terça-feira, maio 31, 2005

Semente

Pergunto a mim própria, minha Fílis, de onde te vem esse gosto súbito pelos pêssegos. Eu gosto é de cerejas, e aconselho-te vivamente essa experiência. Tens de começar por meter a mão por dentro do cesto em que as vendedoras as trazem. Prefere as mais escuras, porque quando tirares a mão e o braço verás como vêm tintos de sumo, como se estivessem em sangue; mas lambe o líquido com a boca, para que os teus lábios se pintem d evermelho escuro, e logo a tua pele voltará ao tom rosado inicial. Depois, tira as cerejas uma a uma, e come-as, devagar. Podes morder a polpa com cuidado, para que os dentes não partam o caroço; depois, irás sentir o licor da cereja, que se poderá confundir com o mais divino dos néctares; e quando tiveres engolido tudo, ficará o caroço entre a língua e os dentes, dançando com a alegria de se ter visto livre do seu invólucro. Podes cuspi-lo, de preferência para cima da terra; e fica a saber que, no próximo ano, quando por ali passares, um tronco jovem irá marcar o sítio para onde cuspiste essa semente. Podes considerar que essa árvore é o teu filho; e acaricia as suas folhas, ficando a vê-la crescer, até que os ramos adquiram o tamanho de uma copa, e te cubram com a sua sombra. Deita-te debaixo da árvore. Talvez sintas, então, o seu abraço longo, e podes reflectir sobre o que é o tempo, que faz de uma simples cereja uma tão grande planta. Tu própria, quando te esqueceres de que é uma árvore que está sobre ti, e a confundires com um fauno, terás o desejo de voltar a meter a mão num cesto de cerejas; mas o que vais encontrar é a folhagem que, mal a toques, se irá converter na espessa cabeleira do ser que te possui. Lembra-te, então, que a tua vida inteira vale tão breve instante.
Saúde.
Corina

segunda-feira, maio 30, 2005

O desastre de Pompeia

Ao abrir o pêssego, dou com um bicho;
e quando quero apanhar o bicho, começo a correr
à roda do pêssego até o próprio pêssego começar
a andar à roda. Com o movimento de rotação,
o pêssego sobe-me à cabeça e fica a rodar no
meu cérebro. Os meus olhos também rodam,
como luas, de volta do pêssego; e o pêssego
transforma-se num planeta. Meto o dedo no ouvido
direito, e apanho a América; com outro dedo,
no ouvido esquerdo, dou com a Austrália; e se
meter um dedo na boca vou ter a África. Com os
dedos metidos no nariz, furo a Europa, e pico-me
na torre Eiffel. O que eu devia ter feito, antes
de andar ás voltas com pêssego, era tê-lo cortado
ao meio. Tirava o caroço, e ficava com duas crateras
de vulcão de onde começavam a correr dois rios
de lava. Depois, dava-se uma dupla erupção. A
mesa onde tinha pousado as metades do pêssego
começava a arder; e como Pompeia ficava no
meio dessa mesa, a lava atravessava as ruas,
entrava nas casas, e ninguém dava por nada.
Com isto tudo, já ninguém sabe onde é que
o bicho se meteu, se é que houve bicho.

Pêssego

O problema, minha Corina, está na maneira como se descasca um pêssego. Tens de ter cuidado com a parte de fora, que em geral é áspera e ataca a pele dos dedos. Tira-a devagar, para não te irritares; e depois agarra o fruto inteiro, sentindo já a polpa húmida invadir-te a mão, e escorrer-te pelo braço. É uma sensação que podes fazer demorar o tempo que quiseres, porque não és obrigada a morder logo o fruto. Podes limitar-te a olhá-lo, vendo a sua cor passar do rosado ao laranja, quando o sol incide sobre ele e lhe arranca o seu brilho mais intenso. Então, aproxima devagar a tua boca dessa polpa deliciosa, abre os teus lábios que o desejo de o devorar faz ainda mais vermelhos, e mergulha a tua língua nessa matéria onde poderás passear à vontade, sem teres de satisfazer logo a tua fome, porque o pêssego é grande e terás todo o tempo do mundo para o saborear.
Bom apetite
Fílis

quarta-feira, maio 18, 2005

Bicho da seda

Querida Fílis
aí está um fruto que não aparece facilmente por estas paragens. Constança é uma cidade que tem poucos supermercados, e os mercadores que vêm da Ásia trazem figos e tâmaras, que se vendem ao longo das ruas, deixando um cheiro enjoativo que se mistura ao das especiarias, o louro, o tomilho, o cravinho, apanhados nos campos de papoulas por onde Alexandre passou com os seus exércitos, na sua última expedição.
Mas não penses que não tenho doce para dar a Públio. Faço-o com amoras, e ele perde-se a olhar o creme negro que apanha com o dedo do boião que lhe ofereço. Ele diz que é a melhor recompensa que pode ter para o seu exílio; e eu pergunto-lhe como é que se pode sentir exilado no meio de tantas coisas que o acolhem como se fosse um príncipe.
- Não, não fui eu que procurei este reino, mas foi a minha insolência que me encaminhou para um trono cujos súbditos são o vento e a tempestade. Pensei que poderia escrever obedecendo apenas à Musa; e o resultado é que, à minha volta, se conjugaram contra mim os poderosos e os fracos, cuja união é bem mais temível do que a de todos os exércitos do mundo.
Deixei-o falar, porque bem sabes que esse é o segredo de quem quer obter a verdade, que acaba sempre por vir à tona no meio de todas as frases em que o infeliz procura disfarçar o que o atormenta. Sim, Fílis, ouviste bem: agora já falamos, porque eu revelei-lhe a minha loquacidade, o que não o deixou supreendido.
- As tuas palavras já antes chegavam até mim, apenas pelo movimento dos teus olhos.
Assim, a nossa comunicação existia bem antes destes diálogos em que agora nos perdemos, com o negro doce pelo meio. No entanto, hesito em confessar que o seu discurso não me satisfaz. Ele procura-me apenas para fugir à sua ilha deserta; e eu não sou um coqueiro a que ele se possa amparar, procurando o refúgio das minhas folhas.
Compreendes o meu drama?
Corina

