quinta-feira, junho 30, 2005

Revolução

Querida Vitória
Há, na verdade, muitos motivos para inquietação
em tudo aquilo que vivemos. O quarto do Hotel Castellano
encheu-se de sombras, quando o deixei; e
nos vidros do armário, onde o teu corpo se imprimiu,
uma mancha de espelho guarda o bâton dos teus lábios, que tantas
vezes beijei, batendo nesse vidro como se fosse um tapete!
Tudo nasceu da nossa conversa sobre o doce de pêssego, que as tuas
palavras me puseram na boca; e depois do doce veio o resto. Mas não quero
que te lembres, ainda hoje, das nossas tardes nesse quarto do Hotel
Castellano, nem te posso obrigar a saborear a memória do fruto que
já secou ao longo de tantos verões, e de tantos invernos, em que
não ouviste falar de mim. O que sei é que, enquanto te vestias para
sair do quarto, eu olhava pela janela, para o outro lado da rua, e via
as pessoas juntarem-se em volta das mesas, nas salas iluminadas
dos apartamentos de Burgos. Apetecia-me bater com as portas
das varandas, para que me ouvissem; mas eu não fazia parte
desse mundo, depois de fugir da minha festa de casamento, e só
tu me podias acolher com a tua boca pintada e os teus olhos de pálpebras
tingidas de um roxo de uva pisada. Lembras-te que as bebi, a essas
pálpebras que sabiam a álcool? E saí do quarto cambaleando, como ébria,
batendo nos criados como se fossem candeeiros, que iam caindo
uns a seguir aos outros, e apagando a luz do corredor,
até eu ficar às escuras no início das escadas para o rés-do-chão,
onde o noivo me esperava. Mas fugi para o outro lado do corredor, e
acabei a sair pelas traseiras para o meio dos operários, que
me esperavam com os panfletos que eu tive de ler em voz alta, para
que eles descobrissem a revolução pela minha voz. Acabámos todos em
doce de pêssego; e depois em latas de salsicha. É assim que as revoluções
acabam, devorando os seus filhos; e queria confessar-te que
o último operário fui eu que o comi, acompanhando o cachorro
com um lata de cerveja, que me ajudou a digeri-lo. Agora estou sozinha,
fabrico novos panfletos, leio-os em voz alta
na porta das traseiras, e ninguém me ouve.
O mundo é perfeito.

Salsichas

Ia eu já a meio da rua da Palha quando a voz de Vitória se fez ouvir, chamando-me:
- John, volta aqui!
E fui ter com ela, à porta do café. Meteu-me dentro do edifício, porque começara a chover, o que a obrigou a fazer mais um risco na sua agenda, e sentou-me em frente dela.
- Há uma coisa que não te contei.
Fiquei surpreendido com ela que, sendo uma Garnier-Flammarion, tinha todas as histórias com princípio, meio e fim, de acordo com as regras clássicas da narrativa. Porém, ela não me deu tempo para mais reflexões:
- Disse-te que o Franco mandou isolar a zona da fábrica. E devias ter-me perguntado: mas então, como é que o «melocotón» lá chegava, para ser transformado em «almibar»? O problema é que não chegava! E como a noiva tinha a obsessão da produtividade, mal acabou a matéria prima nos armazéns, reuniu o serralho e contou-lhes o que se passava. «A solução, disse ela, é sermos autosuficientes!» E assim foi: da produção de «melocotón en almibar» passaram ao fabrico de salsichas utilizando, como matéria prima, o próprio ingrediente humano, que era sorteado de entre a mão de obra, que assim se foi reduzindo progressivamente. As salsichas, porém, ganharam um sucesso tal, pelo seu sabor especial, que o próprio Franco as passou a consumir ao pequeno almoço. Sabendo dos problemas de mão de obra, ia enviando, às escondidas da sua Guardia Civil, novos operários que substituíam os que iam sendo transformados em salsicha. Foi, no entanto, a EFTA que pôs fim ao expediente, quando descobriu que começava a haver uma quebra na procura da salsicha de Frankfurt; e o seu ultimato a Franco fez com que o cerco à fábrica se reforçasse, o que acabou com a produção no dia em que a noiva enlatou o último operário.
Acabou aqui a sua história, com lágrimas que lhe começavam a cair pelo formoso rosto.
- E a noiva?
- Escreveu-me há dias. Mas não posso ainda revelar-te o conteúdo da carta.
Com os olhos cheios de lágrimas, já nem dava pela minha presença. Levantei-me e deixei-a, continuando o meu caminho pela rua da Palha.

