quarta-feira, agosto 31, 2005

Candidatos

Enquanto Giacomo se entretinha com Corina, o Marquês pôs-se a pensar: e se me candidatasse a Doge da República? A verdade é que a República se afundava; que a água enchia a praça até meio, obrigando os cidadãos a descalçarem-se para pôr o pé na rua; mas, por outro lado, se a cidade não metesse água, eles teriam de andar descalços de qualquer modo,porque a crise tinha gerado uma sociedade de pés descalços, a ponto que a moda consistia em pintar os pés com cores vivas, como se todos andassem com sapatos vermelhos, amarelos, roxos, verdes, etc. «A minha palavra de ordem, pensou: um par de sapatos para cada cidadão!» Todos os debates seriam à sapatada; e cada sapato serviria ao seu pé. A Constituição seria votada segundo o modelo da Cinderela: a cada voto o seu sapato, e só se o sapato servisse ao votante é que este poderia pôr o voto.
- Não há filosofia como a minha, disse o Marquês a Giacomo.
- De que estais a falar, Senhor? Também eu vou ser candidato.
- Vós? E qual será o vosso programa?
- Uma Corina para cada cidadão!
O Marquês sentiu-se perdido. Mas ocorreu-lhe uma outra ideia:
- E será que a Corina serve aos pés da República?

sábado, agosto 20, 2005

Descubra as diferenças

O meu convívio com o Marquês veio pôr a nu, não o corpo de Corina, porque este já se encontrava praticamente nesse estado, mas as nossas diferenças existenciais e doutrinárias. Vejamos:
enquanto que, para o Marquês, Corina era um instrumento em que ele se ia deliciando aos acordes da Marselhesa, que tamborilava com a mão direita nas suas costas, enquanto a esquerda lhe ensinava a grande doutrina da alcova ocidental, para mim ela era uma orquestra, que eu fazia mover ao ritmo das Quatro estações do meu grande amigo Vivaldi. Comecei pelo Inverno, na fase em que comecei a fingir que tremia, fazendo com que ela me aquecesse. A sua dedicação à causa da minha cura em breve produziu o degelo que me fez suar copiosamente, enchendo as suas mãos de gotas que a ajudaram a descobrir um novo estuário para a grande cheia do amor; e daí à Primavera foi um pequeno passo, o que transformou o seu corpo num jardim em que fui cultivando com toda a arte cada canteiro, até a ver florir por inteiro. Pudemos, assim ,gozar o Verão que os nossos braços ajudaram a fazer sair de dentro da natureza, apreciando cada pedaço de paisagem que Corina ia comentando com o seu talento minucioso na descrição. Finalmente, depois de passados todos estes andamentos, chegámos ao Outono, em que ficámos cobertos com um manto quente de folhas que nos fez passar a noite com o maior conforto, como se estivéssemos no mais rico quarto de um hotel florentino.
Não sei quanto tempo durou este Outono, em que ambos passeámos num vagar sonâmbulo. Terá passado uma, duas, infinitas noites, sem que déssemos pela manhã; e chego a pôr em dúvida que essa manhã alguma vez ainda chegasse. Para quem não o conhece, posso dizer que é assim o amor: uma única noite, como digo, sob as folhas outonais, pode durar toda uma vida, se a imaginação nos ajuda a completar aquilo que nela faltou.
Mas a realidade foi mais prosaica; e quando o criado nos bateu à porta do quarto, perguntando se queríamos o pequeno almoço que, de véspera, lhe encomendara, é que me dei conta de que estava a acaordar no meu hotel de Florença, para onde levara Corina quando ela me disse que os amigos que lhe tinham prometido um apartamento se tinham ido embora para férias, sem deixar qualquer indicação sobre o local a que ela se devia dirigir para recuperar a chave.
- Ouve, minha querida, disse-lhe, estou neste hotel por empréstimo, mas o patrão faz questão em hospedar de forma generosa um convidado que só lhe traz prestígio - e visitantes. Não imaginas a sfilas que se fazem a esta porta, quer de senhoras que desejam ter o privilégio de pôr os olhos em mim (esperando que lhes retribua, pondo muito mais sobre elas), quer de fidalgos que esperam que eu lhes ensine como se poderão libertar da sua timidez, e obter o sucesso que premeia os bons combatentes no final da batalha. A verdade, porém, é que me cansei deste tributo; e desde há uns meses pago a um meu sósia para que se sente na recepção, e é aí que dou a ilusão, através desse efeito de óptica, em que a única condição que dei a esse bom cidadão é que se mantenha silencioso, de que atendo toda a gente. Como vês, a democracia tem estas absurdas exigências; e o amor ao povo obriga-nos a sacrifícios que temos de superar através destes truques. O mesmo sucede na política destes regimes, dado que aqueles que mandam, realmente, também não aparecem nunca ao vivo; e são aqueles a quem eles pagam que recebem o povo, e as suas exigências e recriminações. O problema, muitas vezes, é que esses funcionários, a que damos o nome de políticos, não sabem estar calados; e como palavra puxa palavra, o hotel em que trabalham, chamado Parlamento, assiste a uma constante vozearia que passa para a rua, irritando os ouvidos da gente culta e honesta da nossa República.
Corina ouviu o meu discurso como se assistisse a uma representação; e não deixou de me saudar, no fim, batendo infantilmente as palnas com as suas mãozinhas delicadas. É assim que as nossas teorias vão ganhando adeptos, e sentia-me feliz por ver que a convicção com que lhe falara limpara completamente do seu espírito as negras ideias do Marquês!