Tardes na Anunciada

Por que será, Corina, que todos os meus amigos me pedem para lhes fazer doce de morango? Que terá esse fruto de tão especial que assim atraia os homens, tal como o pólen atrai as abelhas? E eu faço-o: misturo o morango esmagado ao açúcar e à canela, até obter um molho cremoso de acentuada cor rubra. É finíssimo, mas para isso tenho de o mexer em lume muito brando durante mais de meia hora, enquanto tempero com um pouco de gema, para puxar o gosto. Já em Lisboa Pero Vaz me dizia que o meu doce o fazia ir ao céu; e quando nos sentávamos à mesa da cozinha, depois de expulsar negros e cozinheiras para o pátio, ele descrevia-me em pormenor o caminho para o Paraíso, a estrada de Santiago que as almas têm de percorrer com o bordão da penitência, o portal de estrelas onde São Pedro está sentado à nossa espera, e a alameda de nuvens rosadas que tem, em vez de árvores, anjos de harpa cantando com voz de morango os salmos felizes.
Como é óbvio, Corina, disse-lhe que não há nada mais aborrecido do que esse paraíso; e a ideia da música fazia-me abrir a boca de sono. Ele aproveitava para me puxar para o seu ombro, pedindo-me que adormecesse por uns instantes, enquanto a visão do paraíso não se dissipava; e dizia que, assim, se sentia como se estivesse a um passo de atingir o sétimo céu. Eu hesitava em revelar-lhe que, para mim, o sétimo céu se situava noutra dimensão mais terrena; mas receava que ele me denunciasse ao inquisidor-mor, de quem era amigo íntimo, e me obrigassem a passar pelos tratos para explicar de que céu se tratava.
Como esta cena se repetisse, e o meu desejo de chegar ao meu céu se tornava cada vez mais forte, acabei por pedir ao irmão dele que me metesse no seu barco e me trouxesse para Goa onde tenho todos os céus do universo à minha disposição. Não te vou contar o que foi a nossa viagem; e de como ele me ensinou que, para evitar o enjoo, tínhamos de nos abraçar e balançar na direcção contrária às ondas, o que nos permitia ficar no equilíbrio estável que que mantém a boa disposição. Como a tempestade durou toda a viagem, foram meses de equilíbrio, nesse abraço que me tirou enjoos e tédios. Se um dia embarcares, aconselho-te este remédio, que por outro lado faz com que naveguemos duplamente, e olha que a segunda viagem é bem mais bonançosa e feliz do que se estivermos no convés a olhar para o mar, à espera que apareçam os peixes voadores que anunciam terra.
Não sei quem é que, hoje, faz doce de morango para Pero Vaz; mas sei que não é, com certeza, tão bom como o que eu lhe fazia, nessas tardes longas do verão da Anunciada. Mas, como sabes, não lhe posso mandar daqui o meu doce, que se vai estragar na viagem; e de qualquer modo, aquele que eu faço é logo devorado por quem está à minha volta. «É de comer e chorar por mais»; e olha que morango não me falta, todos os dias, porque os candidatos depejam-me cestos inteiros à porta de casa para que não me falte matéria-prima. Bem lhes digo que não é preciso, porque o meu morango chega para todos; mas eles não se convencem. Chego a dá-lo aos escravos mais jovens, que se juntam esfomeados à minha volta, e tenho pena deles. Foi a minha educação que me deu este sentido da caridade, que me há-de perder.
Saúde
Fílis

terça-feira, maio 17, 2005

Sobremesa

A última vez que vi Fílis, comemos morangos. Ela, de olhos fechados, abria a boca - e eu metia-lhe o morango por entre os lábios, vendo-a soboreá-lo, bem vermelho, e o seu sumo escorria pelo queixo, para que eu o limpasse com os dedos e o atirasse para a erva, onde a sua cor se misturava com os verdes das folhas. O morango, como sabes, é um fruto que lembra o pecado; e embora não goste particularmente dele, usava-o para poder ter um termo de comparação com o rosado das faces de Fílis, que eu fazia corar até terem a mesma cor do fruto. Então, podia deliciar-me, como se ela própria fosse um morango.
O que é estranho é que nunca fiquei enjoado. É um fruto que não nos cansa, nem pela cor, nem pelo gosto. O problema é durar tão pouco a sua estação; mas talvez possas ir a Sintra, onde há sempre morangos, por essa serra acima. Terás é de afastar as ovelhas, e apanhá-los por entre as medas de pasto, tendo cuidado para não dares com alguma pastora perdida, que não receará pedir-te que lhe ensines esse caminho de onde ninguém volta.
Bons ares.
Luís

segunda-feira, maio 16, 2005

Calores do Índico

Pudesse eu deitar-me nas areias quentes, frente ao Índico, e esperar que, do fundo do oceano, nasça a Ilha onde as ninfas se escondem – e não precisaria de estar aqui, em frente desta escrivaninha, a tentar encontrar as palavras para te descrever o meu estado. O problema, caro Luís, é que não esqueci Fílis; nem o bafo quente do seu corpo me sai da cabeça, sobretudo quando a primavera enche o campo com o perfume das flores que saltam de todo o lado. Ainda tenho a ilusão, por vezes, de que ela vai aparecer de entre os arbustos, com a sua túnica entreaberta, como tantas vezes sucedia nos dias mais quentes; mas logo se desvanece, e o que tenho à minha vista são as ovelhas tresmalhadas de algum rebanho cujo pastor se perdeu atrás de outra Fílis, porque nestes campos Fílis é o que mais há – mas são outras, e não essa que eu queria perseguir.
O que me contas dela, porém, não é nada de que eu não estivesse à espera. Que querias tu que, na tua ausência, ela fizesse? Que se limitasse a bordar, qual entediada Penélope, extensos tapetes com cenas de aviário? Ou que se metesse a um canto, chorando a tua ausência? Como te enganas sobre a natureza das mulheres, sobretudo quando o clima as reveste de uma dura carapaça contra os sentimentos que, por outro lado, é a mais mole das protecções, logo que o inimigo lhe abre o postigo da ventura. E é vê-las a entrarem por aí, até resvalarem pelo monte em que ninguém se fere, até esse doce abismo que todos sonhamos!
Sei que, na prisão, te condóis do seu destino – como se ela não tivesse mais do que fazer do que passar os dias a apurar os ouvidos na tua direcção, esperando ouvir no vento os teus lamentos. O pior, caro Luís, é que o vento sopra sempre ao contrário do que desejamos; e o que ele leva até esse esconderijo que os cabelos protegem de lábios audaciosos é a frase flatulenta do pretendente que está certo de conseguir o que se encontra no cesto do pudor, e que um simples gesto de ousadia expõe aos olhos de quem nunca ousou, sequer, imaginar quão fácil é essa conquista.
Não sei se devias ter morto esse que te revelou, com tão desprevenida ingenuidade, o que não gostarias de ouvir. É que depois dele, outro chegará; e se voltares a matá-lo, outros virão após ele, porque nunca será Fílis tão difícil que a sua força não faleça quando a afronte a falta .
Saúde
Pêro Vaz

