quarta-feira, julho 13, 2005

O monstro

Se fosse apenas o luar a entrar pela janela, estaríamos em pleno delírio romântico. Eu podia recitar a Emília: «Ó lua que vais tão alta», e ela, com a cabeça descaída no meu ombro, diria de cor «The nightingale» do Keats, que eu analisaria, verso a verso, até a madrugada romper pelos pedaços de chita que sobrariam da nossa noite. Infelizmente, quem começou por entrar pela janela foi o Heathcliff; mas a este foi fácil corrê-lo porque voltei a atirar o gato ao tecto, o gato voltou a cair tão furioso como o cão dos Baskerville, e o malandro voltou a sair por onde entrou, mas com umas mordidelas no traseiro, porque desta vez o cão vinha com os dentes bem afiados. Estava eu a recompor Emília do traumatismo, falando-lhe da teoria lacaniana do desejo, que se reduz a meia dúzia de palavras, quando ela me disse:
- Não queres fechar a janela?
Com efeito, eu esquecera-me de dar a volta ao trinco, o que naquele contexto seria uma medida mais do que acertada. Levantei-me, fui à janela, e espreitei para o pântano, que o luar iluminava como se fosse dia. Os grandes choupos da planície inglesa debruçavam sobre ele os seus ramos sedentos, e de tal modo a cena era bela que eu próprio comecei a ficar cheio de sede, esvaziando meia garrafa de Porto enquanto Emília esperava por mim, no seu maple de veludo desbotado. Foi então que comecei a ver uma agitação nas águas; e uma cabeça de uma serpente monstruosa emergiu do charco, derrubando a primeira fila de choupos.
- Emília, onde estamos?
- Tens razão, disse-me ela, devia ter-te avisado. O monstro do Loch Ness veio parar a este lago há uns anos. Foi a Ann Radcliffe que, depois de umas férias na Escócia, me trouxe um ovo de presente, dizendo que era de pato; e atirei-o ao pântano para que se criasse ali, sem saber o que iria acontecer.
- E agora?
- Tens de ir acalmar a serpente.
Foi o que fiz. Desci até à margem, onde ela continuava a sacudir a cauda, e comecei a falar-lhe da teoria da evolução do Darwin. Foi remédio santo, proque logo o bicho adormeceu. O pior, no entanto, estava para acontecer. Quando voltei a entrar em casa, Emília estava com outra pessoa no maple. Era Augusta!
Sentei-me em frente delas, e percebi que estava a mais. Mas enquanto olhava para a janela, respeitando a conversa a que se entregavam, sobretudo Augusta que contava a Emília a sua vida em Veneza com Lord Byron, atirando aos gondoleiros que passavam em frente do palácio com volumes encadernados da «Enciclopédia Britânica», o que ainda provocou alguns naufrágios. Julgo que adormeci; mas quando acordei estava sozinho. Fui à cozinha, fiz um chá, e entrei nas névoas que entretanto tinham descido sobre o campo, para reencontrar a estrada que me levaria de volta ao meu hotel.

Cena romântica

Ontem, fui visitar a Emília ao monte dos vendavais. Recebeu-me à porta, com um vestido de chita e um laço amarelo a prender-lhe os cabelos. Debaixo do braço, tinha as obras completas do Shakespeare mas avisou-me logo que era só para matar os mosquitos. «O mais prático para esse efeito é o Hamlet, disse-lhe, porque enquanto o mosquito pensa se é ou não é, zás, e fica reduzido a pó». Ela concordou comigo: «Só tenho pena é da Ofélia, coitada. Tem o vestido cheio de manchas dos mosquitos que tenho morto. Mas não há nada fazer: com este calor, o pântano está cheio deles, e o vento traz legiões deles até este monte.» Olhei para a fachada da casa e não havia um mosquiteiro à vista nas janelas. «Sei o que está a pensar, disse-me. O problema é que, se ponho a protecção, a mão do Heathcliff não me pode vir bater à janela, logo à noite.»
- E se eu ficar aqui contigo?
- Então posso pô-lo. Se ele te encontra comigo, mata-me. Com o mosquiteiro, a mão dele desvanecer-se-á nas brumas do pântano.
Olhei para ela, para ver se estava a falar a sério. E estava. Acreditava em espectros, e quando nos sentámos no maple de veludo desbotado, que vinha do tempo do irmão, os seus lábios estavam mais pálidos.
- Ainda ontem ele me entrou pela casa dentro. Eu estava quase a dormir, a meio do «D. João» do Lord Byron, e ele tirou-me o livro da mão e começou a fazer uma cena de ciúmes por causa do Byron. Imagine: do Byron, que só gostava da Augusta! «Mas tu és parecida com ela», gritava-me ele. E mandava pelo ar tudo o que apanhava à mão, a começar pelo meu gato que, quando bateu no tecto, se transformou - sabe em quem? - no cão dos Baskerville! E mal caiu no chão da sala, atirou-se a ele. O que vale é que se desfez, mal o podengo lhe tocou no braço. É a vantagem dos fantasmas: podem desaparecer quando querem.
- E se o mandarmos voltar? Tem uma mesa pé-de-galo?
Emília chegou-se a mim:
- Para quê? Acha que vamos precisar de companhia?
A noite já estava a cair sobre os pântanos. Não foi preciso, sequer, acender a lamparina - bastou-nos o luar que entrava pela janela.

