sábado, abril 30, 2005

Carta de Lisboa

Caro Heitor da Silveira
Desde que levaste a minha Fílis, o coração ficou-me mais leve, mas a cabeça tornou-se pesada – é o peso da ausência, dir-me-ás, com a tua generosidade; responder-te-ei que é o peso do seu corpo, que tenho inteiro em cima de mim, e me faz andar de ombros curvados, como se tivesse mil anos. Mas não é isso que importa, agora que a pátria sente a tua falta, e todos os dias são tomadas medidas que nos arrastam para esse desastre que o Sá anuncia, nas suas cartas, e a que ninguém põe termo. O rei que passa os dias a coçar-se, com a sarna; o príncipe que não sai do quarto, desde que se casou, e que a cada dia que passa vem definhando do cansaço e do jejum a que os deveres conjugais o obrigam, e a corte que não quer outra coisa senão festança, à espera da Dona Constança – são estas as realidades que tenho de enfrentar quando acordo. Mas como se isso não bastasse, mal me levanto, lá tenho a Fílis em cima de mim, com a sua ausência a pesar cada vez mais. «Quereis banho, senhor?» diz-me o escudeiro, trazendo-me a bacia com a água quente que tirou da panela; e eu atiro com ela para o chão, queimando-lhe os pés. Como sabes, não há nada pior para a saúde do que um banho, logo de manhã. O corpo lavado atrai os insectos; e prefiro expulsá-los com o odor natural para que não me punam com a sua insaciável sede de sangue humano.
Imagino que terás o mesmo problema em Goa. Mas o Camões, que desde que o conheço tem a mania de se lavar todos os dias, deve andar completamente chupado de mosquitos e percevejos. Como pode Fílis ter-se aproximado de semelhante criatura? Nada disto tem a ver com o Sá que, lá no seu campo, tem a Maria Pimentel a tomar conta dele. Avisei-a: «Não deixes o Francisco banhar-se.» Não sei se ela seguiu o meu conselho. Mas na província a piolheira não é tão grande como em Lisboa. E à noite, quando saio por estas ruas, não é raro apanhar com os despejos que fazem das varandas. O melhor é andar de nariz tapado, e olho alerta, mesmo que a escuridão nos faça andar a passo de caracol.
Mas o que te queria dizer é que avises o Camões que tome cuidado com o peso de Fílis, sobretudo quando ela se afasta dele. Já sei que te vai trazer o exemplo de Corina; mas a Corina não abria a boca, como diz o Nasão, e quando não se ouve o mal de que sofremos pode ser que passe, como ele passou por exílios e desterros sem se incomodar com outra coisa que não fossem os versos que o arranhavam, feitos por esses maus poetas que ele tinha de aturar de cada vez que entrava no teatro, para onde o empurravam as suas obrigações de romano.
Não é o meu caso. Quando eles abrem a boca, nos serões do paço, os meus ouvidos ficam tão tapados como o meu nariz nas ruas da cidade nocturna. Vejo apenas as bocas a mexer, mas o que delas sai é só ar, para mim, e não as palavras que só ouço quando é um dos meus amigos que salta para o púlpito. Por esta causa acontece que não gostam muito de mim; e até me acusam de ter inveja do Luís, a quem podes dizer que não tapa um gigante a sombra de um anão; a não ser que o anão me apareça com a Fílis às costas, e assim talvez esse Vaz consiga ensombrar-me leve, levemente, como se fosse gente. Mas chega de te incomodar com os problemas do teu
Pero Vaz.

Episódio do cerco

Helena deu-me a volta à cabeça: vi-a no cimo
da muralha, de túnica desapertada; e enquanto
imprecava os deuses pela morte de Heitor, o
vento desapertou-a ainda mais; e quando Apolo
saiu de dentro das nuvens, para a acariciar
com os seus raios tépidos, mais ainda Helena
despojou a sua pele para oferecer aos Gregos
o seu corpo, tributo que estes não desdenhariam
se não estivessem, também eles, imobilizados
pelo gesto de Apolo. Só quando ela se retirou,
puxada para o interior do palácio pelos servos
de Príamo, o exército átrida reagiu, lançando-se
contra as muralhas com o ímpeto que a visão
de Helena aumentou ao rubro; e um a um
foram partindo as lanças contra a pedra, enquanto
do alto os troianos despejavam azeite a ferver
sobre as suas cabeças. Estas, porém, já
estavam escaldadas, e o azeite não era
mais do que água fria que os ia arrefecendo,
quando voltavam atrás a cobrar novo fôlego.
Só quando Aquiles, ainda com a mão no
calcanhar, regressou ao campo, eles
ganharam juízo para o ouvir: «Segui o
conselho que vos dou: e esperai pela noite
de todos os cavalos!» Com estas palavras,
desanimaram; e, regressando aos navios,
voltaram a vestir Helena com as vestes
do desencanto, para que não mais a imagem
da mulher possuída por Apolo os enchesse
do seu feitiço, enlouquecendo-os contra
as muralhas. Não tiveram conta, nesse dia,
os que passaram o Letes com a sombra de
Helena nos braços decepados; nem os que
gritaram, uma noite inteira, o seu nome,
até que Menelau deu ordem aos Aqueus
para que lhes cortassem a língua, e a noite
por fim regressasse ao seu silêncio.