domingo, maio 15, 2005

Notícias do cárcere

Caro Pero
Mais uma vez, estou preso, e tenho ainda para uns meses de cárcere. O mais penoso é que estou impedido de ver a nossa Fílis, e isto é tanto mais duro quanto já não me encontro com ela desde a última Primavera, quando partiu para Cochim onde foi procurar um clima mais ameno. Dias depois de partir, chegou-se a mim um capitão de barcos com uma estranha conversa acerca de língua de boi cozinhada, uma sesta debaixo de um cedro e uma jovem que passava a vida a tropeçar, sem que ele percebesse porquê. Ao descrevê-la, reconheci os traços de Fílis, só não compreendendo o que se terá passado para que ela tivesse tanta dificuldade em andar no campo, já que comigo isso nunca sucedeu. Mas o que me inquietou foi a história da língua de boi, em que suspeitei um insulto; e logo deixei o destemido capitão com a testa devidamente tratada, passando a deitar sangue por onde, habitualmente,só escorre o suor. Ao verem o homem estendido nas pedras do claustro, logo a guarda me agarrou e, depois de verificarem que ele estava bom para o último sono, logo me entregaram à justiça onde, no entanto, tenho amigos que poderão testemunhar que o insulto que me foi feito é suficiente para que constitua uma agressão a que eu não podia deixar de responder.
Mas a morte do homem é insignificante. O que importa é saber o que foi Fílis fazer com ele àquele cedro, e que se terá passado para terem de dormir uma sesta, e sobretudo que lhe terá ele feito para ele ter tropeçado todo o caminho de regresso. Tu, que a conheces bem melhor do que eu, é que me poderás responder. Já perguntei a Afonso Vaz se estarias mais tranquilo e conformado com a sua ausência para me poderes responder; e ele assegurou-me que aquilo que quiseste é tão mudado que poderei já encontrar junto de ti o conselho demandado.
Podes dizer-me: não será melhor inquirires directamente junto de Fílis? Mas como o poderei fazer, caro Pero, se ela está em Cochim e eu estou deitado neste catre de Goa, num cubículo onde ainda cabem outros seis condenados que aguardam a entrega ao juízo final? A minha única companhia, já que destes companheiros não tenho outro consolo senão o permanente jorro de maldições pela sua infausta sorte, e a súplica de que troquem o garrote pelas galés - mercê que estou disposto, só para me ver livre deles, a fazer chegar ao Vice-Rei - é um breviário onde vou seguindo os salmos que, se não me levam ao céu, pelo menos me evitam não ver mais do que baratas voadoras e esses insectos rastejantes que, mal o silêncio desce com a noite, começam o seu trabalho de sucção nestes pobres corpos consumidos pelo Oriente.
Espero a tua resposta
Luís

Piquenique

O tempo, que tudo devora com os seus apetites desenfreados,
entra por dentro do meu espírito quando Fílis me leva ao
campo, e me abre a toalha do seu almoço. Ela manda-me
comer; e eu pego com os dedos na carne fria, separo-a
em tiras de onde escorre o sumo da tarde, e levo-a à boca:
não é que tenha fome, porque o ar do campo basta para
me alimentar. Mas imagino que essa carne, que sinto
desfazer-se, me dá um gosto assassino - e gostaria
que Fílis se deitasse na toalha, para que a pudesse
olhar com os olhos de Cronos. Ela, no entanto,
levanta-se do tronco em que está sentada e segue
o exemplo das folhas da árvore que nos abriga, que
o vento sacode: e dança, esperando talvez que eu
a siga, para que se repita a história de Fílemon e
Baucis e ambos, no meio do baile, nos transformemos
em plantas para todo o sempre. «Adeus, digo-lhe,
não estou para aí virado; nem pretendo passar os meus
dias à espera que chova, para que as minhas raízes
possam sugar no fundo da terra um pouco de água
para me fazer reverdecer.» Mas Fílis não me ouve,
não porque seja surda, mas porque o vento empurra
as minhas palavras noutra direcção. E quando nos
levantamos para regressar à cidade, continuo
com fome; e mais fome tenho quando, vezes seguidas,
a vejo cair à minha frente, embora o caminho não
seja difícil. Podia olhar para ela como uma peça de
caça, e alimentar-me então do seu corpo; mas ela
volta a levantar-se, e a ilusão desfaz-se, para sempre.