sexta-feira, agosto 19, 2005

Viva a República!

Enquanto o Marquês prosseguia a explicação das suas doutrinas filosóficas à jovem Corina, comecei a aborrecer-me. Então não era que o homem, confundindo a sua bela discípula com uma surda-muda, passara da explicação de viva voz a práticas gestuais em que as mãos faziam todo o trabalho que devia ser dado às palavras?
- Senhor, disse-lhe, não vos quero aborrecer com as minhas críticas, mas será melhor fazê-las enquanto é tempo do que depois de terdes gasto todo o vosso latim com essa donzela. Não vedes que ela está de olhos fechados, e não consegue perceber o sentido do que exprimis através do vosso frenético movimento de mãos?
- Será melhor, Giacomo, não me interromperes. Encontro-me agora na definição dos grandes princípios que devem reger a abertura da República aos povos, e Corina presta-se de todo o seu coração a fazer de ícone do nosso sistema.
Com efeito, Corina, seguindo o exemplo do busto de Mariana, destapara os seus seios ao Sol, e dava ao mundo a imagem de total transparência a que devem obedecer as leis democráticas. Senti-me atingido nos meus princípios aristocráticos; e logo procurei libertá-la daquele domínio opressor seguindo as regras aprendidas na Comedia dell'arte, de que fui um extremado cultor.
- Senhora, começo a ter frio; talvez as horas passadas no mar me tenham arrefecido o coração, e vede como tremo!
E, pondo em prática os exercícios teatrais, já todo o meu corpo tremia que nem varas verdes. Logo Corina, cuja bondade natural despertou nela o desejo de me ajudar, esquecendo-se do que o Marquês lhe tentava ensinar, empurrou-o para o lado e veio abraçar-me. Não parei de tremer, para que o seu afecto se não perdesse, ao contrário do que sucede com certos amigos que, por muito que vejam tremer o seu companheiro, atiram o afecto para as urtigas quando o abraço da República os incita a subir para cima dos seios de Mariana, para poderem cravar nos seus generosos ombros os seus pés e, do alto da República, serem vistos de todo o Universo!
- Vês como tremo, minha amada?, sussurrei-lhe para que o Marquês não ouvisse. Era este o momento que eu esperava, desde que me atirei à água, e Neptuno me conduziu com as suas correntes amigas até que pude ouvir o teu canto de sereia!
Logo Corina começou a cantarolar ao meu ouvido, enquanto eu a puxava para trás dos arbustos, onde uma doce sombra nos reservava a sua intimidade.

quarta-feira, agosto 17, 2005

Desembarque

Querida Fílis
estava eu de férias na praia, em frente a esse mar Adriático que, às oito da manhã, fulgura num esplêndido azul turquesa, quando vejo o que, ao longe, me pareciam duas bóias, serem empurrados para a costa pela corrente. E não é que, ao chegarem mais perto, vejo as duas bóias nadarem? Eram dois homens, que logo se puseram em pé mal chegaram às rochas, e se dirigiram até mim, perguntando-me onde estavam. Não lhes respondi logo, ainda surpreendida por ver dois náufragos tão longe de qualquer sinal de embarcação afundada, quando um deles se apresentou:
- Senhora, permiti que vos diga o meu nome: Donaciano Afonso, primo do libertino Dolmancé que muito me falou das vossas qualidades. E este meu amigo é o caro Giacomo, que também muito tem para vos dizer.
Esta apresentação não me deixou dúvidas sobre a qualidade das pessoas presentes; e embora estivesse com uma reduzida túnica transparente, que me permitia apanhar o sol da manhã no corpo e tomar banho quando o calor começasse a subir, fiquei certa de que não iria sofrer qualquer insulto por parte daqueles dois cavalheiros. Logo o Marquês prosseguiu:
- Estamos a chegar ao fim do Mundo, Senhora, e a nossa missão é salvar o que ainda houver para tal, se alguém nos quiser ouvir. Vedes este dia magnífico, o azul celeste que transporta a ilusão do divino, e sem dúvida, ao olhardes para o horizonte, que ainda está escondido por uma doce névoa, tereis o sonho de que o universo é esta paz infinita. Pura ilusão! É que, por trás do horizonte, encontram-se os Turcos, com as suas naus carregadas de infiéis que se preparam para lançar um último ataque às nossas pátrias; e por detrás deste azul, ou por cima dele, como queirais, os deuses afiam as suas balanças para o que será o Juízo derradeiro.
pedi-lhe que não fosse tão pessimista; mas ele não se calou:
- Só vos peço, Senhora, que não façais qualquer distinção entre o homem e o animal. Este, quando se vê reduzido ao extremo dos extremos, perde toda a passividade da sua natureza para se transformar no mais inclemente dos inimigos, desde que disso dependa a sua sobrevivência. Por isso, peço-vos que sigais o exemplo das plantas, que se deixam definhar no seu sítio, ficando por fim o seu tronco carregado de ramos secos como um monumento à permanência. Não dará qualquer sombra que nos reconforte; mas dar-nos-á o pretexto para longas meditações, de onde poderão sair as maiores filosofias do Ocidente!
Confesso-te, querida Fílis, que nem me apercebi, ao som inebriante das suas palavras, de que a sua mão já se confundia com a fluida carícia da minha túnica, e os seus dedos na minha pele acendiam o eco de uma brisa lânguida que, em certas partes, se convertiam em fogosos turbilhões que me transportavam para cima do Céu de que ele me falara. Como é evidente, poupo-te a descrição das suas conclusões, que a minha cabeça já não conseguiu fixar.
Corina