Eleições

Querida Corina
estou em Roma, onde em breve haverá eleições. Por isso fui auorizado a trocar o Danúbio pelo Tibre, e tenho tomado banho nas suas águas enquanto me vou habituando ao Capitólio. Se for eleito senador, começarei logo com um programa a que chamo Falácia Aberta: irei aos bairros populares levar a boa palavra, tentando espalhar a confusão nas cabeças dos meus concidadãos. Como, de qualquer modo, eles não percebem nada do que os senadores dizem, a minha proposta é levar-lhes logo um discurso completamente esotérico. O que é importante é transmitir-lhes a perfeição do discurso e não o discurso da perfeição. Já comecei a fazer campanha neste sentido. E posso dizer-te que sou aplaudido com vivas, o que me surpreende, mas ao mesmo tempo me anima, porque se for eleito não mais voltarei a essas terras, e ficarei livre de te ouvir expondo aos meus ouvidos as tuas belas teorias sobre a vantagem de teres recuperado a fala. Agora, ando a recolher os gatos de Roma. Tenho já uns quarenta no meu quintal; e dou-lhes o leite das cabras palatinas, que lhes sobe directamente à cabeça e os faz miar em acordeão. Não tentes compreender o mistério dos gatos, porque eu não também não faço qualquer esforço por tentar compreender o teu mistério.
Saúde
Públio

terça-feira, julho 12, 2005

Intervalo

Regresso quando o poema se interrompe; e se nada me obriga
a recomeçar, também nada me obriga a parar. Há uma dificuldade
em saber o que ficou pelo meio; quantas vidas poderiam ter
o seu lugar, e que outras ainda viriam obrigar essas a separarem-se de si próprias, quando o passado tem de dar lugar ao presente, e este vai buscar ao mundo a sua razão de ser, a que outros ainda chamam o seu absurdo. Mas não é aqui que o vento sopra, nem nenhumas águas
invadem as margens com a sua fúria. Pelo contrário, há em todo o lado a calmaria que precede o temporal; e neste saberemos distinguir entre
o prelúdio que devasta as casas e os campos e a continuação, que entra
pelos espíritos e lhes rouba o equilíbrio da lógica, obrigando-os
a cair como grandes árvores arrancadas pelas raízes. O problema,
no entanto, está na análise que o silvicultor irá fazer, e que o fará
descobrir que as raízes não existem, como se a terra as tivesse
comido. O que ele não sabe é que esta terra devora tudo, e
aquilo que resiste não está para durar muito, a não ser que alguém
se sente no cais, a olhar a barra, e esperando pelo navio que
há-de chegar para o recolher. O que ele não sabe é que a sua
profissão é ser náufrago; e se quiser dar à costa, pondo o pé
em terra firme, logo os habitantes do litoral o hão-de empurrar para
os recifes, rindo-se quando o virem acenar, em busca de auxílio.

