silêncio, esborrachando-lhes o nariz contra os dedos, passarás levemente por entre a confusão, descerás a escada, terás de ignorar as imprecações bascas do recepcionista, e meter-te-ás pelas ruas de Santander, perguntando onde fica o mar. Ninguém há-de perceber o que lhes dizes; mas seguirás sempre em frente até chegares ao grande relvado que cobre todo o vale. Não te esqueças de levantar bem alto o teu lenço vermelho; e será então que os bois se soltarão da sua obsessão pelas vacas, e te hão-de perseguir até à árvore. Quando tudo acalmar, estarás a dormir; será noite; e nenhum ruído te perturbará o sono, nem o ressonar de Giacomo que, agarrado ao cajado, te protegerá até que a manhã te acorde.
Boa noite
Filis

terça-feira, setembro 20, 2005

Vacas

Querida Filis
Estou desde há dois dias no Gran Hotel Ignacia de Santander, com janela para o campo, e tenho ouvido toda a noite as vacas bascas mugindo, para que lhes abram a cerca e as deixem ir para o pasto. Com estas insónias provocadas pela fome das vacas, tenho tido tempo para conversar com o Marquês, que veio comigo, ouvindo as suas teorias sobre a impossibilidade de soltar as vacas, dados os prejuízos morais que isso iria provocar na população de bois que se distribui pelos campos à volta de Santander. Não sei de onde vem a sua simpatia pelos bois, e muito menos pela sua sã moral; pelo contrário, ao ver as suas testas, percebo que passem a vida a marrar no chão, sobretudo quando este apresenta pedaços de terra vermelha por entre o verde da erva. O que é surpreendente, no entanto, é que o próprio Giacomo tem reacções inesperadas; e fui dar com ele, quando lhe falei na tristeza dos bois, a bater com a cabeça no papel vermelho que forra a parede do meu quarto. O problema de estar em Santander é que não se sabe como sair daqui. Ainda por cima, não nos deixam fazer barulho nos corredores do hotel; e quando quero sair, há sempre uma porta que se abre e uma cabeça que sai com o dedo na boca, a mandar-me calar, e a fazer-me voltar para trás. Vou até à janela; mas o nevoeiro basco só se dissipa uns minutos, entre o meio dia e a uma da tarde, que é quando consigo ver as vacas a empurrarem-se contra a porta do estábulo, e a mugir para que as deixem sair. Do lado de fora, os bois também se juntam, à espera que elas saiam; e entre os bois e as vacas está Giacomo, com um cajado de pastor, a tentar pôr ordem na classe bovina. Já telefonei para a recepção para lhes explicar que isto não é vida; mas respondem-me em basco, e não sei o que hei-de fazer.
Saúde
Corina

segunda-feira, setembro 19, 2005

O poço da morte

«Temos aqui um problema», disse o homem.
«O problema é você», disse o outro homem.
«Mas eu falei no plural», voltou a dizer o primeiro.
«Está a dizer que o problema somos nós?», disse o segundo homem. E atirou-se ao poço.
«Já não tenho nenhum problema», concluiu o primeiro homem.
«O meu único problema era haver aqui um poço», disse o segundo homem do fundo do poço.
«Pois agora tenho um poço de problemas», disse o primeiro homem, enquanto o eco amplificava o borbulhar do segundo homem a afundar-se.

quarta-feira, setembro 14, 2005

Descubra as diferenças

Resta apenas resolver um problema. Terá sido Danton o percursor da lobotomia? Como é evidente, a lâmina de guilhotina não se parece com o bisturi do cirurgião; mas a ideia do corte da cabeça, em parte ou no todo, para resolver uma questão de comportamento social, torna as duas técnicas análogas, do ponto de vista prático. Há diferenças: o guilhotinado não anda e o lobotomizado sim; mas há semelhanças: o guilhotinado não fala, e o lobotomizado também tem tendência a ficar calado. Se sentarmos à mesma mesa um guilhotinado e um lobotomizado, a conversa não passará de «hum!», «hum!», «hum hum!», «hum...», resultante de um desencontro de opiniões, uma vez que o guilhotinado costuma ser muito mais afirmativo do que um lobotomizado.