terça-feira, agosto 16, 2005

Fuga

Ao fim de três dias de cárcere com Giacomo, as coisas entraram no seu ritmo. Contei-lhe o que passei quando estive na Bastilha, e tive de escrever os «120 dias de Sodoma» com uma tinta feita a partir do líquido de esgoto que corria pelas pedras. De facto, trata-se de uma tinta indelével, e foi graças a isso que o manuscrito se conservou para que os meus descendentes nele pudessem aprender algumas instruções úteis para o seu comportamento social. Giacomo nunca teve esses problemas. Os carcereiros sempre o respeitaram, dando-lhe papel e tinta para ele escrever as suas «Memórias». Soube depois que isso se devia ao desejo que os deslumbrados maridos de Flo rença e Veneza tinham de que as suas castas esposas passassem à imortalidade, e com isso o seu anónimo apelido ficasse na História, mesmo que o pretexto testífero não lhes fosse agradável.
A comida é que era o pior. Casanova frequentara os melhores restaurantes da Europa, e o menu prisional não era, sem dúvida, adequado à exigência do seu paladar. Mas também aí ele ganhara alguns privilégios, que advinham de um convívio que tivera com a bela mulher do Governador da prisão, e que ele lhe retribuía agora oferecendo-lhe quilos de esparguete, que Giacomo aproveitava para confeccionar deliciosas receitas. Ainda me lembro de um esparguete de pele de rato, que chupávamos com deleite; e outro de patinhas de barata, cujo odor só de lembrá-lo me traz água à boca! Claro que isto também servia para nos ocuparmos: de cócoras, à caça desses pequenos roedores que frequentavam os buracos do nosso covil; ou então amarinhando pelas paredes atrás desses insectos trepadores, destinados a acabarem a sua triste vida na nossa caçarola.
A cabeça de Giacomo, porém, não se esgotava nestes afazeres domésticos; e, a pretexto da caça aos ratos, descobriu que podia ir alargando um dos seus buracos, por onde vinha um fio de ar exterior. «Isto vai dar a uma saída», confessou-me. E, de hora a hora, dedicava-se a alargá-lo, até ao ponto em que o seu corpo já cabia dentro de um largo túnel de onde vinha, mais do que um fio, toda uma corrente d ear húmido.
- Já sei, marquês, onde isto nos vai levar!
E não é que a sua intuição estava certa? meses após o início da escavação, e depois de inúmeras pratadas de esparguete de pele de ratos capturados ao longo dos trabalhos, empurrámos a última pedra, para nos vermos na base da muralha da prisão, sobre a água de um dos mais largos canais de Veneza.
Logo nos lançámos, mais do que a nadar, a boiar, porque devo confessar que as refeições de esparguete, somadas à imobilidade forçada do cárcere, nos tinham triplicado o peso, e podíamos flutuar como grandes bóias de aviso á navegação. Foi isso, de resto, que nos salvou, porque embora fosse dia, e a luz nos pudesse denunciar, fomo-nos confundindo com essas bóias, até chegarmos à longínqua costa do Adriático.