Pêssegos

Voltei a encontrar Vitória uns anos mais tarde, de passagem por Angra do Heroísmo. Tornara-se mais Flammarion do que Garnier porque flanava, flamejava e bebia sumo de maracujá enquanto marcava na agenda os dias de chuva. Contei-lhe o que fizera depois da noite em que as deixei com os proletários; e ela, em troca, disse-me:
- Fomos apanhadas pela multidão, e levadas para uma fábrica de «melocotón en almibar». Com os nervos, fiquei uma pilha de livros, e isso valeu-me ser atirada para um canto onde fui pasto de alguns intelectuais operários que me devoraram até à última sílaba. A noiva, porém, tomou conta da situação; e em breve tinha à sua frente todos os operários, a quem ela discursou com toda a energia, sendo nomeada chefe de turno. Um mês depois, conseguira transformar a organização da fábrica, fazendo dos operários o seu serralho masculino, que ela dominava a chicote. A Guardia Civil não se importava porque não voltou a haver ali problemas de greve; pelo contrário, os operários cumpriam escrupulosamente a escala de serviço à noiva, e muitos até se ofereciam como voluntários, o que aumentou a produtividade do «melocotón en almibar» a um nível tal que começou a haver um excedente de oferta. Muitas vezes, vendo-a cansada, ofereci-me para a substituir; mas ela sabia que, nesses turnos que me cabiam, os operários saíam com os olhos cansados de leitura, e baixavam o ritmo de produção, obrigando-a a despedi-los. Para evitar problemas, o Franco mandou isolar a fábrica, e em breve as latas de «melocotón», sem saída possível para o exterior, começaram a cobrir o edifício. Receando o pior, fugi para Burgos; e só mais mais tarde soube que tinham todos ficado enlatados, e a zona proibida de acesso até à queda de Franco. Nessa altura, usaram as latas para fazer um viaduto metálico para peões sobre a auto-estrada, a que chamam «a passagem da noiva».
E lá a deixei, contando a chuva.

quarta-feira, junho 29, 2005

Leituras

Quando entrei no quarto do Hotel Castellano de Burgos com a minha amiga Vitória Garnier-Flammarion, ela pediu-me para me sentar no sofá junto da janela, depois de sacudir o pó do assento, o que fiz batendo-lhe com o jornal. Uma nuvem de poeira inundou o quarto, escondendo da minha vista Vitória que, do outro lado da cama, se olhava ao espelho do armário; e quando a nuvem assentou, o que vi à minha frente foi uma pilha de clássicos, desde o Ovídio às obras completas do Balzac.
- Não te assustes, disse-me a pilha, deixei de ser a Vitória para passar a ser a Garnier-Flammarion.
Levantei-me do sofá e fui junto dela, para lhe acariciar os ombros; mas o que encontrei foi um Zola por abrir e um «Macbeth», que me arranhou, o que me fez empurrar a pilha. Os livros caíram todos no chão; e quando assentaram, era Vitória que estava deitada, completamente nua.
- Como vês, sou um livro aberto.
Era demais! Não me apetecia ler, e deixei-a estendida, saindo para o corredor onde comecei a passear porque, à uma da manhã, não há nada para fazer em Burgos, sobretudo nessa época, em que a Guardia Civil patrulhava as ruas à procura de subversivos; e às três da manhã, depois de ter andado para trás e para a frente durante duas horas, comecei a reparar que o chão se começava a abrir debaixo de mim. Os meus passos tinham raspado a madeira, e deixavam à vista a sala de jantar, onde estava a ter lugar uma festa de casamento, embora toda a gente estivesse em silêncio, olhando para a noiva que segurava uma folha de papel onde tinha escrito:
«Não quero ir para o quarto».
Em frente dela, o noivo, completamente prostrado, segurava uma outra folha:
«Quero a anulação do casamento.»
O melhor seria salvar a situação, pelo que me pendurei na trave do tecto, agarrei a noiva pelos cabelos e puxei-a para o andar de cima, sem ninguém dar por nada porque, devido ao cansaço, todos dormiam. Quando fiquei com a noiva nos braços, ela sorriu-me:
«Obrigado, meu amor. Vamos para o quarto?«
Agora, eu estava com um duplo problema: tinha Vitória no chão, à espera que eu a desfolhasse; e apanhei com uma noiva, novinha em folha, para que consumasse o casamento que ela recusara ao noivo.
- Vou-te explicar, disse-me ela: já ouviste falar no «jus primae noctis»? Em Burgos estamos habituados a isso; mas como ninguém quer ofender o noivo, tivemos de arranjar esta cena para apanhar um forasteiro capaz de executar esta tradição.
Meti-a no quarto, e sentei-a na cama, para o que ela teve de pôr os pés em cima de Vitória, que continuava deitada no chão.
- A situação é complexa, disse-lhe. Vou precisar de me documentar para dar andamento a esta noite.
Comecei então a passar as folhas de Vitória, uma após outra, até ficar com os olhos vermelhos de tanto ler; e só no Pierre Loti consegui alguma informação útil.
- Vamos todos vestir-nos à turca, para podermos sair do impasse.
Vitória levantou-se, arrancou os cortinados e, com uma tesoura, fez um fato de sultão e dois vestidos mouriscos. Era já de madrugada; e saímos do hotel, juntando-nos à multidão de operários que se dirigiam para o trabalho, levando as suas lancheiras cheias de sopa de carne.
- Viva a Revolução! gritou Vitória, que por instantes se tornara «O Capital» do Marx.
- Viva a desfloração! gritou a noiva.
O proletariado, então, tomou conta delas, e deixou-me livre para seguir o meu caminho com a satisfação do dever cumprido.