sábado, maio 14, 2005

Pesca no lago

Querida Fílis
a tua carta continua debaixo dos meus olhos, e não cesso de me deleitar com os teus conselhos. Ainda não falei em frente de Públio; e não sei se a minha voz terá, junto dos seus ouvidos, o mesmo efeito que consigo com o meu corpo junto dos seus olhos. Que efeito é esse, ouço-te perguntar: pois digo-te. Parece que se transformam em pássaros, esses olhos, voando deseperados de encontro às pálpebras, como se quisessem saltar daí sobre mim, de tal forma a minha beleza o atrai. Mas não ousa passar daí, nem raptar-me, como se tivesse os pés presos ao chão. Só a sua boca ousou roubar-me alguns beijos, que no entanto não foram mais do que simples roubos de esticão, a que fingi resistir, logo o fazendo recuar, como se nesta actividade o furto não fosse a mais lícita das acções.
A tua carta fez com que eu aprendesse a libertar-me desse pudor que nos envolve, sobretudo quando um ligeiro movimento de mãos pode determinar o fim das hesitações. Receio que os outros me vejam; mas ao mesmo tempo penso que não há motivo para isso, porque não há ninguém à minha volta que não tenha já descoberto a natureza das nossas relações, e as exponha tão abertamente que não posso sair à rua sem imediatamente reparar que o zumbido das conversas se eleva, e me enleva num vasto murmúrio que vai batendo em mim, como o vento, e ao mesmo tempo que me faz tropeçar me obriga a não me deter, para vencer a sua resistência, até chegar junto desse que mal sabe os tormentos que tive de atravessar só para o ver.
Aconselhas-me a dissimulação; mas se eu lhe falar, não há retórica que me impeça de ir direita ao assunto, expondo imediatamente o que é cada vez mais claro, como se fosse a água transparente destes lagos que rodeiam a cidade, e onde em vão me debruço para ver o meu reflexo no espelho da água, não conseguindo mais do que avistar a areia do fundo, com as suas conchas, as suas pedrinhas, e os seus pedacinhos de ossos. Contudo, adivinho apenas o seu problema: se eu lhe falar, logo ele verá que fiz tudo isto para o seduzir; e se pensar que sou, no fundo, como essas que andam à sua volta, captando os seus humores como os pescadores destes lagos apanham as carpas, com as suas redes, receio que logo se afaste de mim.
Que devo fazer, então?
Corina

quinta-feira, maio 12, 2005

Gastronomia

Corina
A tua carta deu-me uma ideia: vou cozinhar uma língua de boi para o seu almoço. Vê-lo-ei mastigá-la, saboreando cada filamento, e roubando ao sabor acre da carne essa inspiração de onde parte o voo da musa. Iremos comer ao campo. Levarei a língua embrulhada numa túnica, e sei que ele gosta de as comer frias, sobretudo quando a tarde está quente, e precisamos de nos abrigar à sombra de uma árvore para que o sol não nos devore com o seu hálito de fogo. Ah, quantas vezes o vi desembrulhar o lenço em que lhe ofereci a minha língua, tirá-la de dentro dele, e começar a apreciar o gosto da carne, comentando a falta de um bom vinho para o ajudar a engolir; mas não é nada de que me não tenha lembrado, e tiro da minha bolsa a pequena ânfora, fazendo um pequeno movimento de lábios para lhe dizer que, também eu, estou esfomeada. Não é, no entanto, de comida; e sei que ele o percebe, mas a fome é mais forte do que outros desejos, e quando acaba a sua refeição deita-se em frente do vale, com os olhos semicerrados de prazer, e adormece como se eu não estivesse ali.
Enquanto ele sonha, escrevo na casca da árvore a frase «Amo-te», para que ao acordar ele a tenha debaixo da sua vista, e possa reagir em conformidade. Mas quando acordou, e viu a frase, o que disse foi: «Já aqui estiveram, antes de nós.» E deixa-me confusa, perante tanta distracção. Ao regressarmos, fingi por várias vezes que tropeçava, para que me segurasse a mão; mas ele parava, esperando que eu me levantasse, e prosseguia o seu caminho depois, como se nada tivesse acontecido.
Por isso, Corina, aconselho-te a que não dês língua de boi a Ovídio, porque o seu efeito é tão pesado que faz com que os homens andem com a testa de encontro ao chão, não vendo o que têm à sua frente. Mais vale deixá-los esfomeados, porque talvez assim procurem noutra parte o seu alimento.
A tua
Fílis

Teatro

Mas por que vens tu, querida Corina, com essa conversa? Os laços que me unem nesta cidade de Goa àquele por quem deixei Pero Vaz não se deixam perturbar pela instrumentação das nossas conversas onde eu sou a lira e ele a flauta, numa combinação que é tanto mais harmoniosa quanto se dá no cenário da praia, com o mar ameno a compensar-nos da intensidade dos nossos jogos. Mas não te direi o seu nome; ele poderá não ser aquele que Públio te revelou; e, como sabes bem, não está na nossa mão perpetuar sentimentos que são tão mutáveis como estes ventos, na época das monções, fazendo arquear as palmeiras da baía tal como o amor nos arqueia as almas, deixando-as devastadas pelo tufão do amor.
Para que não nos perdêssemos em divagações, porém, montámos um pequeno teatro onde pomos em cena o que sentimos um pelo outro. Ele (não te digo o seu nome) , tem três máscaras que vai pondo, uma após outra, e que correspondem a pessoas que nós conhecemos, e com que eu tive uma vez ou outra uma tal relação; e eu própria tanto falo como eu própria ou como uma outra que ele conheceu, e que ainda faz parte do seu círculo. Somos, por isso, cinco; e poderás perguntar-me como é possível que, onde estão dois, também possam estar cinco? É essa a arte do teatro, que faz com que nos percamos em tantos outros quantos somos capazes de sonhar; porém, não quer isto dizer que goste de todos eles; e quando ele pôe a máscara de Pero Vaz, o meu desagrado é mais evidente, porque não quero sequer lembrar-me do que ele me fez sofrer. Não te contarei como, porque só o lembrá-lo me obriga a esquecê-lo; mas quando o esqueço, logo a lembrança regressa, porque se o esquecimento é efémero, a memória não passa.
Aconselho-te, então, a deixares de ser muda; e invade os seus ouvidos com o que tiveres para lhe dizer; ou, mesmo que o não tenhas, com o que ele nunca esperou ouvir de ti, porque assim como assim mais vale uma palavra no ar do que cem línguas presas.
A tua
Fílis