A cabeça perdida de Heitor Troiano

Camões
Sabes muito, mas o muito que sabes não é nada ao pé do que o Homero me contou, uma noite em que o vinho do Egeu lhe desatou a língua. Foi na esquadra de Mileto que o Aquiles acabou o trabalho. O Príamo estava estendido na maca, levado para ali com a ajuda de Antíloco e de Menelau. «O que lhe vais fazer?» perguntou o filho de Peleu a Ajax. «O Agamémnon já lhe teria dado cabo do canastro, em vez de o ter poupado em pleno campo de batalha». Aquiles levantou-se contra ele, mas Ulisses agarrou-o; podiam ter-se engalfinhado no interior da barraca, e partido as paredes, até não restar pedra sobre pedra. No meio disto, o Heitor acabava de se esvair. Já pedira que o não atirassem aos cães; e também pediu que o entregassem a Príamo, para se despedir dele, e para dizer a Helena que podia partir para a Grécia, a não ser que quisesse seguir o caminho de Proserpina, e atirar-se das muralhas para não voltar a ser capturada por Agamémnon. «Pensas que ela vai fazer isso? Como te enganas com as mulheres», disse-lhe Aquiles; «sei que ela não espera senão que nós entremos na cidade para nos contar como tu a raptaste, contra sua vontade, e como está disposta a regressar ao tálamo!» mas Heitor, com o que lhe sobrava de voz, gritou: «Tu é que não percebes nada de mulheres, Aquiles; o que a Helena me disse é que, se me acontecesse alguma coisa, se vestiria de homem e não descansaria enquanto não espetasse uma faca no calcanhar de quem me tivesse ferido mortalmente». Aquiles empalideceu, ao ouvir isto, vendo que o seu segredo estava descoberto. Com um gesto brusco, pegou na adaga e tirou a cabeça a Heitor, fazendo com que ela rolasse pelo chão até sair pela porta, onde os Gregos a apanharam e a atiraram para o alto da muralha. Príamo, que assistia a tudo, apanhou-a pelos cabelos, e levou-a para o palácio, onde a colocou no meio das outras cabeças dos melhores guerreiros de Tróia, à espera que os sacerdotes viessem acender a pira para terminar as exéquias. Entretanto, na esquadra, Antíloco e Menelau seguravam Aquiles, que queria ir com a sua lança bater à porta de Tróia, ameaçando que partia tudo se não a abrissem. Deram-lhe a beber uma garrafa inteira de aguardente de figo, mas só conseguiam que a sua fúria aumentasse. Finalmente, conseguiram levá-lo para o seu acampamento, onde o entregaram aos Aqueus. O que é certo, disse-me Homero, é que o Aquiles só se agarrava ao calcanhar, como se tivesse sido mordido por uma víbora. E foi isto que aconteceu.
Públio

sexta-feira, abril 29, 2005

Homero

Nasão
Estás-me a pôr um problema quando me falas de Pérgamo. Também lá quis ir, seguindo o caminho de Homero. Apanhei a armada onde seguia Garcilaso e desembarquei na costa de Esmirna, disfarçado de mendigo. Não me foi difícil, com a venda a tapar-me o olho, que me confundissem com um pedinte, e fui-me alimentando de figos e tâmaras até avistar os velhos templos, com as suas colunas decoradas de deuses e ramagens. Ninguém conhecia o velho Homero; mas lá consegui chegar aos arrabaldes, onde me indicaram uma cabana que, em tempos, o abrigara. Bati à porta; e apareceu-me um velho com o rosto carcomido pelos séculos, que me disse que já sabia que eu o iria visitar. «Sei tudo sobre ti», disse-me. E para não perdermos tempo, ensinou-me as duas regras para escrever a épica: «Acção, e mais acção». «Só isso», admirei-me. «Só». Depois encostou-se ao canto do catre e tirou um velho manuscrito de dentro das mantas. «Tenho estado a escrever outras coisas». Começou a ler. Não percebi o seu grego, com as variantes dialectais da Ásia; mas o ritmo entrou-me na cabeça, e desde então não me tem saído da memória. O Garcilaso bem me avisara: «O homem é louco, mas fascinante. Não me esqueço da maneira como me contou que o Aquiles poupara a traqueia de Heitor só para que ele lhe pedisse a compaixão de um último gesto: sabia, ao ínfimo pormenor, o sítio em que o ferro parou, e imitava na perfeição o vagido com que Heitor suplicou que não o entregassem aos cães». Com esta frase no espírito, perguntei a Homero: «É verdade que Príamo possuiu a filha de Altes?» O velho riu-se: «Essa, e mil outras! Queres que te conte?» Foram mil minutos inesquecíveis, um por cada uma! E não te quero enganar. ele sabia de cor cada nome, e cada data precisa dos factos. Foi por isso que o homem teve tanta complacência para com o filho - quando o deveria ter expulso da cidade, com essa malfadada Helena. Mas suponho que a vista de Helena deve ter agido sobre ele. «Mil e uma?», perguntar-me-ás. Não creio: na sua idade avançada, já não precisava desses entretenimentos. Lá chegaremos todos! Maldito esse dia!
Diverte-te