Baptismo

Desde que foi à ópera Garnier, a Marquesa passou a chamar-se Vitória Garnier-Flammarion.

segunda-feira, junho 27, 2005

Uma noite na Ópera

Vou revelar quem era a Marquesa. Foi na Ópera Garnier, numa noite em que se tocava «O rapto do serralho». Ela entrou, com o tchador e as luvas negras, e os cabelos longos a correrem pelas costas abaixo, como as ondas do Pacífico contra a praia de Santa Barbara. Eram os baixos a bater o ritmo, e ela a subir a enorme escadaria, por entre um vapor que nascia do inverno parisiense, até que parou à minha frente, como um navio que dá à costa no temporal. Como não podia deixar de ser, o meu instinto de contrabandista, habituado às expedições do Jamaica Inn, levou-me a saquear a presa; e acabámos numa mesa do foyer, em frente de duas grandes taças de champagne, que ela esvaziava como uma esponja recolhida nos corais indonésios.
- Não sei por que é que gostam de ópera! E mais ainda: por que é que gostam do Mozart?
Mas ela não cedeu à minha provocação; queria era dizer-me que não era por acaso que se vestira à maneira turca. Com a cara inflamada pelo calor e pelo champagne, explicou-me que o sultão comera todas as suas duzentas companheiras, até chegar a sua vez; e que ela conseguira fugir com o apoio de um eunuco vegetariano, que mal chegou a Paris lhe fugiu para se tornar um átomo na vida nocturna da capital do mundo.
Olhei para a sua cabeça, que rebrilhava com a luz; e admirei as jóias que lhe envolviam o pescoço, pensando não sei porquê numa casa de penhores.
- Não tem fome?
Disse-lhe que não, para não a assustar, não fosse ela confundir-me com o sultão; de qualquer modo, dir-lhe-ia: depois do que me contou, parca refeição seria ela para quem imaginava o que seria comer duzentas esposas. A música subia de tom, e começava a bater-nos duramente no espírito. Do fundo da sala, alguém gritou:
- O que é preciso é disciplina!
Não sabia se lhe havia de responder, se puxar da minha pistola e dar-lhe um tiro na cabeça; mas o homem aproximou-se com um diploma e estendeu-o à minha amiga:
- Faço-a Marquesa da Praia da Vitória.
Reconheci nos seus traços austeros o Alexandre Herculano; e ainda estive para me apresentar como o monge de Cister, se ele não me tivesse fulminado com o seu olhar severo.
- Venha Marquesa, o comboio está à nossa espera.
Mas a Marquesa, com a maior lucidez, respondeu:
- Só posso sair às cinco horas.

Noite em Burgos

Todos nós sabíamos quem era a Marquesa. Encontrámo-la em Burgos, e convidámo-la para jantar no restaurante do Hotel Castellano, que ficava na rua Lain Calvo. Era uma rua tão manhosa quanto o hotel, mas a Marquesa não se importava; levou a mala para o quarto, pediu-nos que esperássemos por ela, e desceu já passava das nove, para o jantar. Como tínhamos fome, já tínhamos comido a sopa; e mal ela se sentou o empregado pôs-nos em frente as «chuletas de ternera», que eram tão duras como as solas dos sapatos que tínhmos nos pés; a diferença é que se mastigam «chuletas», e não se mastigam solas. A Marquesa, porém, mastigou tudo; e quando veio a sobremesa (uma mousse de chocolate que era do tempo do Paleolítico, dado o ranço e o musgo que deixava no boca), já ela tinha os olhos iluminados pela inteligência que nasce de uma refeição bem digerida. Para acabar tudo em beleza, chegou o café: malgas cheias de um líquido mole e morno, que se não tirava o sono tirava, pelo menos, qualquer vontade de ir para a cama. Mas era para a cama que a Marquesa queria ir; e levou-nos a todos, para o caso de algum ter dúvidas. Ficámos assim a conhecer o que era a Monarquia popular; e nenhum de nós, nos muitos anos e revoluções que vieram a seguir, alguma vez a trocámos por qualquer República monogâmica. A Marquesa dizia: «Ama-me, tu, e tu, e tu...» E ia continuando, à medida que a íamos amando, como se não houvesse um limite, uma prescrição, um óbice mental, para tanta dádiva. Mas esse jantar no Hotel Castellano, em Burgos, continuou ceia fora, depois de descermos do quarto onde a Marquesa ficou a dormir. Não só ela: para não se sentir sozinha, metemos a mala na cama, e ela não deu pela troca, tal era o seu cansaço. Pusemos-lhe o despertador para as cinco horas - todas as marquesas saem às cinco horas, nem que sejam as cinco da manhã, quatro em Angra do Heroísmo, que foi onde a conhecemos. Descemos ao salão, que já estava fechado, e acordámos o recepcionista para no-lo abrir. Ele abriu; e tirámos o pano que tapava a mesa de bilhar para estendermos no relvado verde o plano da batalha: nós de um lado, a Marquesa do outro. As bolas também andavam de um lado para o outro, e só acertavam em nós; a Marquesa, essa, sempre incólume. Nem demos por que ela saiu, sorrateira, às cinco da manhã, enquanto nós atirávamos as bolas a ver se lhe acertávamos. Ela é que nos acertou quando, de manhã, quisemos sair: a conta estava por pagar. De facto, a Marquesa reservara todos os quartos do hotel, embora só tivéssemos dormido num; e quando corremos para a estação, a ver se a apanhávamos, o comboio já tinha partido. «Mas quem era a Marquesa?» perguntou um de nós. E todos, olhando uns para os outros, tomámos consciência, de súbito, que ninguém a conhecia.