Carta da muda

Minha tenra Fílis
Não sei se não terá já chegado o tempo de pôr fim à minha representação. Para mais, custa-me passar por muda, e faço o maior esforço em não abrir a boca e deixar sair as palavras que tanto desejo dizer, quando Ovídio se põe à minha frente e começa os seus intermináveis discursos sobre a caducidade da vida humana, e a necessidade de gozar ao máximo o dia que passa, como se eu o não tivesse aprendido com Horácio, nas nossas tardes de Roma, na sua vila deliciosa, ouvindo os passarinhos - que, ao contrário dos do Sá, não caíam com a tarde, mas se levantavam cada vez mais quando Horácio me ensinava a sua arte poética.
O que me impede, ainda, é que Ovídio me prometeu fazer o meu retrato, e sei que a única coisa que o atrai em mim é o meu silêncio, dado que mulheres mais belas não faltam neste Ponto, com a diferença de que, mal ele lhes toca, não se calam, e como sabes pela boca não morre só o peixe, mas também a amante. Ah, como a guerra do amor é cruel connosco, se não soubermos opor-lhe as defesas que a natureza nos deu e a ciência nos ensinou. Sei que nada disto te deve faltar, porque Lisboa é uma boa escola para quem quiser entrar na profissão da vida. No entanto, fizeste bem em deixá-la, e ires praticar o que tanto te custou a aprender nessa longínqua Índia. E aconselho-te mais: deves ilustrar as nativas no que toca à tua arte, porque não lhes devem faltar incentivos a praticá-la, e mais vale que estejam ilustradas do que a desperdiçar com gestos desastrados o seu talento.
Acabo, Ovídio está a chegar, adeus.

terça-feira, maio 10, 2005

Partida

Caro Luís
Não sei quem se anda a meter pelo meio dos meus escritos; há uma quinta coluna, um encapuçado verbal, um submarino, que resolveu transformar esta praça goesa num café lisboeta. Mas eu aviso-o: vou-me embora para a Dalmácia, e fico por lá. Na Dalmácia há bom queijo; há também bom vinho; e a Corina está à minha espera, com a língua presa, para que eu a desate e ela me conte tudo.
O problema disto é que eu até sei quem se anda a meter aqui. O Pero Vaz tinha-me avisado que não valia a pena meter-me com filósofos. Mas eu gosto da filosofia. Sigo a lógica, passo pelas antíteses como gato por vinha vindimada, e chego à dedução num ápice. Não me queiram enganar com sofismas: desfaço-os a todos, e encho o travesseiro da minha cama com eles. A meio da noite, tenho a cabeça enterrada em sofismas; mas começo a bater com as mãos nos lados, e a endireitar a filosofia, até poder voltar a ter a cabeça direita. Quando acordo, tenho outra vez as ideias às voltas na cabeça. Abro a janela, e vejo o sol a despontar, como um axioma brilhante.
Por tudo o que disse, não voltarei da Dalmácia.
Saúde
Heitor da Silveira

Pacifismo

Não é por mergulhares de cabeça na areia que ficas como o avestruz.
Também não é por teres cabeça que vais encontrar areia para te enterrares.
E por muito que estiques o pescoço, o avestruz já está onde queres chegar.

Moral da história: corta a cabeça ao avestruz.

segunda-feira, maio 09, 2005

Caminho

Há gente que não percebe para onde vai.
- O caminho é por aí.
E eles, nada:
- Mas se há uma pedra no meio do caminho, não posso ir por aí.
A única coisa que sabem é que não querem ir por aí.
- O caminho está livre, vá em frente.
E eles insistem com a pedra; e mesmo que se tire a pedra do meio do caminho, repetem que não vão por aí.
- Ai não? Pois nós também não vamos por aí.
E ficamos ao lado deles, a ver por onde é que eles vão. E eles, sempre nada: mal percebem que não vamos em frente, e que ficamos para ir com eles, começam a recuar.
- Afinal, a pedra saiu do meio do caminho, e já podemos ir em frente.
- Ai sim? Mas ainda há bocado não iam por aí!
- Não íamos, mas vamos agora.
E metem o pé ao caminho, primeiro com medo, devagar, só um passinho, depois o pé todo, e a perna, e o corpo, e lá vão eles; e nós atrás deles; mas eles começam a andar mais depressa, quando percebem que têm companhia; e nós a correr; e eles a correr ainda mais.
- Esperem, gritamos.
- Não, só sabemos que não vamos por aqui!
- Mas já estão a ir por aí.
E é tarde para pararem; e nem repararam que chegaram ao fim do caminho, e foram bater com a cabeça na pedra.

Filosofia

É nos pés que temos de pensar. Com o direito, dá-se um pontapé na pedra; com o esquerdo, enfiam-se os dedos na areia. Assim, pensamos aos tombos, e a única forma de não cair para o lado da ideia é andar a pé-coxinho. A ideia está lá; mas vamos pensando que ela é uma pedra, e se saltamos por cima dela, deixamos a ideia para trás, se a atiramos para a frente, ficamos atrás dela. A pé-coxinho é outra coisa. Perguntam-nos:
- Partiu a perna?
- Não, dizemos, parti a ideia.
- Partiu da ideia?
- Ouça bem, porque não há duas sem três. Comecei por dar um pontapé na pedra; depois meti o pé na areia; e por fim fiquei com uma ideia descalça.
O homem ficou a pensar. Pelo menos, dei-lhe uma ideia.

quinta-feira, maio 05, 2005

Questão

A única questão que te ponho, caro Públio, é esta: quem é que vai dar a cicuta a Sócrates?

quarta-feira, maio 04, 2005

Conversa a dois

Um homem veio até mim, em Éfeso.
- De onde vens?, perguntei-lhe.
- Trago o sol na cabeça.
- Mais valia que trouxesses uma ideia, disse-lhe.
E sentou-se na latrina, ao meu lado, depois de dar a moeda ao escravo que aquecia com o seu traseiro a pedra em redor do buraco. Por baixo de nós, ouvíamos o correr da água.
- Aqui está uma música de que todos gostamos, mesmo aqui.
- É bem verdade, disse ele, e foi ao ouvi-la, sentado neste sítio, que Heraclito
formulou a sua imagem sobre o tempo.
- Era este, então, o rio de que Heraclito falava?
- Sim, e como podes ver ele não perdia um instante da sua vida sem estar absorto no pensamento.
Quando nos levantámos, deixando para trás os desperdícios do mundo, reconheci-o:
- Chamas-te Diógenes?
- Só quando acordo; depois, sou todos os nomes que os outros quiserem. Mas se me quiseres chamar Diógenes, estou de acordo.
Nunca vi ninguém que fosse tão pouco ele próprio como Diógenes. Andava atrás dos cães para lhes roubar a comida, e era desses restos que se alimentava. Por isso pediu que não o enterrassem, para que depois da sua morte pudesse restituir aos cães o que, em vida, lhes roubara. Mas tentava absolver-se disso ladrando, como eles; e era ver as matilhas que se formavam, atrás dele, excitadas pelos seus latidos esganiçados.
- Em que língua falas com os cães?
- Não preciso de fazer um grande esforço. Basta falar-lhes na minha língua, e eles reconhecem logo o que lhes digo.
- Não te percebo.
- É porque não és um cão.