sábado, agosto 13, 2005

Conversa de prisão

Pelo corredor, em frente do nosso postigo, passou a escolta, levando um outro preso. A luz da tocha entrou por uma fresta da madeira e iluminou de frente o rosto de Casanova - e só então compreendi como fora ingénuo, desde o início: Casanova e Giacomo eram uma e a mesma pessoa, só me conseguindo iludir devido ao trajo humilde que envergara, quando ao meu serviço, e por uma cabeleira de estopa que lhe dava o ar de um pobre rústico. Ao ver-se descoberto, Giacomo desatou-se a rir:
- Sim, caro marquês, fui eu que preparei tudo para que caísses na esparrela de Marinella, tal como em qualquer prima cai a minha rima, se ela se põe a preceito para me fazer o jeito!
Era ele, sem dúvida; e a desfaçatez do seu propósito não deixou de me incomodar, dado que me lembrei de como, ignorante da sua verdadeira identidade, pusera nas suas mãos, para a levar ao colégio, a minha prima Liana, que desde esse dia como que remoçou, ganhando um primor de fruta madura no mercado do Lido.
- Depois do que passei, perdoo-te todas as afrontas; mas queria que me explicasses a razão desta cilada.
É simples, explicou ele. Cansado de ver os lares venezianos desfeitos, um a um, pela passagem do nosso Casanova, Deus resolveu pôr fim à brincadeira, enviando-lhe uma das suas santas virgens para o converter. O resultado, como não podia deixar de ser, foi o oposto; e quando a santa deixou de o ser, porque em matéria de virgindade nem é bom falar, a punição alargou-se a ela, tendo sido convertida numa gata. Trata-se, como já adivinhastes, da própria Marinella; e ao ver o resultado desta incumbência, em que o feitiço se voltou contra o feiticeiro, ou melhor, em que o pau se virou contra a vassoura que devia limpar a sujidade da criatura, transformando-a numa bela esfregona, Deus condenou-os a não sentirem qualquer resquício de emoção sensual senão quando bebessem borras de Porto o que, na época, era praticamente condená-los à impotência, dado que as naus carregadas de Porto não conseguiam passar o cerco que os Turcos tinham posto à cidade, apresando todo o carregamento que se aproximasse.
Foi então que Giacomo descobriu que o único possuidor de umna cave de Porto era eu, e que só entrando ao meu serviço conseguiria obter as preciosas borras, que o libertariam da sua incapacidade para gozar das doces prendas de Marinella. Logo entrámos naquela situação que já conheceis, e que não preciso de repetir; mas o que não era claro para mim era o motivo porque, depois de tudo aquilo, tive de ir parar ao Inferno.
- É simples, caro Marquês. Voltei a falar com Deus; e Ele disse-me que a única maneira de eu recuperar o meu dom genético seria trocar de lugar contigo, e transformar-te na punição eterna dessa Marinella que Ele ficou a aborrecer do fundo da sua divindade.
Como são cruéis os divinos desígnios, pensei; mas logo agradecendo, do fundo da alma, a Casanova pelo seu telefonema, que dava sinal de que ele se arrependera do seu negócio e quisera restituir-me à humanidade.
- Sim, caro Marquês, também eu passei já por esse salão; mas quando lá estive, a dança era diferente. A orquestra tocava o minuete, e regularmente os pares trocavam entre si, pelo que passei alguns anos nesse Inferno a mudar de par, a cada minuto; e como não podia resistir, de cada vez que trocava dava-se esse inevitável encontro entre homem e mulher, no mais íntimo da sua natureza, sobretudo porque, já então, tal como quando tu lá entraste com Marinella, a mulher se encontrava despojada de todo o adereço, o que facilitava a nossa relação. Lembro-me que estive lá dez anos; e a trocar de par minuto a minuto, faz as contas para descobrir de quantas noivas em meio minuto fiz minhas mulheres nos trinta segundos seguintes!
Como deveis imaginar, a minha cabeça começou a fazer as contas, mas ainda não parou.