quinta-feira, abril 28, 2005

A caminho de Pérgamo

Caro Luís
Vou então explicar-te por que não fui a Pérgamo: deitei-me tarde, ao lado de Corina, que continuava muda e queda, com os cabelos a servirem-lhe de veste nocturna. Uma candeia de fio de óleo dava-nos uma luz que ia empalidecendo à medida que o tempo passava, até nos deixar na mais completa escuridão. Comecei a contar a Corina a minha viagem à Grécia e à Sicília; e ela só se ria, quando lhe descrevi o templo de Príapo, cujas colunas sustentavam a fecundidade do universo. É verdade que a forma particular dessas colunas podia suscitar a alegria dos peregrinos; mas quando eles percebiam que qualquer instante de fraqueza poderia fazer baixar o tecto de mármore até às suas cabeças, rezavam para que se mantivesse a dureza do edifício, elevando as suas orações ao nível dos velhos hinos sáficos. Não tive, nessa viagem, um momento de repouso; pelo contrário, juntei a minha voz ao coro dos sacerdotes, e todos cantávamos para que as vestais abandonassem o seu voto absurdo, e viessem celebrar connosco o desejo primaveril. Como sabes, na Sicília, quando é a altura de as árvores iniciarem a sua primeira floração, somos cobertos por verdadeiras nuvens de esporos, e o que respiramos é essa espuma branca e seca que se transforma numa única semente para o renascimento da terra. Temos de abrir caminhos com as mãos, sacudindo a florida névoa da frente dos olhos, até chegar às falésias onde os primeiros conquistadores ergueram as suas cidades. Visitei-as, dizendo os meus poemas nos seus teatros, sob o aplauso de habitantes que não desdenharam dizer-me o seu apreço pela minha arte; eu é que os desiludi. Como poderia satisfazê-los se o meu objectivo era Pérgamo? Então, Corina soergueu-se, descobrindo a brancura do seu corpo num breve luzir da lua. Percebi que estava a ser vítima de uma alucinação de Diana; e saí do leito onde jazíamos, correndo a fechar a janela para que não houvesse o perigo dessa contaminação luminosa. E queres saber? Não consegui reencontrar o caminho para a cama! Tentei voltar, às apalpadelas, e só batia em paredes, armários, ânforas, colunas, fazendo um ruído dos diabos! Por trás de tudo, chegava-me, de vez em quando, o riso de Corina; mas cada vez mais distante, como se viesse de dentro de um poço, ou de cima de telhado. Acabei por me sentar, e assim fiquei, até que a manhã chegou e adormeci. Foi assim que perdi o autocarro para Pérgamo.

Carta a Caminha

Pêro Vaz:
Os teus vícios vencem-me ; não sei o que hei-de fazer
a esta lassidão que me prostra quando as tuas palavras me chegam
às mãos; pode ser que elas encontrem algum leitor nessa
Lisboa de que Heitor da Silveira me conta o deslumbramento –
mas o que lembro de Lisboa é o cheiro do Limoeiro,
onde me puseram no meio de quanta ralé o Rei conserva
para quando novas naus saírem ao oceano, vestindo-os
de escura sarja que logo as suas peles doentes irão sujar,
gritando ao ritmo dos remos que levam os nobres
ao seu destino. Quando chegam, e as populações
se juntam na praia para o desembarque, saem primeiro
fidalgos e oficiais, com as suas damas, e depois
os comerciantes, e só depois essa legião de famélicos
remadores, agrilhoados, para não fugirem, e se perderem
nas selvas em volta. Alguns conseguiram-no; e
jazem o dia inteiro em redes, que as indianas balouçam,
dando ordens, como loucos, para que os macacos
saiam de cima deles. A esses novos senhores não faltam
mulheres nem filhos; e penso, por vezes, que poderia
seguir o seu exemplo, se não me prendesse a Goa
essa Fílis que, sempre que se fala de ti, empalidece,
como se a tua sombra continuasse na sua alma. Então,
Afonso Vaz recita-lhe a elegia em que falas da sua
brandura natural; onde ela ficou, essa brandura de que
eu bem precisava para que este céu não me oprimisse
tanto! Só quando a noite cai, e na escuridão quase
nos não vemos, os seus olhos voltam a brilhar,
mostrando-me o mais doce dos caminhos.