Críticas

Dedicou-se à filosofia porque foram incapazes de lhe explicar
o caos de Hesíodo. Em frente das estrelas, onde se abria a
imensidão do infinito, ninguém lhe soube dizer como é
que se chegava ao Olimpo. «Se é assim, tendes a certeza de
que o Olimpo existe?» Todos se calaram; e ele imprecou
os deuses para que descessem até ele, e o aniquilassem
como prova da sua existência. Mas nada aconteceu; e
o homem continuou na sua profissão de ateu, dando como
sinais certos de que ninguém tinha razão, para além dele,
o silêncio que é um atributo essencial do cosmos. «Qual
música dos planetas, qual harmonia dos astros! O que temos
pela frente é um tecido esburacado, por onde sopram os ventos
do universo!» E dava como exemplo o mar, onde as ondas
se elevavam a partir do nada, para dizer que o movimento
do mundo não precisava de uma razão, nem de qualquer
consistência metafísica para existir. «No entanto, diziam-lhe,
teve de haver um arquitecto para conceber esta existência.»
O que os arquitectos fazem, respondeu, também se desfaz;
e em seu lugar ficará um jardim, para passearmos e, enquanto
ouvimos os passarinhos, reflectirmos na vaidade dos homens.

Galés

Acreditava que o universo estava cheio de corpos. Cada estrela era um corpo. Cada cometa, um corpo que passava de uma estrela para outra, para a comunhão dos corpos de onde nasceriam outros corpos. Gostava desse espectáculo, de onde tirava a prova de que o cosmos estava em permanente fecundação. Também ele esperava vir a ser um cometa, e andar de estrela em estrela, a fazer ninguém sabia o quê, a não ser ele.

terça-feira, maio 03, 2005

Ilhas

Mais vale pensar em mim como nesse Jasão que partiu,
com o Argos, em busca do velo; e ainda hoje nem vê-lo
nem revê-lo, menos ainda quando o desvelo obriga
a ir de manhã cedo para o porto, espreitar os barcos que
esperam a hora de entrar, e em nenhum deles se enfuna
a sua vela. Mas eu, que fiquei na cidade, estou bem
longe de Jasão; e só não adormeço graças à aguardente
de ameixa que os dácios me convidam a beber,
enquanto lhes conto a história desse argonauta
que se perdeu no meio das ilhas. Foi assim: o tipo
pensou que não precisava de mapas, de sextantes,
de binóculos. «Basta-me a ajuda de Tétis»; mas
quem a Tétis queria ajudar era o outro, o Gama,
que foi da Vidigueira até Sines para apanhar
a camioneta que o levou até à Trafaria, onde se
meteu no cacilheiro até Belém, onde embarcou
no petroleiro para a Índia; e foi aí que a Tétis
lhe apareceu, com a mala, para ele a meter no
camarote, à boleia; e foi o que lhe valeu, porque
sem ela não teria descoberto o caminho marítimo,
nem o resto. Foi portanto o Jasão quem ficou
a perder, enfiado no convés, à espera do vento
favorável para chegar até ao velo. «Antes tivesse
vindo de comboio»; e começou a fazer um discurso
que nunca mais acabava, o que teve a vantagem de
distrair os marinheiros que estavam à espera que
o vento chegasse, mas como não chegava passavam
o tempo a pedir ao Jasão que continuasse o seu
discurso, o que ele fez porque se queria preparar
para o desembarque nas ilhas, onde os ilhéus
gostam é de quem discurse, para não perderem
o fio à meada. E enquanto isto, acabei com a
aguardente dos dácios, e eles não deram por nada.

Dogma

Se meteres no forno uma gota de cérebro, terás ao fim de sete ou oito meses, nove no máximo, um dogma.

A tua conta de gás é que inchará como ventre de mulher grávida.

Se o gás se espalhar pela cozinha, ficarás com uma intoxicação de dogma.

Mas não abras a janela: o dogma sairá por ela e espalhar-se-á pela cidade.

Quando saíres de casa, poderás gritar por todo o lado: «Fui eu o cozinheiro desse dogma!» Ninguém te acreditará.

Moral da história: ninguém deve fornicar com um forno.

A bordo

Querido Pero Vaz
Depois de ter escavacado as cabeças de um bando de infiéis que ainda na semana passada me pretendiam tirar o título de ser o maior do Golfo de Bengala, preparo-me hoje para partir mais uns quantos braços e pernas, antes de arrancar os narizes, a uma hoste de embuçados que recusam à força a conversão ao nosso credo. Já no Camboja meti ao fundo quantas galés e fustas fui encontrando pelo caminho, limpando o mar desses despojos da descrença, embora não tenha deixado de recomendar a Frei Afonso que, da popa da nossa nau, benzesse e baptizasse as criancinhas que arrancávamos ao colo das mães para as atirar às ondas, e isto para que elas não tivessem de passar pelo limbo, e fossem directamente bater à porta de S. Pedro. Como vês, a humanidade que a nossa mãe nos ensinou está sempre no fundo de mim, e desde que tive a esmerada educação para entrar ao serviço do Santo Ofício que o nosso rei João teve o bom senso de trazer para a nossa pátria, tenho sempre este cuidado de separar o trigo do joio quando limpo o nosso império dos inimigos que o cercam.
À noite, no convés, ouvimos os marinheiros cantar umas canções em que falam de Lisboa; e há na sua voz um choradinho repenicado que me irrita, por me trazer algumas lágrimas aos olhos, que logo limpo dirigindo-me para o mastro da Justiça, onde estão amarrados os escravos que cometeram falta; e dedico-me a açoitá-los durante uns bons minutos, o que é muito bom para manter o meu físico em ordem. Eles gritam, mas como os gritos têm por trás a música da guitarra, isso até produz um bom efeito, e já reparei que os marinheiros que cantam estas coisas têm vindo a aproveitar esta sugestão para meter nas suas canções uns pedaços em que, em vez de palavras, há o que parece ser um grito harmonioso, terminando num choro que traduz bem o fado do escravo.
Temos estado parados por causa da falta de vento; e já começam a aparecer alguns casos de escorbuto entre os passageiros que se destinam a Macau, onde contava chegar antes da época das calmarias. Se isto continuar, pego nos doentes e meto-os em jangadas; se os tubarões não lhes pegarem, talvez consigam chegar à costa da Birmânia, onde os nativos tomarão conta deles como mão de obra na construção civil. Um português no mundo nunca estará desempregado, onde quer que o acaso o leve.
Saúde
Afonso Vaz