Fuga

Repetia o Diabo «...amor de mi juventud...» pela milésima vez, e repetia-me Marinella ao ouvido «...que non se olvida..» no seu miado inconfundível de gata com cio, quando o meu telemóvel tocou. Confesso que me esquecera completamente de o desligar, apesar do aviso que fora dado logo à entrada: «É favor desligar todos os instrumentos electrónicos, em particular telemóveis, no Inferno»; no entanto, ninguém pareceu dar pelo toque. Levei a mão ao bolso e atendi:
- Patrão, aqui fala Giacomo.
Reconheci a voz do meu criado, que despedira tão injustamente, embora agora me arrependesse de não lhe ter dado dois pontapés no traseiro, para o recompensar pelas provas a que a sua imprevidência me arrastou; mas, apesar do meu silêncio, ele continuou:
- Senhor patrão, sei onde se encontra, e sei que a culpa é minha. Por isso vou tentar libertá-lo; dentro de uns instantes, irei desligar os fusíveis do Inferno. Peço-lhe que fixe o lugar em que a porta se encontra e, logo que as luzes se apagarem, corra para lá, empurre-a, aproveitando o mecanismo eléctrico que a encerra estar desligado, e fuja para a praça.
Confesso, muito sinceramente, que durante uns segundos pensei se deveria executar esta instrução. Com efeito, estava a gostar deste inferno; e já me habituara à voz de Marinella que, ao meu ouvido, continuava a repetir: «...amor de mi juventud...» Porém, assim que as luzes se apagaram, e o diabo se calou no palco, o meu reflexo imediato foi seguir o conselho de Giacomo e corri para a porta do inferno, empurrei-a, dei comigo no átrio e, voltando a empurrar o último portão, fugi para a praça onde os soldados do Doge me esperavam para me prender.
Ah, Giacomo, traidor, compreendo agora que o teu telefonema não passou de uma vingança para me castigar por te ter despedido e, mais do que isso, por te ter privado de Marinella! Eu próprio, enquanto era arrastado aos empurrões para o cárcere, começava a sentir saudades do seu abraço e, sobretudo, da sua voz melodiosa, repetindo felinamente por entre os meus cabelos:
«..amor de mi juventud
que non se olvida...»
Fechadas as portas do cárcere lúgubre em que os esbirros da república me enfiaram, comecei a ter tempo para pensar na minha vida. Comecei por ouvir o silêncio do subterrâneo, só interrompido a breves espaços pelo guinchar dos ratos que, esfomeados, tinham sentido a minha presença. Depois, já habituado à obscuridade, entrevi uma figura recostada a escassos centímetros de mim; de resto, não havia outra hipótese senão ela estar a escassos centímetros, dado que a largura da cela não permitia mais do que esta forçada intimidade.
O homem tinha boa figura, feições nobres, e um ar sarcástico ao canto da boca. Foi o que bastou para o saudar:
- Salve, amigo Casanova. Quem diria que nos iríamos encontrar neste fim do mundo?

quinta-feira, agosto 11, 2005

Baile

Comecei a ouvir gritos na praça: os soldados do Doge saíam do quartel, e corriam para nos apanhar. Marinella entrava na grande porta do palácio, como se nada a afectasse; e eu, perante o risco de cair nas mãos da soldadesca, que não deixaria de me fazer em pedaços para vingar o que sucedera aos inquisidores, segui-a, e fechei a porta. Ela atravessou o átrio deserto e, voltando-se para mim, disse-me:
- Estás preparado?
Entre uma mulher-gato e a tropa veneziana, não hesitei:
- Sigo-te.
Empurrando uns grandes portões de ferro espelhado, Marinella fez-me entrar num salão maior do que o próprio recinto da Basílica de S. Pedro. Ao fundo, uma orquestra tocava; e todo o interior estava ocupado por pares que dançavam o tango. Os homens vestiam-se dos mais diversos trajes; todas as mulheres, porém, nuas como Marinella, tinham nos olhos o mesmo brilho felino. À boca de cena, um cantor gemia:
«Marion,
amor de mi juventud
que non se olvida...»
- Sabes agora quem sou, disse-me ela com um gemido de gata, Marion, mas todos me conhecem por Marinella.
E, agarrando-me, puxou-me para dançar, por entre a multidão. Passando pelos pares, pude ver os olhares desesperados dos homens, com pesadas olheiras de quem não dormia há séculos, e a pele branca e seca do ar abafado do salão.
- Já adivinhaste?, disse-me ela, estamos no Inferno, o verdadeiro, que não tem nada a ver com aquilo que o Dante descreveu. O Inferno, meu amor, é um gigantesco salão de baile, onde iremos dançar este tango até ao fim dos tempos.
E começou a dizer-me aos ouvidos:
«...amor de mi juventud
que no se olvida...»
A última coisa que eu esperava é que um cálice de Porto me precipitasse no Inferno. Ainda por cima eu, que sempre preferira whisky ou cognac a estas bebidas leves... Mas Marinella voltou a interromper-me:
- A música é sempre a mesma, por isso tens toda a eternidade para decorar esta letra. Mas o melhor é poupares-te: podes perder um século para cada verso, e depois voltar ao princípio. Repete comigo: «amor de mi juventud...»
- Marion, disse-lhe, como é que se pode sair daqui?
- Quem entra não tem qualquer hipótese de fuga. O cantor é o próprio Lúcifer; e como podes ouvir, tem uma voz de tango que te irá arrastar ao longo deste salão, dando-te tempo para descobrir todos estes rostos que por aqui circulam. Olha, ali, Napoleão e Josefina, ; e, mais além, os Reis católicos; e logo aqui, enroscados como molas, dois dos Bórgias, não os ouves? «Amor de mi juventud...»
Queria libertar-me do seu abraço, mas ela reclinava-se para trás, e voltava a endireitar-se, com uma volta brusca, fazendo de mim um cabo de vassoura.
Assim, o tempo foi passando.