Carta de Caminha

Graves cousas me chegaram aos ouvidos, Nasão, vindas
desse Luís que me roubou a Fílis! Que o Sá come as aves,
diz ele, como se não fosse vegetariano esse Miranda,
tão avesso a carne de passarinhos como a vê-los dormir
nos seus ninhos. Por isso manda os servos enxotá-los,
ao fim do dia, para que o seu canto se espalhe por
todo o campo – e, de súbito, num grito, manda-os
calar, para que caia, com toda a calma, a tarde,
enquanto a lenha, com todo o repouso, na lareira
arde. Ora foi essa Fílis que, um dia, fria e fera,
me empurrou da sua porta; e logo nesse dia embarcou,
levada por meu irmão Afonso Vaz, para a Índia,
onde a esperava Heitor da Silveira; e por eles soube
quantas galanterias lhe faz Luís, a que ela responde
com outras tais, o que me obriga a sentir minha
cabeça cabisbaixa, por força da frecha com que
Fílis me fere. Mas se morro de inveja, não me
pesa já a sua ausência, porque bem sabeis que
por cada Fílis que se vai logo outra vem.

O sono do tribuno

Grosseira criatura: antes te dirigisses à mulher por quem passaste, num ápice, como se ela não te pedisse uma palavra! Podias ter-lhe dito, apenas, que te esperasse , enquanto davas a volta à casa; e no regresso ela ainda ali estaria, sabendo que lhe irias descrever essas constelações que um velho pintor deixou inscritas na abóbada do salão. Falar-lhe-ias, sobretudo, do Cisne, com o seu pescoço pintado de vermelho, como se um golpe de cometa o tivesse degolado; mas ela não se importaria, nem os seus braços se fechariam aos teus, apesar da sangrenta evocação. Terias tu medo de que ela fosse para ti uma nova Eurídice? Mas a verdade é que não estás no inferno; nem, à tua passagem, as sombras se juntaram, para te pedirem que as levasses contigo, de volta à vida.
E isso lembra-me que tenho, também eu, de sair de entre estas sombras que por aqui andam, alimentando-se de comentários e imprecações, como se não houvesse em Goa faisões e perdizes que, bem melhor do que tão soezes palavras, nos enchem a barriga! Basta sair dos pátios, e de junto das cisternas, para encontrar as mesas recheadas de apetites e desconcertos, como se não bastassem os frutos que qualquer escravo colhe das árvores, e vende por menos do que um ceitil nas ruelas que levam à cidade. Não te assustes se te disser que é entre essa gente que eu vivo: prefiro a sua estima à desses que frequentam as tabernas, onde o vinho nasce do chão, e jogam dados e cartas enquanto a noite não chega; e também pela noite dentro, até que a manhã os prostra, com o seu hálito fétido do calor.
Também tu terás à tua volta os tribunos estéreis do exílio, proclamando altos destinos, como se não tivessem feito a sua medida pela dos vermes que os perseguem! Tenta convertê-los: poderás fazê-lo no Teatro, que eles enchem com a sua presença togada, recitando-lhes versos de Homero ou sentenças de Heraclito. As suas cabeças irão pender, como esses grandes frutos do Outono que ninguém colheu, e embora estejam lustrosos por fora, estão cheios de podridão no seu interior. Terás de os avisar para que não adormeçam de vez, e não caiam do assento, para que a cabeça não bata na pedra e não se abra, deixando sair a fétida massa. Os mais sonolentos, manda-os para casa, levando no pensamento uma ou outra das frases que lhes recitaste; e ao chegarem ao catre, antes de se deitarem, repeti-la-ão, num ritmo de jambo, para melhor entrarem nesse sono negro que os distingue.
Um deles, que dizia, como Safo, «Donzela, donzela, para onde vais agora?», ficou sem voz, de tanto que a pergunta se lhe enrolou na garganta. Por fim, só um fio de voz dela saía, e já estava profundamente adormecido, sem se dar conta de que a pergunta ainda o atormentava! Talvez por isso, em vez de deixar as mãos soltas ao longo do corpo, se agarrava à almofada, prendendo-a a si, como se a estivesse a confundir com a donzela da ode! Bem podia o servo que o ajudava bater-lhe nos dedos, para que a soltasse: rasgou-a toda, durante a noite, e acordou com as penas do recheio a taparem-lhe a cara; e de tal modo se assustou, imaginando-se já no meio de uma legião de abutres que lhe comiam o intestino, que logo ali morreu, sem nada ou ninguém lhe poder valer.
Por isso te peço que não adormeças, como eles; e que guardes o teu juízo são, por entre a turbulência dos loucos.
Salve