domingo, julho 03, 2005

Pseudo-Narciso

Ao ver a minha imagem nos teus olhos, um
sumo de egoísmo escorre-me da boca, sabendo que ao beijar-te
irei beber essa parte de mim. Não ouças o que te digo se não
quiseres ouvir-me; mas saberás tu o que perdes? Em cada
palavra minha terás esse imenso planalto de onde se vê o
mundo; e só se subires até ele poderás dominar o universo
que só eu te poderei oferecer. Não te iludas; de cada vez
que nos encontramos, por muito que fales, a única coisa
que me entra pelos ouvidos é o que eu tenho para te dizer, e
está dito por entre as tuas palavras. Mas conseguirás tu
distinguir, de entre o que dizes, o que é teu daquilo
que me pertence? Podes dizer o que quiseres; a verdade
é que andamos às voltas do que nos dizemos, sem nenhum
de nós conseguir distinguir o que é do outro. Nesta
confusão, o melhor é trocarmos de língua: para que eu fale
pela tua boca, e tu pela minha. Ouviremos falar-nos de dentro
do outro, e talvez assim seja mais fácil descobrir uma lógica
para o que temos para nos confessar. Começa, então; a não ser
que sejas tu, já, a falar através de mim. E eu? Deixar-me-ás tu
abrir a boca? Ou será que, agora, vais falar por ti e por
mim? Oh, por que não permaneceste muda, Corina,
deixando-me ficar na ilusão de que o paraíso em terra
em possível? Agora sei o que é a vozearia das deusas,
quando deixam o Olimpo, e se misturam com os mortais,
contando-lhes sem descanso a eternidade das colinas
sublimes. Ao menos, fosse isso que tu tivesses para me contar;
mas não. Falas-me de coelhos, de tâmaras e de espelhos,
e eu que descubra o caminho para os teus olhos, onde
sempre me ofereces um instante de repouso quando, ao
ver o reflexo do meu rosto, vejo que sou eu estou a falar,
dizendo tudo o que sai da tua boca!

A fase do espelho

Querida Fílis
O melhor sítio para travar esses combates de que me falas é uma pastelaria, com uma decoração de madeira e espelhos. Foi aí que me encontrei com Públio, a última vez que nos vimos. Ele pediu um sumo de ambrósia, e enquanto o bebia contei-lhe a minha vida. Não, não te iludas, não foi a minha vida autêntica, só lhe contei aquilo que ele queria ouvir. Disse-lhe que nasci na Ásia Menor, onde uns mercadores de tâmaras me educaram na arte de enfiar os frutos em cordões que, nas grandes festas em honra de Diana, as mulheres penduravam ao pescoço, atraindo as moscas que voavam à sua volta como grandes colares negros. Daí trouxeram-me para o delta do Danúbio, onde viajei de canoa, perdendo-me nos canais infestados por mosquitos e aves, e comendo peixe vivo. Quando Públio me encontrou, eu criava coelhos, amestrando-os a tirar a sorte, e vivia de ler o destino aos viajantes que vinham da Mongólia em direcção às costas do Mediterrâneo.
Enquanto eu contava isto, Públio acabou o sumo e começou a olhar para o espelho da frente, penteando o cabelo, numa espécie de tique que nunca lhe conhecera. Foi dessa vez que descobri o seu narcisismo; e reparei que ele costumava olhar-me nos olhos, não para chegar à essência do meu espírito, mas apenas para ver o seu reflexo, e saber se tinha a coroa de louros bem pousada na cabeça. Foi por isso que comecei a usar óculos escuros; mas nem assim me livrei da sua vaidade, pois o vidro servia-lhe também de pequeno espelho onde ele ia sempre encontrar uma imagem de si.
É por isso, minha querida, que não deves continuar a visitar esse prisioneiro que diz que te ama, pois o que ele pretende não é a tua presença mas apenas esse breve lampejo de espelho que os teus olhos lhe oferecem.
Vale
Corina

sábado, julho 02, 2005

Esquerdismo

- Todo o segredo disto está no modo como podemos dominar a nossa língua, transformando-a em simples enunciados que a retórica vai compondo até chegar ao seu objectivo. Como sabes, não há qualquer diferença entre a arte da linguagem e a arte da guerra. Vamos avançando as palavras, como se fossem peões, e o campo vai ficando ocupado até todos os inimigos se calarem.
- Sabia que me ias dizer isto; e é por isso que me calo. Fiquei completamente dominado pelas tuas palavras.
- Mas não vejo sangue. E numa batalha tem de haver sangue. Ele devia escorrer-te da boca, onde acabei de tomar o último reduto. E a partir daí vou conquistar o resto, a não ser que oponhas alguma resistência.
- Só se for para te animar. Todos os conquistadores precisam de ser estimulados. Sei que o caminho é fácil, mas não quero que o sintas como demasiado fácil.
- Então, continuemos o combate.