Auto-de-fé

Entrei no Harry's coffee para tomar um martini e um capuccino, na mesa do canto, onde o Hemingway costumava escrever as suas reportagens de guerra. Lembro-me que adormeci em cima da mesa; e o patrão veio ter comigo, para me acordar:
- Não pode dormir aqui, já o Ernest tinha essa mania e era eu que me vinha sentar com ele, para que me contasse as suas histórias. Mas não quero que me conte coisa nenhuma; queria era que me libertasse o lugar para os turistas, que vão desembarcar no vaporetto das nove, e querem todos sentar-se a esta mesa para serem fotografados em pose de Hemingway.
Confesso que não há nada que mais me irrite do que ver estes venezianos com ar de donos de Veneza, quando a cidade é muito mais minha do que deles.
- Ouça, respondi, o meu tetravô foi o último doge de Veneza, e é em nome dele que o esmurro se não me deixar em paz.
O homem, no entanto, não desistiu:
- Sei o que quer, e posso satisfazê-lo.
- Não, meu caro, não preciso das suas ofertas.
- E se for um gato?
Hesitei. Ele, afinal, sabia mais do que eu podia imaginar. Levantei-me, agarrando-o pela gola do casaco:
- Mostre-me o bicho.
Pegando no cesto que tinha escondido atrás do balcão, o patife pôs-me nas mãos a minha Marinella, completamente enroscada. Pus-lhe uma nota nas mãos, e saí para apanhar a minha gôndola, que me levou de volta ao hotel. Para minha surpresa, porém, começou a cair uma névoa espessa sobre os canais, e o gondoleiro começou a andar às voltas, sem dar com o caminho. Empurrei-o para fora do barco, e mal o homem pôs o pé no cais logo a gôndola se afastou, como se fosse levada por uma corrente que eu próprio não conseguia dominar. Com tudo isto, não voltei a prestar atenção ao cesto do gato; e foi com uma imensa surpresa que, ao voltar-me para trás, vi que desaparecera, e quem ocupava o seu lugar era a minha Marinella, completamente adormecida no seu banco.
Como não podia fazer nada quanto ao rumo da gôndola, que aparentemente entrara na laguna e se dirigia para o Lido, sentei-me ao lado dela e acordei-a:
- Queres contar-me tudo?
Ela olhou-me com uma expressão de terror:
- Para onde me levas?
Tarde demais: a névoa levantara-se e estávamos rodeados por pequenas naus, com indivíduos patibulares a tirarem-nos de dentro da gôndola. Em breves minutos, tínhamos à nossa volta um tribunal da Inquisição. Puseram-me de lado, e era sobre Marinella que incidiam todas as atenções. O Inquisidor-Mor, finalmente, decretou a sentença:
- Mais uma vez o Demónio felino tomou esta figura de feiticeira para esvaziar as nossas caves de Porto. E mais uma vez serás condenada á fogueira, para que sintas na carne o fogo do Inferno.
Marinella ria-se, como se a condenação não a afectasse. Logo os marinheiros nos desembarcaram numa praça deserta, e começaram a juntar à volta de uma coluna, à qual amarraram Marinella, que despojaram das suas roupas, pesados troncos de carvalho seco. Lida de novo a sentença, logo atearam fogo à madeira. Deu-se, então, um curioso fenómeno: em vez de ser Marinella a arder, eram todos os homens à nossa volta que começaram a inflamar-se, como pedaços de estopa, dando gritos lancinantes à medida que o lume os consumia. Marinella, soltando-se da coluna, veio ter comigo, e empurrou-me para dentro do mais sumptuoso palácio daquela praça. Não perdera tempo a vestir-se; e eu seguia atrás de um corpo de Vénus, como se não tivesse alternativa.