Trocadilho

Não vou insistir na subjectividade, que nasce da complicação do ser. Quando andamos às voltas com ela, não sabemos por que ponta lhe havemos de pegar. Pelos sentimentos? O problema é que eles são pegajosos, e deixam as mãos com uma espécie de pastilha elástica a que se agarra tudo aquilo em que tocamos; pelas ideias? Mas estas ainda são piores do que os sentimentos, porque incham com o calor e, quando as queremos tirar da cabeça, não conseguem sair. Temos de abrir muito os olhos, ou de meter um palito nos ouvidos, para lhes abrir caminho; e mesmo assim o que sai, quase sempre, são apenas pedaços de ideias, que temos de estender em cima da mesa, para ver como é que as conseguimos colar para sair alguma coisa inteira.
A culpa disto é o tempo, diz o boletim meteorológico. Mas se não fosse o tempo, seria outra coisa. Se fosse hoje, a marquesa já podia sair às cinco horas, quatro nos Açores; e teríamos de andar atrás dela pelas ruas de Praia da Vitória para a impedirmos de olhar para o relógio, o que lhe daria o grande desgosto de descobrir que já não tinha nada a ver com o Valéry.
- Com quem?
Perdão, com o Senhor Teste, que disse que a expressão de um sentimento é sempre absurda.
- E passou no teste?
Na verdade, só passou no trocadilho. (É o que fazemos quando estamos em Praia da Vitória à procura de uma Vitória na praia.)

Tiro às ideias

Fui a um concurso de tiro às ideias. Púnhamos as ideias em cima de um muro, alinhadas, umas a seguir às outras, e fazíamos pontaria. Quem acertasse no centro da ideia ganhava. Vi as ideias partirem-se, umas a seguir às outras. Toda a gente acertava no meio das ideias. Nenhuma escapou: as ideias do Platão, as do Aristóteles, as do S. Tomás de Aquino, as do Descartes, as do Rousseau, as do Hobbes, as do Nietzsche, as do Sartre. Caíam que nem pombos, num concurso de tiro aos pratos; e que nem pratos, num concurso de tiro aos pombos. «Mas que porcaria de ideias são estas?» perguntavam os espectadores, que começavam a exigir o reembolso. «Esperem!» E lá puseram uma ideia do Heidegger, ao lado de uma do Wittgenstein. Um tiro, dois tiros, três tiros: a bala entrava no meio das ideias e saía pelo outro lado sem a partir; as ideias do Heidegger e do Wittgenstein continuavam intactas no centro do universo. «Isto é que são filósofos!» diziam todos. E pegavam nas ideias para as pôr à prova: batiam-lhes com uma pedra, atiravam-nas contra a parede, e nada. Intactas que nem calhaus rolados! «Já sei» disse um, que também devia ser filósofo. A ideia de um faz ricochete no outro e protegem-se da pancada.
E enquanto ficaram todos a pensar nesta ideia, as ideias do Heidegger e do Wittgenstein foram à vida delas.

domingo, junho 26, 2005

Perdidos e achados

Ontem, quando saí de casa, não reparei que me tinha esquecido de mim. Passei o dia na rua, e continuava em casa, à espera que desse pela minha falta. Mas estava tão distraído que não reparei que me tinha deixado em casa. O pior foi quando tive de voltar para casa. Como me tinha esquecido de mim, não sabia onde é que me tinha deixado. Nem sequer pude voltar para casa porque, como me deixei lá ficar, não tinha maneira de abrir a porta. E ainda hoje não sei de mim.

sábado, junho 25, 2005

Calor

Com o calor destes dias, a única hipótese era ir até à barragem para arrefecer os pés.
Fomos todos à barragem.
Era um milhão de pés dentro de água, de roda da barragem.
Os pés começaram a aquecer a água.
Começou a sair fumo de dentro da barragem.
A água evaporava-se rapidamente.
E nós íamos descendo de roda da barragem, para não tirarmos os pés da água.
A água fervia, e evaporava-se.
E nós, meio milhão, continuávamos a pôr o milhão de pés dentro da água, cada vez menos, cada vez mais no fundo.
Por fim, já só nos tínhamos a nós para pôr os pés.
Quando dei comigo com novecentos e nove mil novecentos e noventa e oito pés dentro de mim, a tentarem arrefecer, achei que era demais. Tal como a água, eu escaldava.
E saí de dentro da barragem, deixando quatrocentas e noventa e nove mil novecentas e noventa e nove criaturas a chafurdar na lama do fundo, sem repararem que já não havia água para se arrefecerem.
Foi então que abri as comportas da barragem, e deixei entrar a água de reserva, para arrefecer de vez os meus queridos compatriotas.
Esqueci-me de dizer que a barragem voltou a ficar cheia.