sexta-feira, julho 01, 2005

Sova

Meu caro
Receio que tenhas perdido de vez essa Marquesa, que eu conheci bem quando me calhou o meu turno de frequentar a Anunciada; e também tive por mestra essa freira de que me falas, e que tanta falta me tem feito nesta cela miserável, onde os seus sábios ensinamentos me ajudariam a passar estes meses tão duros. A mim, porém, não era o Paraíso que ela me prometia; mais terreamente, as nossas práticas circunscreviam-se à matéria pura, e desde essa data aprendi a tocar nos objectos com muito mais arte e discrição, lembrando-me da sua mestria. Claro que, depois de horas de exercício, tínhamos chegado ao fim do catecismo; mas pouco importava isso, porque no dia seguinte tínhamos esquecido tudo, e era preciso voltar a desfolhar com minúcia esse livro tão apetitoso com a fé, a esperança e a caridade que só os verdadeiros crentes conhecem.
Quanto à Marquesa, não te iludas: se tivesses ido a essa casa pouco antes das cinco da tarde, tê-la-ias visto sair, com toda a plenitude da sua aparência; é a única maneira de a reencontrarmos. Mas se não fizeste isso, e foste antes, ou depois, da hora fatídica, tê-la-ás perdido para sempre, porque ela serve-se desse expediente para ver se o homem com quem esteve, na véspera, é um artista do romance. Ao faltares às cinco horas, ela percebeu que és um simples amador, e o que te espera agora é o desprezo mais completo.
Posso dizer-te que a culpa é do Valéry - e se por acaso fores a França, leva uma bengala para o corrigires, porque é graças à sua frase que tu a perdeste.
Saúde
Luís

Encontro nocturno

Caro Luís
nem imaginas o que se tem passado por cá, desde a última vez em que te escrevi. Uma noite, ao sair do palácio da Anunciada onde tenho uma freira que me vai ilustrando nas artes da nossa grande religião, através de exercícios sábios de catecismo iluminado por uma vela que nos deixa ver o suficiente do paraíso para adivinharmos o que nos espera, ouvi chamar por mim por trás de uma esquina. Como sei o que é Lisboa, nestas noites de verão em que todos os cultores do fandango mortal andam à solta, puxei da espada e atirei-me ao sujeito; mas ele ergueu os braços e saiu da sombra, dizendo chamar-se John e querer levar-me até uma Marquesa que, dizia ele, estava à minha espera. Lá o segui, suspeitando que seria um desses hereges luteranos que infestam o porto, sob a protecção dos canhões ingleses; e entrámos numa casa nas traseiras do paço, onde fui recebido por uma criatura divina, cujos olhos prometiam muito mais do que a antecâmara do Paraíso donde eu acabara de sair. Estendeu-me um punhal de lâmina lavrada a prata e disse-me:
- Amigo Pêro, promete-me que me matas se, depois do que te vou contar, não acreditares em mim.
Percebi que ali havia coisa estranha, e disse-lhe que a condição que punha era a retirada do infame John, que se tinha sentado num cadeirão à espera do que se iria passar.
- Ele é inofensivo, disse-me Vitória, porque não percebe uma palavra da nossa língua; mas farei o que me pedes.
E, com um gesto, despediu-o para os fundos da casa onde, em breve, ouvimos bater uma porta, significando que nos deixara completamente sós.
O que depois se passou não o posso contar, para não perturbar as tuas vigílias ansiosas. Sabe, apenas, que não tive de a matar; ela é que me matou com a sua voz macia, por onde passava o bater de todos os anjos do Paraíso; e a cada roçar de uma palavra eram penas que me sangravam de sentimentos, inundando a sala com esse líquido transparente em que ela se ia transformando em peixe carnívoro, a cuja boca eu pedia que me devorasse, até nada restar de mim.
E a verdade é que nada resta! Já não existo, meu Luís, desde que saí daquela casa e, no dia seguinte, ao regressar ao mesmo sítio, e bater à porta, me apareceu um servo que me disse que ali viviam apenas uns velhos, desde há uma dezena de anos, e não ouvira nunca falar de qualquer Marquesa.
O que hei-de fazer? Onde encontrá-la? Diz-me, depressa, antes que me atire ao Tejo.
Pêro Vaz

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