quarta-feira, agosto 10, 2005

Inundação

Esvaziado o cálice, Marinella como que se transfigurou. Os seus olhos tornaram-se dois luzentes faróis, cuja luz me penetrou até ao fundo do meu espírito; e percebi que não mais poderia pretender ser para com ela alguma coisa outra do que um simples escravo, cujos mais recônditos espaços da alma ela conhecia como à palma das suas mãos. Perdidos os segredos, restava-me ensiná-la a conduzir-me pelos caminhos do Paraíso, e isso eu poderia fazê-lo muito bem dado que nenhum paraíso me é estranho. Quando lhe propus isso, logo ela se enfureceu, como se a tivesse ofendido:
- O quê? O Paraíso? Sem ter passado pelo inferno, nem pelo purgatório?
Compreendi que Marinella não era tão inocente como eu pensara; e logo lhe pedi que me precipitasse num dos círculos infernais, à sua escolha.
- Sim, disse-me ela, escolho o círculo das tuas trinta virgens; esse em que elas estão reclusas, pisando para toda a eternidade as uvas que te dão tanto prazer, quando o seu sumo te chega à boca.
- Levar-te-ei, desde que não me faças perguntas sobre o local onde ele se situa. Não quero ensinar aos meus irmãos o caminho do inferno na terra, que é esse país onde se situa o lagar que tu queres conhecer.
Marinella riu-se, como se não me tivesse ouvido, enquanto chegava ao fim da garrafa que eu lhe abrira; e foi então que as coisas se sucederam a uma velocidade inesperada. Embora tivesse escolhido uma das melhores garrafas, ainda havia no seu fundo um resto de borra; e o efeito que esse depósito produzira no gato, multiplicou-se em Marinella, fazendo com que ela se atirasse a mim, estremecendo como um vulcão, e abrasando-me no seu furor eruptivo, de tal modo que quase fiquei submerso em lava, que corria de mim para o chão, abrindo sulcos de onde subiam os mais insólitos fumos, num colorido que me fez abrir todas as portas do sonho.
Para evitar que o meu hotel tremesse mais ainda do que o Palazzo onde ela vivera, deitei-a no sofá, e apertei-a com toda a força que pude encontrar: por algum tempo, pareceu-me que ela sossegara; mas logo comecei a sentir que a sua pele ganhara uma consistência estranha, e as minhas mãos, em vez de pele, descobriam uma espécie de sedoso tecido que não conseguia ver a que é que correspondia devido à obscuridade em que nos rodeava. De súbito, Marinella soltou um imenso miado, e as suas garras feriram-me em longos arranhões, fazendo com que a atirasse para longe de mim e, enquanto ela caía no fulvo tapete persa que eu trouxera de Ispahan, percebesse que Marinella e aquele gato que o meu criado alimentava com o meu vinho eram uma e a mesma criatura.
Como é isto possível, perguntar-me-ão? Apaixonar-se um ser racional por uma gata, que dá pelo nome de Marinella, e lambe como insaciável harpia pratos de Porto?
Claro que as razões do amor não são universais, como eu descobrira numa das minhas noites de insónia; e ao ver Marinella esgueirar-se pela varanda, e subir para o telhado do hotel, não hesitei um instante, seguindo o caminho que a vira tomar. Andei toda essa noite pelos telhados de Veneza, agarrando em cada gato que via para fixar nos dele os meus olhos, esperando reconhecer o mesmo brilho que encontrara no olhar de Marinella: mas nenhum me lançou aos ouvidos o miado lancinante que me atravessou até aos limites da minha existência; ne acabei de madrugada na praça de S. Marcos, onde a laguna espumava com a fúria que os elementos dedicam às construções humanas, sobretudo as mais belas.
- Podes inundar esta cidade!, gritei ao oceano; e dos seus destroços emergirá Marinella, nadando em busca de auxílio, para que eu a recolha na minha jangada.
Mas a água amansou, como se compreendesse o horror a que eu a desafiava; e pouco a pouco a praça foi-se enchendo de gente, que passava por mim como se nem eu nem Marinella alguma vez tivéssemos existido.

A prova do Porto

Marinella entrou ao meu serviço no dia seguinte. Não lhe perguntei quem era, de onde vinha, nem o que fazia naquele Palazzo, de que ela ocupava um soturno desvão, sob o telhado, que eu via da minha varanda. Ela também não hesitou em deixar tudo para se vir instalar no meu hotel, que eu alugava por inteiro, para não ter de me incomodar com vizinhanças incómodas, sobretudo a desses intelectuais de toda a Europa para quem Veneza é o supra-sumo, e que depois falam do Lido como se fosse aí que tivessem bebido o leite da infância. Eu, de Veneza, conheço o meu quarto de hotel com vista para o canal e para o quarto de Marinella, e chega.
Quando ela entrou no meu quarto, para receber ordens, pude apreciá-la convenientemente. Não vou referir o decote veneziano, que mal cobria os dois montes brancos, tão altos que só um experimentado alpinista conseguiria atingir os seus celestes cumes; nem dos cabelos castanhos que se lhe enrolavam ao pescoço, e desciam pelo colo, como essas torrentes impetuosas nascidas do degelo primaveril, que inundavam os vales férteis; aqueles, porém, não eram submergidos completamente, antes ficava à vista o suficiente, de entre ombros, braços e peito, para que pudéssemos imaginar uma aparição de Godiva na sua cavalgada triunfal sobre os inimigos do feminino.
Mandei-a executar as operações habituais que uma serviçal tem a seu cuidado, explicando com a maior minúcia cada uma das partes que me poderiam satisfazer, desde o pedaço de mesa que deveria rebrilhar como um espelho, até ao aprumo dos cortinados, que têm de cair no tapete como copas de arbustos aparados pelo mais exigente dos jardineiros. A tudo ela se prestou, como dócil veneziana; e no fim perguntou-me se eu estava satisfeito, ao que lhe disse que poderia ir, mas não sem antes partilharmos um cálice de Porto, para que ela pudesse repousar da sua manhã exaustiva. Sentando-se no sofá, Marinella perguntou-me de onde vinha esse Porto; e logo lhe expliquei tudo:
- Cultivo, numa longínqua encosta de um país cujo nome omito, porque ninguém o conhece para além de mim, uma vinha que produz a mais perfeita das castas que alguma vez o homem imaginou que poderia existir. Mas a juntar-se a isso, as uvas são pisadas pelos pés de trinta virgens num lagar que está fechado à entrada de qualquer ser masculino; e o mosto assim amassado é escorrido para um tonel de centenário carvalho, que só se volta a abrir ao fim de dez anos. O produto é despejado para estas garrafas que podes ver à minha volta, e que sou o único a consumir; por isso, o que vais beber, bebê-lo-ás pela primeira vez, descobrindo um sabor que nenhum outro humano, para além d emim, alguma vez provou.
Marinella não pareceu ficar impressionada com esta minha observação; e logo levou à boca o cálice, esvaziando-o de um trago.
- Não faças isso, ainda lhe disse!
Mas atribuí o gesto à natural sede dos serviçais, que querem logo esgotar o que lhes é dado, receando que não mais venham a ter acesso a estas maravilhas que só aos senhores são consentidas.
Como fui ingénuo!