Objurgatória

Se a fortuna não deixa que acedamos ao
sonho, quando a lemos nas mãos que
o destino oferece a quem passa, melhor
será que nos dirijamos a essa jovem que
domesticou o coelho para que, de entre
os papéis dobrados na mesa, retire aquele
que te dirá para onde vais. Mesmo que
não compreendas a sua língua, pode ser
que o modo como a sua voz ressoa, ou
o olhar que te deita, te indiquem o que
tens de fazer; e se não o souberes adivinhar,
ou se o medo te prender as pernas ao
chão, como planta seca, faz-lhe a pergunta
que te incomoda. Ela responder-te-á,
nessa língua que só os deuses conhecem;
poderás compreendê-la, se estiveres
atento aos seus lábios - e reconhecerás
o nome do porto a que te te deves
dirigir, invocando Circe e Calíope,
para que nenhum obstáculo te detenha.
Então, Públio, o peso da viagem não
te irá deter; e se roubares ao destino o que
ele te recusa, poderás medir a distância
que falta para que as portas se te abram,
dando-te a passagem para esse átrio
onde não precisas que a sina te seja
favorável. Atravessá-lo-ás, até chegares
junto dessa a quem o alvoroço deu
um assomo de rosa no rosto; mas se
passares por ela, sem te deteres, como
se a não tivesses visto, conhecerás
na sua pele descorada a palidez de
uma desilusão de que tu próprio, sepultado
nos teus males futuros, tens agora
a experiência. E digo-te: não olhes
para trás! A leitora de sinas, que te avisou
do que poderia acontecer, ri-se, algures,
sabendo que não a ouviste. A que te viu
passar, também ela passou; e terás
todas as portas fechadas no teu caminho,
até esse último pátio onde o círculo
se fechou, sob a abóbada do destino.

As sombras na muralha

Quanto pássaro há, aqui na Índia, que não se cala! Mesmo os passarinhos, de bico fininho; e o mesmo se pode dizer dos passarões, bem grandalhões. Bem dizia o Sá, que caem com a calma as aves; caíam era com as pedradas de funda que os criados dele lhes atiravam, não só para os calar, mas para bons grelhados, que o poeta chupava até ao ossinho! Logo de manhã, caro Públio, vou à muralha, onde fico a ver os grandes enxames que se agitam à minha frente, como voláteis nuvens, juntando todos os pios do mundo numa única estrofe. Vais dizer-me que é uma ocupação inútil; mas enganas-te. Cada pássaro tem o seu discurso: desde as andorinhas, que cruzam as rimas delas com as minhas, até à gralha, que ri por dá cá aquela palha. Quando me canso, bato as palmas; e saem-me todos da frente, fazendo com que o céu fique tão claro como os olhos de Natércia.
Então, resolvi fazer uma experiência com o meu Parnaso. Abri o livro, e saíram aqueles enxames de versos, tão ruidosos como os bandos alados; bati as palmas; e quando esperava que os versos dessem à asa, deixando-me as páginas tão limpas como o céu, foi o contrário! De onde tirei uma conclusão que não desagradaria ao teu Diógenes: bater as palmas só dá calma quando a alma se espalma. É o que me acontece quando leio as minhas odes aos soldados que, quando o calor aumenta com a tarde, se encostam à muralha. Cada palavra é um bater de mão nesses corpos tisnados pela salsugem da viagem; e o que sai de dentro deles é uma poeira marítima que chega a fazer um nevoeiro por entre as sombras da parede; quando me calo, e a névoa desparece, não vejo ninguém! Foi como se as minhas palavras, ao baterem-lhes nos corpos, os tivessem desfeito nessa névoa de calor que nasce da obscuridade.
Como vês, a poesia sempre serve para alguma coisa.
Vale!