segunda-feira, setembro 12, 2005

Pescas

Abrindo as televisões, o panorama alterar-se-á consideravelmente. Nas grandes entrevistas, o comentário habitual deixará de ser «que grande cabeça» mas «que grande falta de cabeça!» Quanto aos que arranjaram cabeças de substituição, pondo sobre o pescoço as cabeças de peixe roubadas nos restaurantes, ou mesmo no cais, à saída das lotas, irão merecer opiniões do tipo: «Boca de charro», «olhos de goraz», «toma lá o anzol!», «não te escames», «nasceste para nadar», etc., etc. Alguns, porém, que eram já chamados «peixes de águas profundas», vão perder a sua originalidade, e serão os únicos a sentirem-se incomodados com esta banalização piscícola. Serão possivelmente os únicos a andarem por aí à procura de uma boa cabeça, para passarem de peixe-espadas a pargos legítimos.

domingo, setembro 11, 2005

Largada de cabeças

Andando país fora, passaríamos a ver muito mais gente de cabeça perdida do que toda essa que, em condições normais, já vamos encontrando. Nos carros com motorista da Câmara, ou do Estado, teremos criaturas sem cabeça, a apalpar o pescoço e a tentar ver se, no espaço vazio sobre ele, existe alguma coisa.
Frases como: «Onde é que eu pus a cabeça?» ou «Que fiz eu à minha cabeça?» ou ainda «Que cabeça esta!» vão passar a fazer parte do quotidiano mas, desta vez, usadas num sentido próprio, e não apenas figurado. Por outro lado, veremos uns malandros a gozar com a malta quando, mostrando a cabeça no devido lugar, vão dizendo: «E eu, que nunca tive cabeça para nada, sou o único a ter a cabeça no lugar!»
Insultos como «cabeça de vaca» passarão a ser banidos do vocabulário, dado que muita gente passará a dizer: «prefiro uma cabeça de vaca a andar sem cabeça»; e será corrente ver os que são acusados de cabeça de vaca a fugir à frente dos decapitados que os procuram agarrar pelos cornos, como se estivessem num dia de largada de touros em Pamplona.
Outros, pelo contrário, resignar-se-ão à sua sorte, dizendo com voz de choro: «Quem me dera ter uma cabeça de prego!»
Nos restaurantes, a refeição mais cara vai passar a ser cabeça de peixe, que terá de ser posto no seguro porque muitos hão-de tentar sair com a dita debaixo do braço, para a porem em cima do pescoço, porque mais vale uma cabeça de peixe nos ombros do que no prato.
Enfim, a cabeça será cotada na bolsa, e quantas mais caírem, mais hão-de subir as acções.

Cartazes

Assim, ao ver tantas cabeças, país fora, em cartazes de propaganda política, fiz minha a filosofia do Danton: não seria muito melhor se, em vez das fotografias, estivessem as cabeças autênticas, devidamente cortadas e envernizadas para que o sol as não queimasse? A escolha seria muito mais fácil; e também se aplicaria com muito mais propriedade a frase - «a cada cabeça sua sentença».
O pior é que começaria a aparecer uma nova profissão: os ladrões de cabeças. E quando parássemos o carro num semáforo, lá teríamos pela frente o vigarista, com um saco de plástico na mão a esconder a cabeça:
- Quer esta? Vendo-a pelo preço da chuva.
- Olhe que não, já tenho uma cabeça em cima dos ombros.
- Mas fica com uma suplente. Assim, quando lhe doer a cabeça, é só substituí-la.
- E se me confundem por causa da outra cabeça? Se me vêm pedir autógrafos? Ou pedir contas por causa da política?
- Não há problema: é só tirar a cabeça de recarga, e meter de novo a sua cabeça. Volta tudo ao mesmo.
O que vale é que o sinal voltou ao verde, e não deu tempo a contar o dinheiro para comprar a cabeça ao vendedor.

sábado, setembro 10, 2005

Antropologia militar

Os índios também tinham razão: o escalpe permitia ter a parte mais importante da cabeça. Com o diâmetro na mão, avaliavam a qualidade de pensamento do seu antigo possuidor; e se pusessem o escalpe sobre os seus cabelos, havia uma soma de pensamento ao pensamento. Com esse pensamento duplicado, o índio transformava-se num sinal de fumo, e subia pelo ar acima até dar a ver ao mundo a sua filosofia.
Infelizmente, isto não era possível com os carecas. De acordo com esta concepção antropológica dos índios, os carecas não tinham pensamento. As ideias andavam à volta da careca, à procura de cabelos a que se pudessem agarrar; e como não os encontravam, lá iam elas a voar até encontrarem uma cabeça mais fornecida.
É por esta razão que o exército americano, depois da derrota do cabeludo general Custer, passou a rapar a cabeça aos seus soldados: deste modo, evitou os escalpes; o inconveniente é que os soldados ficaram sem pensamento.