Verão em Veneza

Enquanto o verão passava, fui bebendo umas garrafas de Porto, à noite, enquanto pensava em como me poderia ver livre da imagem de Emily. Punha as garrafas vazias à porta, e o criado todas as manhãs enchia um cesto de ir às compras com elas; eu espreitava-o da varanda, e via que ele atravessava a ponte sobre o canal que corria debaixo do meu hotel, entrava no Palazzo em frente, e reaparecia com o cesto num quarto exactamente em frente do meu, onde era recebido por uma gorda veneziana que o abraçava, antes de pegar na cesta e despejar os restos das garrafas para um jarro que, no fim, quase ficava cheio. Com efeito, eu não bebia nunca as garrafas até ao fim, para evitar o depósito que este maldito Porto traz sempre no fundo; e era esse resto que os dois malandros bebiam, ficando depois muito alegres, o suficiente para se atirarem para cima da cama, desaparecendo da minha vista, e abalarem o prédio como se por ali estivesse a suceder um tremor de terra. Durante esses paroxismos, a água do canal em frente também se agitava; e não foi uma nem duas vezes que os gondoleiros tiveram de se encostar às pedras da ponte, para não se afundarem. Comecei então a pensar nos motivos que desencadeariam tais acessos de furor, sobretudo porque não via no meu criado nenhum entusiasmo particular em relação às coisas da carne, nem a sua amiga tinha qualidades de beleza que a recomendassem; e a única razão que me ocorreu, depois de aturadas reflexões tanto científicas como filosóficas, foi tão simples como a descoberta da pólvora: o segredo estava nas borras do Porto! Com efeito, se a mim o líquido divino nada produzia de especial, também não havia razão para que fizesse ao criado o que não me fazia; ora a diferença estava, precisamente, nesse produto que eles ingeriam, e eu não. «Ouve cá, Giacomo», disse-lhe eu. «Posso ir contigo, quando fores ao mercado, e ver um pouco dessa Veneza popular, que não é acessível aos aristocratas como eu, a não ser nas noites de Carnaval?» Giacomo tossiu, hesitou, e depois disse: «Senhor, podeis acompanhar-me, mas tenho de fazer um, pequeno desvio para despejar as garrafas vazias, antes de vos levar ao mercado veneziano.» Foi o que eu quis ouvir. «Vamos, então.» E lá saímos os dois, fazendo eu o caminho que Giacomo me ensinava, como se eu não soubesse de cor e salteado para onde ele ia. Quando entrámos no quarto do Palazzo, Marinella (era o seu nome) estava sentada na cama, à espera de um, ficando com um rubor sobressaltado quando nos viu aos dois. «Não te assustes», disse Giacomo. E logo começou a sua operação de esvaziar o que restava das garrafas, como era seu hábito. «Podes agora chamar o teu gatinho, para ele beber estas papinhas de Porto que lhe fazem tão bem ao pêlo.» E logo Marinella tirou de baixo da cama um gordo siamês, que se precipitou sobre o prato de Porto, e o lambeu até à última gota. Terminada a refeição, começou o gato a tremer de satisfação, ronronando com tanta força que as vibrações fizeram abanar as molas da cama, e depois as madeiras do chão, e depois as paredes do edifício, provocando esse tremor que, ó divino Júpiter!, eu atribuíra a causas bem menos sobrenaturais do que estas! Finalmente, dando um pontapé no estúpido gato, que logo fugiu pela lucerna do quarto, desaparecendo para sempre nos telhados de Veneza, despedi o meu criado, e empreguei Marinella em seu lugar, sabendo que desta vez as borras do Porto teriam um uso muito mais útil do que aquele que lhe era dado com tão deslavado felino.

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