sexta-feira, junho 24, 2005

Big Mac

As histórias do Édipo abrem-me o apetite; as do anti-Édipo ainda mais. Por isso, mal soube pelo jornal da manhã que o matricida foi levado para a Penitenciária, de onde saiu em regime de residência fixa umas horas depois (segundo uns, porque não encontraram o corpo da mãe, segundo outros, porque ele era órfão de nascença), comecei a dar voltas pela cidade, estudando o lugar onde iria almoçar. Estava um dia em que não chovia nem deixava chover, o que aumentava a minha inquietação; e foi assim que, depois de passar por vinte bancas de jornais onde ia continuando a minha leitura das primeiras páginas, acabei sentado a uma mesa do mac Donald's com um BigMac e duas coca-colas. O Big Mac foi logo; as coca-colas limitaram-se a seguir o caminho das primeiras páginas, chupadas lentamente pela palhinha, tal como as notícias do crime: «Édipo mata a mãe com uma faca. Apanhado porque se esqueceu de a meter na máquina da loiça». Mas quem não entrou na máquina: a mãe ou a faca? A questão atormentava-me enquanto comia o Big Mac; e nem dei porque na rua se juntava uma multidão, que ia vitoriando a camioneta onde o Presidente celebrava a sua vitória. O que não sei é de que Presidente se tratava; nem o que é que ele tinha ganho. Depois, lembrei-me: ganhara a minha segunda coca-cola, que tive de correr para lha meter na mão, passando por entre os fanáticos que gritavam: «Cola Presidente! Cola Presidente!» Só quando lhe pus a Coca-Cola na mão esquerda, e lhe apertei a direita, é que percebi que fiquei com a mão colada à dele. O Poder, quando não se pega a nós, pega-se-nos; e desde esse dia arrasto o Presidente atrás de mim, mais a multidão de adeptos que me obriga, de cada vez que vou a um mac Donald's, a dar-lhe de beber pela palhinha.

Anti-Édipo

Quanto menos penso mais penso. Penso que podia pensar que não penso; ou limito-me a não pensar que penso. Só depois é que penso que existo, para existir porque penso; e se penso, e desisto, insisto em que existo.
- Mas por que é que pensas tanto? dizia a minha mãe; é só para não matar o pai e casar contigo, respondia-lhe.
E ela não hesitava: punha-me uma faca na mão e começava a tirar alguidares da despensa, para recolher o sangue.
A minha mãe era muito asseada; e o paradoxo da sua existência era este: queria limpar o pai sem sujar a casa.
Por isso eu pensava tanto, e não fazia nada.
- És um inútil! gritava ela.
E eu olhava para a faca, sem saber o que fazer.
Até que a matei. A casa ficou suja, mas ela já não estava lá para a ver.

quinta-feira, junho 23, 2005

Parto

Deus existe, encontrei-o ontem. Tinha ido ao cinema, e quando saí estava a começar a chover. «Chuva no verão?» Sim, e e dessa chuva que tem umas bátegas fortes, que nos encharcam logo. O problema é simples: não havia nuvens. Nem uma, em todo o céu: e bem no meio havia uma lua completamente branca, como um buraco no meio do céu. Olhei a lua: e Deus saiu de dentro dela, como se a Lua estivesse grávida e tivesse ficado à espera que eu saísse do cinema para dar à luz. Só então é que percebi tudo: a chuva foi quando rebentaram as águas à lua! E deus caiu-me nos braços, a vagir e a pedir leite. Fui a correr comprar um pacote e despejei-o na boca dele. «Mas os deuses bebem leite?», perguntas-me. Pois bebem! E olha que me despejou uma embalagem de doze pacotes, um após outro, com uma sofreguidão que me incomodou. «Ó lua!», chamei. E a Lua nada! Lá no meio do céu, como se não fosse nada com ela, e não me tivesse posto um Deus nos braços. Então, pé ante pé, fui até à parte d etrás do cinema, onde ficam os caixotes do lixo. Um deles estava cheio de programas, que as pessoas deitam fora, e ficam no chão, acumulados, no meio de pipocas e sacos de gelado. Saciado, Deus dormia; foi o que eu quis ver. Aconcheguei-o no meio dos papéis, pus a tampa do caixote por cima, e lá ficou.
Sabes agora onde podes encontrar Deus!

quarta-feira, junho 22, 2005

Diálogo da baleia

- O mundo é o resultado de um acaso infinito. Uma estrela dá a volta a si própria, refresca-se nos pólos, e o homem fica um sol, com um chapéu de raios e a cabeça a pensar na morte da bezerra.
- Não devia ser assim. A primeira coisa que o homem devia fazer era pegar na bezerra, esfolá-la, e tirar-lhe os bifes da vazia para os grelhar. Mas não! A bezerra está morta na cabeça dele, e lá está o homem a pensar, como se tudo não fosse o resultado de um acaso.
- Mas é que o acaso é infinito. Olha para além dele: segura-te à varanda do equinócio, e pensa que a Terra é um bócio que saiu da cabeça de Deus. Agora anda às voltas, no cosmos, à procura da cabeça de onde saiu; e Deus passa a vida a mexer no pescoço, e a perguntar para onde é que foi o bócio dele.
- E onde é que está Deus? Queria dizer-lhe que a única maneira de tapar o buraco é enchê-lo com uma pasta de sonhos bem amassados, espremidos, e cobertos com uma farinha de osso de baleia. Uma vez tapado o bócio, há.-de ficar um buraco dentro dele; e quando Deus abrir a boca o Jonas vai sair cá para fora, aos gritos: «Deus existe! Deus existe!»