Lições da Ásia

Caro Luís
Regressado do mar, onde ouvi os pássaros do ocidente que se juntavam sobre as cabeças dos cidadãos de cabeça perdida, reencontro a Cidade virada do avesso. Não te enganes, porém: aqui, na Dalmácia, virado do avesso só quer dizer que o avesso está direito, porque tanto faz o direito como o avesso aos que se encontram para acertar as contas da República. Quem me explicou isto foi o cínico Diógenes, sempre ele, sentado numa pedra de Éfeso, que o devia magoar nessas partes que todos os homens sentem como mais sensíveis; mas antes de se sentar, ele convencia um escravo a sentar-se na mesma pedra que ia utilizar, para depois o insultar, dizendo que não havia nada mais vil do que viver sentado numa pedra, quando havia tão bons montes de erva macia onde se podia passar a tarde na contemplação do infinito; e mal o escravo se levantava, para seguir o seu conselho, logo ele ocupava a pedra, que o escravo aquecera, e sentia o mais doce conforto na mais áspera rudeza.
Foi assim que ele convenceu Alexandre, quando este passou pela cidade a caminho da Ásia, a sentar-se ao seu lado; e Alexandre, que bem podia perder o tempo em melhores distracções, aceitou o convite. Mas mal se sentou, logo Diógenes encostou a cabeça ao seu ombro, obrigando-o a um gesto de surpresa. «Por que te espantas, senhor?», disse o Cínico: «Não sabes que um traseiro duro exige uma cabeça mole?» E logo Alexandre ordenou que trouxessem as mais ricas almofadas da Trácia para assento do filósofo, com receio de que a sua cabeça amolecesse à força de se sentar em tão dura pedra.
Com efeito, caro Camões, não há como um Filósofo para virar do avesso a cabeça do Poder; e quando esta se vira, mostrando por um instante a sua fraqueza, cabe ao Filósofo enterrar no chão núbil a lança da inteligência, esperando que o bom senso possa nascer de tão fugaz fecundação. Porém, não te deixes surpreender por tudo o que te digo. Mais coisas virão, e de tudo o que não digo irá surgir um sentido que extraio das lições que o Cínico me deu, estendido nas suas ricas almofadas, enquanto o vento asiático nos refrescava.
E não adormeças tu à conta do Índico!
Públio

sexta-feira, abril 22, 2005

Ode a Cibeles

Não insistas, Cibeles, com o teu deplorável uso
de dormir em pé, enquanto nós - mortais - nos deitamos
nos duros colchões da Síria. De manhã, quando nos
levantamos, com a pele ensanguentada e o pescoço roído
pela bicheza nocturna, tu estás limpa como o céu que
descobrimos ao sair de casa; e quando avançamos pela
rua, pisando as pedras de mármore onde os escravos
deixaram os seus sinais, em vão puxamos a túnica
até ao queixo, para esconder o sangue que ainda escorre.
Tu, então, condoída, estendes-me o teu lenço que as Parcas
bordaram numa tarde de distracção. Pego nele, para
me limpar, e as feridas fecham à medida que o tecido
me impregna com o seu bálsamo divino. Então, exiges de
mim um presente suave: e dou-te esta ode, que hás-de
ouvir até ao fim dos teus dias, e levarás contigo como
pretensa mercadoria - vendedora de palavras, por onde
passares reunir-se-ão à tua volta os feitores da poesia,
recolhendo rimas e estrofes nos seus sacos de estopa,
tingidos de púrpura. O que te prometo, apenas, é que
os meus braços defenderão a entrada do templo que te
recolhe; e quem quiser adorar-te terá de suplicar a
minha condescendência, que serei parco em satisfazer.
Talvez se me tivessem posto à entrada desse bairro mal
afamado, não fosse tão avaro do meu gesto: é que
as práticas das cortesãs não se assemelham às tuas, nem
os seus lenços curam os enfermos, cujas práticas
detestáveis as infectam, para que outros, ao sair das
suas casas, tragam para o mundo o secreto unguento
do vício. Quanto ao resto, deixo-o a quem não te
conhece, nem nunca sentiu na pele o teu hálito doce.

Carta de Goa

Quem pode saber o que lhe sucede, num mundo
virado do avesso, se tudo o que há para ver são
vidas que nada oferecem senão seu próprio
desconcerto, mudado para pior se alguém o
nega, e para péssimo se o que dele se tira
é a lição para os outros que nele se revêem?
Não há Fortuna capaz de o dizer, nem a
língua de Corina irá trazer ao que é certo
o incerto, no silêncio que a envolve de mel,
quando ao mundo mostra a beleza que
espanta a razão e afugenta o sono; e
porque tu, Ovídio, pisando as areias
douradas do delta, te aproximas do lugar
de onde não há retorno, lançando à água
as redes onde o peixe errado se deixa
prender, não é caso para que te ensine
outra usança, senão que não é próprio
de homem recusar a mão que o fado
lhe destina. Deixo agora a outros o
cuidado de ver no que digo o que nunca
disse, ou de me subjugar sob a esfera
da fama, que só aos ricos concede o
espírito de quem alcança quanto quer;
mas não te canses - e procura nas terras
em que estás, e não nas que sonhas, a
imagem que te ocupa, em cada noite,
é que não vês quando acordas. Segue,
apenas, o brusco gesto de Diógenes,
afastando da tua frente o que te impede
de ver o Sol; e segue a Corina, nessas ruas
sem fim, até ao fim que só ela te promete.