segunda-feira, maio 02, 2005

Caminha a Ovídio

Grandíssimo Públio, se as novas da Índia não te chegaram,
nem de Cartago o retrato encomendado te ilustra a parede,
bem podes sacudir da testa a nuvem que o exílio te dá, que
não será por isso que ela deixará de te esconder o que, no
mundo, nos assombra. Que sorte é a tua, aí nesse mar que
liga à Ásia o fim da Europa, por muito que os inimigos
espreitem à tua porta. Estamos aqui, descansados, enquanto
tu impedes que os barcos dos Persas desembarquem nas
tuas praias a lança adversa; e o nosso sono não é perturbado
graças ao teu esforço, mantendo os olhos vigilantes , para
que nem na escura noite a vela infiel atravesse a linha
que contra ela traçaste. O que disse a meu irmão: «Não
ouso de falar, ouço, e sou mudo», é o que tu fazes
quando avistas o perigo, e não te gabas de o prevenir
para que nós não gritemos que o temos de remediar. Mas
deixo o que interessa; o que na corte se faz não é da
tua conta, nem as distracções de Lisboa te devem
desviar a atenção dessa água que, de um momento
para o outro, pode escurecer com as proas inimigas.
Não é isso que o outro faz, em Goa, onde a sua vigilância
se exerce nas noites de taberna, entrecortando risos
com versos; e se a manhã chega, com o seu curso
de vícios, os seus olhos roxos de vinho servir-lhe-ão
de tinteiro onde irá molhar o aparo do choro, para
que o longe da pátria lhe sirva de estímulo à caneta,
mais do que à inspiração. Tudo são fitas! Goa é
a nova Lisboa onde nenhum divertimento falta,
nem a Fìlis, que ao seu lado o acalenta, fazendo-o
esquecer quantas Natércias e Catarinas aqui deixou,
para não falar de Francisca, que continua à janela
para onde lançou os seus motes, que ela ainda guarda,
como flores que entretanto murcharam, mas ela não
deita fora, e todos os dias cheira, como se flores secas
algum perfume deitassem. Onde males e bens se misturam,
não há mão que distinga o certo do incerto, como
se a razão tivesse encontrado em tão grande desconcerto

o seu proveito, que de nada serve a quem desama

Noite de teatro

Caro Luís
Bem, podes aprovar as notícias do Ponto, e tremer perante a perspectiva desse Cartaginês que traz consigo a força dos Celtiberos, rendidos às suas promessas e enfeitiçados pelo seu perfil africano. Mas não te iludas. Nunca a tua voz lhe chegará aos ouvidos, que nunca se abriram a não ser para quem lhe fale de estratégia e objectivos. É insensível às rimas; e não o confundas com Sebastião, que te concedeu a tença quando lhe leste as tuas estrofes épicas. Não será este uma nova maravilha fatal da nossa idade; e não te irá visitar quando, nos teus últimos dias, te soergueres do catre, em direcção à porta, na esperança vã de que te virá confortar os últimos dias.
Mas não te desiludo mais. Em Lisboa, há ainda quem viva na ilusão de que nem tudo está perdido. Coitados, viram cair Viriato, erguer-se Sertório, e nem a queda de um e a subida do outro lhes ensinaram que amanhã virá quem vai fazer cair Sertório, mesmo que Viriato, mortalmente ferido, não mais se volte a erguer do seu monte santo. A Ibéria sempre foi um problema sério para os Romanos; e mesmo quando tem um romano à sua frente, como é este Sertório, não se lhe conhece suficientemente o latim, que ele poupa ao máximo porque, como aprendeu com a lição de Viriato, que sempre que falava dizia asneira, pela boca morre o ibero. E mesmo que ele seja romano, quem governa os iberos faz-se um deles, a não ser que queira ser apontado com o dedo como louco, porque só um louco deixaria a sua terra para habitar entre tal gente, e mais ainda, para a governar.
Mas deixo isto, e peço-te apenas que digas a Fílis que ainda tenho comigo o bilhete para ir ao teatro ver a última comédia do Gil Vicente; e se ela não quiser, como em Roma sou romano, muitas outras Fílis me hão-de bater à porta para que eu lhes dê o bilhete que ela despreza.
Pero Vaz