segunda-feira, junho 20, 2005

Indigestão

Olha, Luís, não sei se é santa, mas que é um milagre, é, sobretudo quando se pensa no que acontece aqui em Lisboa onde já não se encontram virgens, e sabedoria ainda menos. Podem procurá-las com um candeio de azeite, pelas vielas mais recônditas de Alfama ou do Bairro Alto; e de cada canto saltam jovens que, pelo riso fácil, logo mostram que a sua sabedoria é outra, e a única virgindade que nos dão é a do seu mealheiro, onde nunca entrou sequer uma moeda de poupança. Há dias, encontrei uma dessas que começou por me pedir que lhe recitasse um responso a São Roque. «Que é isto», disse-lhe, «anda aí a peste de novo?» Que não, diz-me ela, quem anda é o rei, já só falta o roque; e desatou a rir-se-me na barba, o que me obrigou a ir a correr ao barbeiro para a escanhoar. Agora não te rias tu: estou aqui com um queixo de matagal desbravado, como se tivesse ido à inspecção da lepra no lazareto de Alcântara.
Sei que estes nomes de lugares da nossa Lisboa te devem dar volta ao estômago, de fome e desejo! Mas não te mortifiques. Come-se mal em Lisboa. Ainda ontem, num dos bares à beira do rio, pedi um sofisma de morango com chantilly e o escravo, que devia vir do Brasil, em vez de me trazer tão sublime petisco pôs-me um guisado de hipérboles no prato que ainda hoje me andam às voltas no estômago; e nem um chá de metáfora, ao deitar, me conseguiu dar algum alívio. É esta a Lisboa que temos! Antes uma prisão séria, em Goa, com tempo para pensar e rezar à tua Virgem da Sabedoria, que bom proveito te faça.
Pêro

quarta-feira, junho 15, 2005

Estátua

Caro Pêro
Nestes dias de isolamento, aproveitei para juntar migalhas do pão negro que se acumularam na mesa da consciência, e fiz com elas uma imagem da Virgem da Sabedoria, que pus num buraco da parede que me serve, agora, de oratório. Faltava-me, no entanto, uma oração para recitar a esta nova santa. Foi o que fiz, depois de acender uma luz bruxuleante que ilumina o rosto enegrecido da minha Virgem:
«Virgem da Sabedoria que nasceste da treva,
dá-me a luz de vidro das tuas frases,
ensina-me o rosário do conhecimento,
desfia as pedras negras da ignorância,
empresta a Édipo os óculos do pai,
não roubes ao vento a memória do eco,
põe vírgulas no que é falso,
aponta o ritmo do pensamento,
salta na cama da etimologia,
que fazer, ó Virgem, que fazer?»
Agora, rezo-lhe todas as noites, mesmo não sabendo quando é noite nem quando é dia; e a vela não se apaga, embora eu não tenha lume para a acender. Será isto um milagre?
Luís

terça-feira, junho 07, 2005

Despedida

Mas olha, Corina, que há males que vêm por bem. Estava eu deitada na praia de Goa, com o vento do Índico a fazer balouçar as palmeiras sobre o meu corpo, quando senti que a terra se mexia debaixo dos meus ombros; levantei-me, e da terra saiu um homem que se me dirigiu em latim: «usque adeo dulce puella malum est» - a mulher é um mal tão doce! E logo me abraçou, dizendo-me que se chamava Públio, e atravessara o centro da Terra para me encontrar. Sem dúvida que lhe mostraste as minhas cartas, e o puseste ao corrente das nossas confidências! Vês agora o resultado? Encontrei a felicidade mal ele mergulhou nestas águas e delas saiu limpo de terra, de lama, de favos, e de tudo o mais que podes imaginar, quando alguém rodopia sobre si próprio até se transformar num black-and-decker cósmico. Não te contarei o efeito que isso me provoca, pois ele apanhou-lhe o jeito e já não se quer desembaraçar dele - nem eu quero que ele volte ao normal. Falo-lhe no latim que o Pero Vaz me ensinou; e ele responde-me com a pronúncia do Lácio, que o Danúbio não lhe tirou. Começou a escrever-me um «Remedia amoris» que me estão a curar de todos os meus problemas; e acabámos de embarcar numa fusta que nos leva ao sabor do vento até Malaca, onde nos esperam os grandes templos em que ele poderá praticar a sua religião. Não esperes por mim, nem que te volte a escrever, e despede-te desse que encheste de mel, para que o seu sabor me prendesse a língua.
Salve
Fílis

Incêndio

Minha Fílis
Não te contarei a confusão que reina por estas partes, desde que comecei a falar a Ovídio. O pobre, mal soube que a língua se me desatara, mandou tapar os ouvidos com cera quente das colmeias dálmatas; e não é que as abelhas, ao cheiro da cera, lhe andam continuamente à volta da cabeça, fazendo cortiço das suas orelhas? E olha que é bem bom o mel que elas produzem, e que lhe escorre do pescoço até aos ombros, fazendo deste Ovídio o mais doce dos poetas latinos! O problema é que, mal isso começou a acontecer, também as minhas amigas se precipitam sobre ele, para provarem um pouco do seu mel; e olha que não sei qual será maior tormento, se ser picado das abelhas ou lambido por essas línguas afiadas, que lhe deixam a pele seca até nova revoada de sugadores de pólen o untarem com o seu néctar.
Como tenho medo do amarelo, não me aproximo dele; grito-lhe, de longe, o que tenho para lhe dizer; e surjo como louca aos seus olhos, pois pensa que o insulto, e logo leva as mãos à cara para tapar os olhos; mas também sobre os olhos lhe estão a nascer cortiços, e quando chega às pálpebras com os dedos, estes mergulham num inferno picante, que o deixa também a ele completamente louco. Assim, passa a vida às voltas sobre si próprio, para ver se se consegue libertar do seu tormento; e com esse movimento está a cavar um buraco no chão de pedra, estando já enterrado até aos joelhos, sem dar por isso, porque nem consegue ver o que está a fazer. À sua volta, uma multidão admira este espectáculo, de longe, e o fumo que lhe sai dos pés em rotação faz com que digam que ele está sobre um vulcão, o que já levou alguns dos nossos compatriotas a abandonar a cidade.
Como vês, toda a felicidade tem um fim, e já me arrependo de não ter continuado calada como sempre, porque talvez hoje ele rodasse à minha volta, para que o incêndio nascesse de mim e não da mais bruta rocha.
A tua
Corina