quinta-feira, abril 21, 2005

Carta do Ponto

Caro Luís
Hás-de dizer às minhas amigas aí de Goa que as não esqueci; nem a Corina me tira da memória esses dias que passei em frente do Índico, saboreando a vista da praia debaixo dos jacarandás. Não estou a dizer que a Dalmácia tenha menos encanto do que essas praças fortes, onde tu serviste a pátria ingrata, ao mesmo tempo que ias fazendo o farnel literário de que tantos, depois de ti, se têm vindo a servir. Sei que muitas das tuas imagens nasceram do que leste na minha poesia; mas isso é natural, e não te censuro por te teres aproveitado do que eu deixei aos vindouros; se o resultado é bom, excelente, não quero outra coisa. Lembro-me de termos falado neste assunto um dia, em frente do palácio do Vice-Rei. Bebíamos um gin-tonic, ouvindo as garças reais que saíam da lagoa em bando, e passavam sobre nós, como nuvem, fazendo uma sombra que aproveitávamos para fugir ao calor do sol. Foi então que a janela do grande salão se abriu; e uma dama do palácio espreitou, embora tu tivesses dito que ela se queria mostrar, para que a víssemos. Já lhe tinhas escrito uns sonetos; e quando lhe chegaram, ás mãos, riu-se do anagrama com que transformaste Catarina em Natércia. «Se sou Natércia, tu és Siul!» E assim ficaram, ligados por essa troca de vogais e consoantes em que se enredaram, como esses galhos da vegetação tropical que se entrelaçam na maior das complicações. Enquanto eu dizia isto, tu acabavas a garrafa; e só sei que te vi entrar pela porta da cavalariça, ao encontro dessa que já fechara o cortinado, há muito.
O que não sabes é que voltámos para a Europa na mesma nau. O que se passou, não te vou dizer agora, mas podes imaginá-lo, já que não tiveste o gozo de experimentá-lo.
E não penses mais nela.
Valete Luís

Resposta do Oriente

Querido Públio
A tua carta apanhou-me em pleno golfo do Camboja, nadando para chegar à costa. «É o Camões a ir ao fundo!», vais tu dizer; e quem sou eu para te contrariar? Vou ao fundo, vou; e por muito que nade, já lá estou!
Mas não é para falar de desgraças que venho aqui. Dizia-te que nadava; e nado bem, porque aprendi as braçadas e o crawl nas piscinas de Macau, onde fui gerente de conta durante uns anos, até vir a recessão e me porem a andar. Por isso consegui nadar só com a direita, e na esquerda levava «Os Lusíadas»; mas quando a tua carta me caiu em cima, pus-me de bruços, passei «Os Lusíadas» para a direita, onde ficaram até ao 25 de Abril, e fiquei com a esquerda livre para a tua carta.
Fiquei com vontade de conhecer a Corina; e se ela soubesse nadar, como me dás a entender quando a comparas com as medusas do Averno, podia tê-la ao meu lado, e sempre iríamos falando de amor enquanto os pés nos levavam para terra. Vais dizer-me que isso não seria possível porque ela é muda; qual quê, não há nada que o amor não resolva, e se já vi pobres ceguinhas gritarem que estão a ver o céu no instante decisivo, é mais do que crível que a língua se solte a uma muda quando eu lhe começo a falar da paixão que desata o verbo e a carne.
Quanto ao resto, deixa-te de Direito! Não há constituição que te valha, meu caro exilado, quando os poderosos te detestam; e talvez seja melhor passares os teus dias nas casas negras de que me falaste, para que o teu discurso as ilumine e, sobretudo, ilumine os destinos das suas moradoras, tanto as jovens como as velhas - e olha que se como dizes só as há muito novas e para lá da idade, junta uma nova e uma velha, e terás o meio que procuras.
Exultate!
ODE
Esta estranha Corina, à minha porta, cruzou
os braços como se estivesse à minha espera;
e os seus cabelos flutuavam como as velas
que empurraram os argonautas, numa húmida
descoberta que não vale o velo de oiro. «Diz-me,
deusa vigilante, de onde vem o teu olhar
vago?» - «Não lhe fales, disse-me alguém, que
ela é muda como os cornos do Minotauro.»
Por isso o seu silêncio me fere; e a sua
boca se abre como os círculos traiçoeiros
do lago que atravessei, um dia, evitando
olhar para o seu fundo de corais e medusas.
Mas não foi assim com os olhos de Corina;
olhei-os, e eles puxaram-me para o pego de
onde não salvação, descobrindo o desejo
que me corrompe até fazer do meu corpo
uma rede por onde passam todas as
ilusões, não ficando uma sequer de sobra
para os que imaginam a felicidade.
«Ouviste falar de Éfeso?» diz-me o seu
ventre; e queria ser o cavalo de Tróia que
a invadisse, e se escondesse nela, até
ao instante em que a trombeta do amor
tocasse a investida. «Estou a falar a sério»,
diz-me esse amigo; «mas tu não és cego,
respondo-lhe, e as tuas palavras de
mármore caem-me em cima, desfazendo-me
a cabeça em mil pedaços de sonhos».
Corina, porém está agora sentada no
banco de pedra em que as sibilas ousaram
as profecias. Os viandantes param à sua
beira; e ela não lhes pode anunciar o
futuro. A uns, porém, enche as mãos com
o líquido quente das suas lágrimas; a
outros, sacode-os com o sorriso que os
iliba da catástrofe. Também eu falo a
sério, agora que adivinho o que ela me
quis anunciar. Deus nos salve das
mulheres que predizem o futuro; e nos
empurre para os braços das ignorantes,
cujo riso vale por mil palavras.