Aviso

Na verdade vos digo: se em cada cabeça sua sentença, não nos percamos e sem detença tiremos de dentro delas o que pode ser salvo. Metendo um gancho pelo ouvido, puxem-se as frases que merecem ficar para a História; e enrolem-se aos cabelos, para que nenhuma palavra caia para o chão.

Fim

Quando o Danton disse ao carrasco «podes mostrar a minha cabeça ao povo, ela merece-o», deu um excelente exemplo a muitos políticos, que deveriam reflectir nesta frase. Com efeito, não é todos os dias que nos podem mostrar a cabeça à multidão; e se houver alguém disposto a agarrá-la pelos cabelos, e a levantá-la bem alto, para que mil bocas ululantes se calem, emudecidas pelo espectáculo da boca de onde não voltarão a sair quaisquer inanidades, dos olhos que já só avistam um vislumbre de eternidade, e dos ouvidos que estão definitivamente tapados para as críticas do mundo, tanto melhor!

quinta-feira, setembro 01, 2005

Bóias

Querida Fílis
Vou-te contar o que me aconteceu quando estava na praia, ouvindo as emissões da Rádio Pyong-Yang pelos meus headphones roubados num avião da «Aero Republica» da Nicarágua. No meio de um debate sobre a necessidade de repartir as mais valias do Capital pelos deserdados de África, saem-me de dentro de água dois cavalheiros, com ar distinto apesar das olheiras e da pele roxa de terem estado várias horas submersos. Deitaram-se de costas na praia, mas como não é a primeira vez que isto me sucede - pseudo-afogados à espera que lhes faça respiração boca-a-boca - puxei da minha bóia, tirei-lhe o fecho e, alternadamente, esvaziei-a na boca ora de um ora de outro, sabendo que o que lhes estava a meter para dentro foi o oxigénio que lhe insuflara, quando a enchi.
Tanto bastou para que os cavalheiros se levantassem e me começassem a falar, ignorando que não os podia ouvir porque, quando estou aouvir um debate filosófico na Rádio Pyong-Yang, não consigo parar sem que a discussão chegue ao fim. Só percebi, quando o camarada Huyn-Saké defendia a excisão do lucro bolsista na bolsa de Tóquio, e um dos cavalheiros me envolvia com os seus braços, que o seu objectivo não era a mera sobrevivência física, mas sim conquistar o seu direito à reprodução da espécie à custa do meu hímen. Como a assistência no Palácio do Povo não cessava de bater palmas, uma vez que o economista Tchin-Praká citara o amado nome do Grande Líder Tchan-Pralá, pude interromper a audição e dizer ao cavalheiro, que depois soube chamar-se Giacomo:
- Senhor, sabeis sem dúvida que o ar que vos enche os pulmões foi aquele que eu insuflei nos vossos lábios pela minha bóia; mas não preciso que procureis devolver-mo, com essa insistência com que a vossa boca procura a minha.
Logo o Marquês, que era a outra criatura que dera á praia, se levantou e disse com ar furibundo ao companheiro:
- Aí está no que deu a generosidade desta Senhora: esvaziais-vos, como um balão, e deitais fora todo o ar precioso que ela vos ofereceu!
Giacomo compôs a sua figura, logo readquirindo a sua elegância; e começou a falar, dirigindo-se às nuvens:
- Vós, companheiras, nunca o vosso apoio me faltou quando precisei dele. Chuva, quando estava seco; e neblina, quando alguns cônjuges inquietos me demandavam em busca de reparação para os seus adornos curvilíneos. Também agora vos peço que, batendo umas contra as outras, com estrondosos trovões, me envieis um raio que parta este meu colega de infortúnio, que pretende transformar-se em censor de todas as acções de que, ele próprio, é o primeiro praticante.
Felizmente, minha amiga, as nuvens ficaram mansas como cordeirinhos, os homens encontraram a paz de um sono que os deitou por terra, e pude repôr os headphones para ouvir o hino final.
Saúde
Corina

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