segunda-feira, junho 06, 2005

Luís responde a Pero Vaz

Começo a entender o que me dizes; e se nunca ouvi de Fílis qualquer queixa em relação a ti é porque era eu, de cada vez que o teu nome aparecia na conversa, que te enchia de impropérios, sabendo que foi a tua intenção de a encerrar no convento que a obrigou a apartar-se do Reino, passando os mil perigos do oceano até chegar ao bom porto de Goa. E contar-te-ei o que não sabes: que é bem certo que o que tu desejavas que acontecesse de facto veio a suceder; e foi o caso que, saindo a nau de uma longa calmaria, e aproximando-se da costa, logo uns cafres se apoderaram do batel onde Fílis estava e, depois de trespassarem os marinheiros enfraquecidos pela sede com as suas afiadas lanças, a levaram para terra e a entregaram ao seu Soba. Logo este a vendeu a uns mercadores árabes que, perante tão bela presa, a levaram a trote de camelo até ao reino de Harare, onde o sultão local a comprou a peso de bugigangas e sacos de café. Quantos foram, não te digo, porque dariam para encher todo o paço da Ribeira, tão valiosa surgiu ela aos olhos do negociante que, não contente com o animado diamante que a sorte lhe trouxe às mãos, logo quis recuperar o seu, levando-a até Esmirna onde o Vizir a trocou por cem barcos carregados de âmbar, para que ela fosse a flor do seu serralho. À sua vista, até os castrados ganharam vida; e durante um mês os seus cantos nocturnos tiveram um acorde masculino que se confundia com o apelo dos emires, nas torres da oração, chamando todos os crentes a agradecerem a jóia que fizera a felicidade do senhor.
O que aconteceu no serralho não te conto, embora Fílis mo tivesse segredado; só sei que o Vizir, que era casto como o mais capado dos gatos persas, pedia todas as noites a Fílis que lhe contasse a história da sua viagem de camelo, o que ela fazia com todo o empenho, do princípio da noite até à madrugada, que era quando as pálpebras do Vizir lhe fechavam os olhos num cair de cortinas. Então, Fílis refugiava-se atrás do reposteiro com o chefe da guarda do serralho; e tanto se refugiaram ali que, passados poucos meses, era já visível o resultado das suas efabulações, que o Vizir atribuiu ao seu esforço de atirar o fumo do ópio para os ouvidos dela, como se fosse pelos ouvidos que as donzelas emprenhassem.
Nascida a criança, logo foi consagrada como herdeira do trono; e graças a esse nascimento o chefe da guarda subiu a chefe do exército, começando a sua acção guerreira por decapitar o Vizir, e tomar o seu lugar. O problema é que este Vizir tinha um protegido de grande formosura, que cativou o novo General, que logo, como é hábito naquelas regiões, afastou do seu leito a bela Fílis para lá meter o sedutor Sebastião, pois era este o seu nome, e que dizia à boca pequena aos seus íntimos que era o Rei dos lusitanos, capturado nos confins do Magrebe, e levado para aquela cidade por empenhos de mouros anónimos.
Ora foi este Sebastião que, para se ver livre de Fílis, a pôs nas mãos de uma caravana de mongóis, e foi por essa via que ela conseguiu chegar à costa malabar, de onde conseguiu apanhar nova nau para Goa, carpindo ainda, quando a Lua vai alta, as saudades do seu filho que, diz ela, reinará em breve sobre o trono de Istambul.
E de tudo isto, Pero Vaz, o culpado és tu.