Ponto Euxino

Caro Luís
Estou há anos no Ponto Euxino, ouvindo as corujas que, pela noite, se abrigam no sótão de minha casa. O vento que vem do mar bate em tudo o que é madeira, e sinto-me como se estivesse rodeado por sombras, que a luz da minha candeia amplia até à dimensão de monstros. É de noite que vou escrevendo; e cada elegia traz-me à memória o que eu perdi, em Roma, onde sei que se junta todo o prazer do mundo. Não é o caso aqui. Há soldados, escravos, comerciantes que vêm da Ásia, e algumas mulheres que habitam as casas negras onde, em dias de necessidade, as tenho de ir procurar. Mas não te iludas: são, quase todas, ou muito novas, ou já ultrapassaram a idade da beleza. Por isso o meu contacto com elas limita-se ao que é necessário, nem sequer me dando ao trabalho de ouvir os seus pedidos para que me demore, e prossiga uma conversa que será sem dúvida agradável para elas, mas que para mim é penosa.
Também há algumas mulheres belas. São as que acompanham alguns oficiais mais novos, acabados de chegar, e que as trazem das suas expedições na fronteira. Mas não sei como aproximar-me delas; posso, no entanto, contemplar os seus rostos, e isso me basta para que, esta noite, tenha assunto para uma nova carta. Refiro-me a Corina, que me surgiu pela frente como serpente que escorre pela rua como um fio de água, mas que nos impregna com o seu veneno, que sobe até à cabeça num ápice, enchendo-a dessa amargura que a solidão aumenta. Não podes imaginar o que passei para me aproximar dela, e para lhe falar. Um dia, porém, mais uma vez ela passou na rua, com esse andar que nos suspende; e ao passar por mim deteve-se, embora sem me olhar, dando no entanto a entender que sabia quem eu era, e que a olhava de cada vez que ela passava à minha porta.
Mas queres saber? Não reagi; limitei-me a olhá-la, com o seu perfil de estátua, enquanto os seus braços se elevavam, num movimento de dança que se dirigia para o céu. E isso obrigou-me a desviar os olhos na direcção que ela apontava; e queres saber tudo? Uma chuva de ouro, ou um raio fulvo de sol, desceu sobre ela, impregnando-lhe os cabelos que, de louros, se transformaram numa dessas peças tocadas por Midas e que se transformam nesse tão doce metal. Só então me aproximei dela, e lhe toquei. O seu corpo estava duro, e frio; mas os seus lábios abriram-se num sorriso, como se me pedisse que a abraçasse e lhe restituísse o calor da vida.
Queres saber o melhor? Não o fiz! Deixei-a com esse sorriso nos lábios, e fui para casa, escrever uma ode, que lhe dediquei, embora soubesse que ela nunca a receberia. Escrevi intensamente, toda a tarde, e toda a noite; e nem sei quanto tempo mais ela ficou à minha porta, na sua imobilidade, à espera que eu me arrependesse e fosse até ela, ou apenas que a chamasse para minha casa, onde estou certo que ela entraria sem um instante de hesitação. E tu? Que farias tu a Corina? Como te invejo, caro Camões! Como gostaria de estar noutros climas e noutras temperaturas, adaptando-me a esse ambiente tórrido que favorece as paixões e nos arrasta com o seu vagar. Aqui, como deves imaginar, o tempo é outro; e logo de madrugada se ouvem os gritos dos vigias, nas suas torres situadas nos pontos cardiais da cidade, anunciando que o horizonte está livre, para que os portões se abram. Os seus gritos acordam-me, nas noites em que consegui adormecer; e vou logo para o Forum, onde tenho o meu trabalho, toda a manhã, decifrando a legislação que me há-de libertar, até ao pormenor, sem no entanto conseguir descortinar essa fresta que me possa dar, finalmente, a possibilidade do regresso.
Salve

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