Novas de Cartago

Caro Pero Vaz
Não esperava que me escrevesses tão cedo, nem que me trouxesses notícias tão tristes da tua Fílis, cujo ausência te faz andar tão curvado como os burros que atravessam as nossas cidades, carregados com o peso das suas ideias. Aqui, tenho estado ocupado com as notícias que dão como iminente a ofensiva de Aníbal. Como sabes, o cartaginês é por natureza belicoso e não suporta a inactividade. O problema é que não tem quem lhe faça frente; e a falta de estímulo para a batalha pode ser um factor de desânimo para um homem que não gosta de perder o tempo em escaramuças. Sendo certo que já tem por trás de si os elefantes necessários para a ofensiva, a falta de água do rio que tem de atravessar fá-lo ainda sentir-se como um gigante a molhar os pés no riacho. Mas daqui até ao Inverno ainda há chuva para vir, e voltar a encher o leito, para que ele possa dar as suas braçadas vigorosas, ferindo a corrente para exemplo de infantes e ginetes. Ainda não há muito, só as suas palavras degolaram um general que, por algum tempo, ousou fazer-lhe frente; e a sua cabeça enfeita ainda os muros da capital, para exemplo de outros inimigos. Se soubermos a sua história, porém, saber-se-á que mal conquiste a cidadela não deixará de degolar todos os lhe fizeram frente; e não repousem os que contam com a sua boa vontade, porque nenhum cônsul dispõe de bandos com suficiente força para impedir a passagem desta legião.
Assim, quem estará disposto a travar combate contra ele? Não conheço homens desesperados que possam ir buscar à derrota certa a ânsia de salvação; e nenhum mercenário gostará de seguir o exemplo desse cuja cabeça, por vezes, ainda balouça com o vento do extermínio à vista de todos. Não esperem os aliados que ele os trate com amabilidade, nem queiram dele o generoso benefício. Quando o seu saco de dúvidas se esvaziar, vê-lo-ão encher-se de certezas, como se nunca outra coisa lá tivesse estado; os que o defrontam, preferem a técnica à audácia, mas deviam saber que a Fortuna protege mais os que a conhecem do que os que pretendem passar sem ela, e acabam engolidos pelo pó e o fumo das emboscadas.
A única esperança para os seus adversários será a sua vitória; porque é nas vitórias que as novas alianças se constroem, e serão os que se lhe juntarem, atraídos pelo cheiro do triunfo, que o irão isolar das suas tropas, fechando-o nesse reduto em que só a adulação fortalecerá a torre contra o assédio. Mas, como sabes bem, qualquer vento brando deitará por terra esse frágil equilíbrio; o que só irá suceder, no entanto, muito depois de as suas bandeiras flutuarem sobre o edifício da república.
Públio

domingo, maio 01, 2005

Cavalgada

Públio:
Conheceste então os cavalos da Frígia, correndo
à desfilada por entre os cedros e as heras que
rodeiam o pântano estígio? Sorte a tua em não
te teres enredado nesses ramos que puxam
para a água de onde ninguém regressa o
desprevenido caminhante. Não se deve
passear nessas margens, sobretudo quando
o espírito se encontra suspenso de outras
paragens; e não convém ouvir as vozes
que nos chamam de dentro do bosque, por
mavioso que esse som nos pareça. Qual
outro Ulisses, poderás pedir aos companheiros
que te ponham nos ouvidos a cera que
te permita atravessar as frondosas árvores
sem perigo de desvios; e quando estiveres
a chegar ao fim, se a curiosidade te
obrigar a destapá-los, pede-lhes que
te segurem, para que um último apelo não
te obrigue a voltar atrás, até onde o regresso
te seja impossível. Não abandones o navio,
como Palinuro, no meio do temporal; e
segura bem o leme, quando os ventos
crescerem com o Inverno que a triste
Ceres provoca, lamentando a ausência
da florida filha. Esse Inverno, que também
eu atravesso quando penso em Fílis,
limpou todas as folhas deste jardim,
excepto as que enfeitam os ciprestes
que bebem a sua seiva na carne dos
mortos. Abriga-te à sua sombra, e canta
as saudades do ocidente, mesmo que
Corina não te possa ouvir. A alguém
chegará o teu canto; e de dentro de
uma das casas de Mármara, no meio
da noite, uma voz te responderá.

A língua lusitana

Quando li a carta ao Heitor da Silveira, que as marés do Índico me trouxeram às mãos, descobri por entre as linhas riscadas muita coisa que me diz respeito. Quem diria que alguém, em Lisboa, se iria lembrar de mim, perdido nos confins do Mar Negro - mas não sei como poderei chamar agora a este mar, na tua língua portuguesa, depois das medidas que estão a ser tomadas para a limpar de vocábulos ofensivos. Será o Mar Antitético do Branco? O Mar da Cor que se não pode Dizer? o Mar Escuro? Talvez isto seja um trabalho de barbeiro, limpar a língua de todos os pêlos que picam as várias sensibilidades do Homem; mas quem pegar nessa gilete tem de escanhoar bem os dois lados da cara, para não se ver obrigado a mostrar só um.
Estava eu então nas margens do Mar sem Cor, preparando-me para cuspi para a água, como gosto de fazer, num concurso comigo próprio que se destina a saber se consigo cuspir para lá das ondas, quando se chegou a mim um tipo que me disse: «É proibido cuspir para o mar.» Como tinha o cuspo na boca, cuspi para cima dele, o que me parecia lícito fazer dado que a proibição de cuspir não se estendia às criaturas vivas. E queres saber o que aconteceu? Disse-me: «Vejo que és um conhecedor da filosofia.» E tu, disse-lhe eu, és um homem, porque andas sobre duas patas e não tens penas. Ele, então, cacarejou; o que me fez pedir-lhe desculpa: «Afinal não passas de uma galinha depenada». E empurrei-o para dentro de água, onde começou a dar braçadas levantando uma mão sobre a água, o que o fazia nadar de lado, à maneira dos peixes voadores. «Por que fazes isso?» gritei-lhe. «Para fazer como o Camões. Também eu poderei, um dia, naufragar, e estou a treinar para poder salvar o meu livro de Pensamentos». O homem, então, não passa de uma frágil cana que, quando se solta do canavial e cai à água, flutua enquanto a corrente não a partir completamente, atirando-a para o fundo. Por isso o homem em quem cuspi treinava para que alguma coisa sobrevivesse da sua existência precária; e mesmo que sejam apenas os pensamentos, já não é mau, porque pensar é meio caminho andado para andar à tona de água.
E não me digas «cruzes, canhoto!» porque estarás a ofender todos os que escrevem com a mão esquerda; diz antes «Cruzes, esquerdo!»; mas também aqui estarás a dar preferência a uma religião sobre a outra. Talvez «Crescentes, esquerdino!» seja uma boa solução, que será aplaudida por quantos procuram que a língua não contrarie um uso para todos os gostos. E também eu, depois do meu encontro com o nadador no Mar às Apalpadelas, irei tentar que todos gostem da minha língua, sem excepções.
Cuida-te

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