domingo, junho 05, 2005

Do convento ao harém

Se andas às voltas com a Fílis na cabeça, não penses que a vais conseguir prender apenas com palavras. Terás de a amarrar com grossos cordéis, e falar-lhe forte, para que ela te ouça; senão, fica sabendo que as tuas palavras serão como correntes de ar, que qualquer empurrão na porta fará desaparecer. Se queres confirmar o que digo, pergunta-lhe pelo meu nome: e ela abrir-te-á os olhos - só de pensar nisso a alma me dói! - como se o estivesse a ouvir pela primeira vez. Podes repeti-lo duas e três vezes, ou até mil, e cada vez mais ela desviará a vista para a rua, onde passam homens e mulheres com a pressa das suas ocupações. Verás que é aí que ela tem o seu pensamento; uma leve tremura nos lábios revelará o desejo de te deixar, e nada do que fizeres a poderá demover. «Então, para quê prendê-la?», perguntas-me. E a única resposta é esta: para me vingares. Também eu, se tivesse podido, a teria raptado para a entregar no convento de Xabregas, onde a Superiora a faria comer o pão do diabo até que ela se convertesse à boa virtude. Como tenho entradas nesse convento, pediria à Madre que me levasse até à sua cela, e me deixasse espreitá-la: queria ver esse rosto, hoje corado como a rosa mais fresca da primavera, desfeito pela brancura dos castigos; e dir-lhe-ia, pelo buraco da fechadura, que os anos que tem pela frente serão poucos para se penitenciar pelo que me fez. Ouvi-la-ia chorar; e o único problema é que, sem dúvida, esse choro me iria perseguir toda a vida, como o pior dos remorsos.
Bem sei que me vais dizer que um convento não é lugar recomendável para encerrar uma jovem, que encontrará sempre forma de se libertar do isolamento para fazer com que a sua tortura enterneça algum velho fidalgo, que tudo daria para a tirar dali. Foi por isso que não me esforcei em levar até ao fim o meu propósito, e pensei que se a metesse numa nau o mais certo é que fosse levada por algum naufrágio ou, melhor ainda, capturada por um desses corsários argelinos que espreitam a sua presa, mal a vela assoma a oeste da Berberia. Terminaria a sua vida num harém de Fez, perseguida pelas velhas que, mal chega carne fresca, logo se esforçam por a maltratar para que o senhor não se deixe cativar por novos encantos. Dir-me-ás que sou cruel! Porém, quando alguém sofre o que sofreu, que outra compensação queres que tenha senão esta, imaginando os suplícios a que a possa entregar?
O único problema que me aflige é quando releio esses versos que lhe dediquei; e aí ela está mais viva do que nunca, fazendo com o seu riso passado me fira como a mais azeda das setas envenenadas.
Saúde
Pero Vaz

Conversa de prisão

E assim, passando os dias, não vejo nada em que me entretenha
tão bem como em lembrar, sabendo que não se lembra mais do
que aquilo que se viveu, nem se vive menos do que aquilo que
se lembra. Mas não te assustes com paradoxos: o meu trabalho, aqui,
é apanhá-los com um pequeno pau que tenta esmagá-los contra
a palha do colchão; porém, há sempre outros paradoxos que entram
pelo postigo, e me atacam as pernas e as costas, deixando as suas
marcas doridas. Peço ao meu escravo que as coce; e quando
ele se cansa, bato-lhe com o pau, para que a dor lhe insufle o
ânimo que não tenho. Confesso-te, caro Pêro, que é nesses
momentos em que as unhas do negro me aliviam da comichão
que a Musa vem ter comigo. A sua voz melodiosa atravessa-me
o ouvido e aloja-se-me no cérebro, onde vai ganhando corpo
até adquirir a imagem de Fílis. Se a conheces, sabes que é mais
perigosa uma Fílis no cérebro do que mil outras nos braços; e
é nesse instante que o cubículo se enche de luz, parecendo-me
que os presos de olhos cavados e cabelos colados à cabeça com
o suor dos meses de enxovia se transformam em anjos, e as
suas queixas obscenas em doces cantos do Paraíso. Não te
assustes, finalmente, com o que te conto: não enlouqueci ainda,
graças a essa que habita as minhas noites, mesmo que já não
saiba distinguir o dia da noite, nem adivinhar em que mês
me encontro. Ontem, pareceu-me ouvir alguém falar da Páscoa;
e isso trouxe-me às narinas o cheiro dos rios onde as crianças
se divertem a apanhar trutas, com as canas afiadas nas pedras
da margem. Aqui, as trutas são outras, e as pedras também;
e a própria Fílis me parece cada vez mais uma escorregadia truta
que me foge por entre os dedos, quando a tento
apanhar, como se não fosse a humidade deste subterrâneo
que me humedece a palma das mãos, impedindo-me de
as usar como quero. E deixo-te entregue a outras mãos, para
que estes problemas não te obscureçam a vista de Lisboa.
Luís

quarta-feira, junho 01, 2005

Sal

Estás-me a pedir que interprete o teu sonho. Antes disso, dir-te-ei que estou a ouvir a música de um pequeno roedor no fundo da sala. Imagino que esteja a alimentar-se dos poemas do meu pobre Luís, que continua no cárcere, e insiste em mandar-me mensagens a dizer que o único brilho que avista de dentro das suas trevas é a minha lembrança. Já lhe mandei dizer que a sopre, para ver se a apaga, como se apaga uma vela, porque começo a ficar incomodada com a ideia de estar em tão obscuro sítio, mesmo que seja apenas na cabeça de um condenado. Mas ele responde que é isso que o faz viver, e agora a única forma de sair disto é mandar-lhe dizer pelo mensageiro que o melhor mesmo é esquecer-me para morrer de vez.
Não, Corina, nunca fui compota de ninguém. Falta-me o açúcar, e se quiseres sobreviver a esses pequenos almoços o melhor que tens a fazer é seres mais salgada do que doce.
Vale.
Fílis

Pequeno almoço

Fílis
Ontem, imaginei que estava deitada numa cama de cerejas, e o meu travesseiro era um pêssego. Quando acordei, estava transformada em compota. Então, Públio entrava no quarto com a bandeja do pequeno almoço e começava a barrar o pão comigo. Eu dizia-lhe que não me confundisse com um doce, mas ele metia na boca colheres cheias de mim, e conseguia engolir tudo sem sequer ter de mastigar. Por fim, consegui afastar as duas metades do pão, e saí de dentro dele antes de ser completamente devorada. Consegues perceber isto?
Corina

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